Um dos países mais pequenos do mundo, o arquipélago das Ilhas Marshall, vai levar ao mais alto tribunal das Nações Unidas algumas das maiores potências nucleares do mundo: o Reino Unido, a Índia e o Paquistão. As audiências preliminares já estão em curso, numa ação judicial sem precedentes.

Nas décadas de 40 e 50, o pequeno arquipélago do Oceano Pacífico, agora com cerca de 70.000 habitantes, foi palco de dezenas de testes e ensaios nucleares. A 1 de março de 1954, por exemplo, os Estados Unidos lançaram na ilha de Bikini Atoll uma bomba de hidrogénio que ficou para a história. Equivalente a mil explosões de Hiroshima, a bomba, conhecida pelo seu nome de código, Castle Bravo, foi o mais poderoso dispositivo nuclear alguma vez detonado pelos norte-americanos.

Tony de Brum, um alto representante do país, não se esquece do dia em que, com apenas nove anos, assistiu a um desses testes. Tinha ido pescar com o pai quando, de repente, tudo mudou. 

“O céu ficou completamente vermelho”, descreveu em tribunal.

 

Atividade nuclear nas Ilhas Marshall em 1946 [Foto: Reuters]
Atividade nuclear nas Ilhas Marshall em 1946 [Foto: Reuters]

Agora, a República das Ilhas Marshall quer que algumas das maiores potências do mundo respondam, em tribunal, pelo impacto que a atividade nuclear teve na região, sobretudo na saúde dos seus habitantes e ao nível ambiental. Como exemplificou Jack Niedenthal, outro representante do país, em tribunal. 

“Posso falar dos problemas de saúde da família da minha mulher. E nem é preciso ir muito longe. A minha mulher morreu de cancro no útero, o tio da minha mulher morreu de cancro na tiróide. Qualquer habitante das ilhas pode dizer isto. ”

Inicialmente, o arquipélago iniciou ações judiciais contra nove países: os Estados Unidos, a Rússia, o Reino Unido, a França, a China, a Índia, o Paquistão, Israel e a Coreia do Norte. Mas só os casos contra o Reino Unido, a Índia e o Paquistão avançaram para o mais alto tribunal das Nações Unidas. 

As Ilhas Marshall acusam estes três países de terem violado as suas obrigações internacionais quanto ao desarmamento nuclear no país, após o Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares, assinado em 1968 (TNP). E mesmo sabendo que a Índia e o Paquistão não participaram neste acordo, o país defende que há uma ideia de princípio para o desarmamento nuclear nas leis internacionais.

As audiências começaram esta segunda-feira no Tribunal Internacional de Justiça em Haia, na Holanda. O caso avança num momento em que o tema das armas nucleares preocupa a comunidade internacional com as notícias que chegam da Coreia do Norte. Há poucos dias, Kim Jong-Un ordenou que o arsenal nuclear do país ficasse em “estado de prontidão permanente”, numa reação à resolução da Organização das Nações Unidas que endureceu as sanções contra Pyongyang.