Até talvez pior do que se costuma chamar a "lei do faroeste", crianças imigrantes que atravessaram a fronteiras sul dos Estados Unidos e se viram depois separadas dos pais estão a ser convocadas para depor em tribunal, no Texas, em processos que visam a sua deportação.

A denúncia feita esta quinta-feira parte da organização Centro de Direito de Defesa de Imigrantes, que se tem batido pela reunião das mais de duas mil crianças afastadas dos seus pais, na sequência da política de "tolerância zero" à imigração decretada pela administração Trump.

Defendemos recentemente uma criança de três anos de idade que tinha sido separada dos pais. E o menino, a meio da audiência, começou a subir para cima de uma mesa", disse Lindsay Toczylowski, diretora executiva do Centro de Direito de Defesa de Imigrantes, ouvida pelo jornal Texas Tribune.

A ativista sublinha, acima de tudo, "o absurdo do que está a ser feito às crianças". Mais ainda, quando um juiz federal, na passada terça-feira, ordenou à Casa Branca que reunisse as famílias de imigrantes separadas em 14 dias, caso as crianças tenham menos de cinco anos, ou em 30 dias, se os menores fossem mais crescidos.

Os pais serão os únicos a saber porque fugiram dos países de origem e as crianças estão numa posição desvantajosa para se defenderem", lembrou a ativista Lindsay Toczylowski.

Sem comentários

Da parte dos organismos oficiais, como  a agência de imigração, que supervisiona as deportações de imigrantes não autorizados, não há ainda qualquer comentário aos casos de crianças intimadas a depor, segundo relata o Texas Tribune.

Entretanto, cresce a indignação de diversas organizações humanitárias e de Direito face às situações agora denunciadas.

De acordo com o Texas Tribune, muitos advogados estão a oferecer-se e a dirigir-se para o estado do Texas para defender os menores que estão ser chamados a enfrentar processo de deportação. Alguns são adolescentes, outro apenas meninos de colo.

Dirigentes de três organizações humanitárias confirmaram que crianças imigrantes estão sendo confrontadas com avisos para comparecer ao tribunal. Sem terem um advogado, sendo-lhes dada apenas uma lista de instituições de serviços jurídicos que podem ajudá-las.

Não sabemos como a decisão de um juiz vai conjugar-se com a reunificação das crianças com as famílias. E se os pais já foram deportados?", questiona-se Cynthia Milian, uma advogada do Texas.

Isto é certamente inapropriado. Sinto vergonha do que estamos a fazer", afirma Benard Dreyer, diretor de pediatria da New York University School of Medicine.

Lindsay Toczylowski, do Centro de Direito de Defesa de Imigrantes, insiste na necessidade urgente de reunir as crianças e os pais imigrantes, algo que a organização está a tentar, para que os menores possam ser julgados juntamente com as famílias.

As crianças não entendem as complexidades envolvidas na deportação e no tribunal de imigração. Sabem apenas que foram separadas dos seus pais e o que querem é voltar para perto das pessoas que amam", concluiu.