Duplo, como agente, e multifacetado a toda a prova. Juan Pujol, catalão, nascido em Barcelona, é para muitos o mais relevante espião da segunda Grande Guerra. Para resumir, bastará saber que foi condecorado pela Alemanha nazi com a Cruz de Ferro e com a Ordem do Império britânico. Nada fácil, sobretudo, em tempos de guerra.

Documentos agora revelados pelos arquivos britânicos mostram que Garbo, nome de código como ficou conhecido entre os Aliados - já para os nazis seria Alaric Alabel - mostram que o espião levava a peito a sua atividade. Do género, 25 horas por dia, como sói dizer-se.

O facto insólito, revelado pela cadeia noticiosa Sky News, revela a maquinação que Garbo teve de criar para que a Operação Overlord não fracassasse. Isto é, que não fosse do conhecimento de Hitler que as tropas aliadas iam mesmo desembarcar no norte de França, nas praias da Normandia. No que ficará para sempre conhecido como o Dia D.

Pujol viu-se obrigado a criar uma "mise-em scène" para iludir a própria mulher, com a colaboração do MI5, os serviços secretos ingleses, para os quais trabalhava.

Saudades de Espanha

Londres, junho de 1943, um ano antes do desembarque, a vida familiar de Garbo era pelo menos tão complicada como a sua atuação profissional enquanto agente-duplo.

Farta da capital londrina, Araceli, a sua mulher infernizava-lhe a vida com saudades da família. Nada de mais. Simplesmente, queria voltar para Espanha, então sob o regime de Francisco Franco, muito próximo da Alemanha de Hitler.

Pujol manobrava nos bastidores para viabilizar o desembarque dos Aliados no continente europeu. Tinha já convencido os alemães de que a Operação Overlord, mais não seria do que um bluff. E que a verdadeira tentativa de invasão teria lugar mais tarde, em Pas de Calais.

Os alemães não tinham duvidado. Mas Araceli queria ir ver a mãe. E ameaçou o marido de ir à embaixada espanhola para o desmascarar. Garbo teve por isso de a enganar.

Preso pela secreta

A solução que germinou na cabeça do agente-duplo foi levada a cabo e surtiu efeito. Araceli teria mesmo tentado o suícidio. O seu estado psicológico era frágil. Por isso, o marido Juan Pujol convenceu-a de que tinha sido preso pelos serviços secretos do MI5. Para os quais trabalhava. E tudo por causa das ameaças da mulher de tencionar contar tudo sobre ele aos diplomatas espanhóis.

À cautela, a polícia britânica pôs-se a vigiar a embaixada espanhola em Londres. Não fosse Araceli por ali aparecer. Mas os documentos agora revelados contam que a mulher de Garbo foi levada para um interrogatório. E foi aí que viu o marido, com um uniforme de prisioneiro, sem estar barbeado, preso pelos ingleses.

Convenceu-se assim de que o seu Juan corria perigo. Até porque Garbo já antes estivera preso pelos ingleses, devido a espiar para os nazis. Fora aliás nessas situações que convencera o MI5 a passara contar com ele.

Vendo o marido novamente preso, Araceli desistiu de ir contar tudo à embaixada espanhola. Um ano depois, a 6 de junho, 160 mil soldados desembarcaram nas praias da Normandia. Foi o Dia D, o princípio do fim de Hitler, já então sem capacidade para suster a ofensiva soviética na frente leste.

Enganada outra vez

A vida de Juan Pujol, ou do agente-duplo Garbo, dava um filme. Aliás, já deu.

A guerra acabou e Garbo fez-se à vida. Pelo menos, deixou Londres, mas tudo indica que não terá abandonado totalmente as suas atividades.

Evitou voltar para a sua Espanha, ainda sob o regime de Franco, e refugiou-se com a mulher Araceli e os três filhos na Venezuela.

Aí deu várias entrevistas, foi-se dando a conhecer e foi um dia encontrado pelo jornalista e escritor Nigel West. É no livro "Operação Garbo" que se conta uma das últimas artimanhas do espião, que uma vez mais enganou a mulher.

Desta vez, Garbo enviou Araceli com os filhos de volta para Espanha, prometendo que, logo que pudesse, se lhes juntaria. Combinou então com a secreta inglesa e simulou a sua própria morte. Ficou-se pela Venezuela com uma nova muler, Carmen Cilia, e uma nova família.

Garbo morreu, de facto, a 10 de outubro de 1988, na capital venezuelana, Caracas. Tinha 76 anos. Foi cremado.