Uma criança de cinco anos atingida por estilhaços de um míssil no Iémen, e que acabou por morrer no hospital, está a tornar-se um símbolo para o fim da violência entre os Houthi e a coligação internacional liderada pela Arábia Saudita.

Fareed Shawky estava a brincar com alguns dos seus amigos junto a uma casa em Taiz, a 13 de outubro, quando o local foi atingido por um míssil lançado pelos Houthi. Estilhaços acabaram por atingir a criança na cabeça e num braço, provocando hemorragias internas. O pai de Fareed levou-o para o hospital, onde recebeu tratamento e foi operado, porém, a criança acabou por morrer alguns dias depois.

No hospital, Fareed foi filmado por um fotógrafo que havia assistido a tudo desde o início. No vídeo, a criança pede ao pai:

"Pai não me enterres. Não me enterres."


As imagens tornaram-se virais nas redes sociais, tendo o vídeo original - que pode ferir a sensibilidade de alguns leitores -  já sido visto mais de 50 mil vezes. A frase dita pela criança tornou-se uma hastag ( #do_not_bury_me) que os iemenitas estão agora a utilizar para alertar o mundo para a guerra, da mesma forma que a foto de Aylan Kurdi foi usada para alertar para o drama dos refugiados na Europa.

O fotógrafo, Ahmed Basha, contou à BBC que se lembra de ter ficado imóvel quando ouviu o míssil ser disparado, questionando-se onde iria cair. A ogiva acertou numa zona residencial, exatamente numa casa, onde Fareed e outras quatro crianças estavam a brincar.

“Estava numa rua quando ouvi o míssil ser lançado e congelei, perguntando-me onde cairia. (…) [Caiu] numa casa, vi pelo menos cinco crianças que estavam a brincar à porta serem levadas para o hospital.”

O fotógrafo acompanhou Fareed, que foi o que sofreu os ferimentos mais graves, e decidiu documentar o acontecimento. Acabou por publicar o vídeo no seu Facebook para alertar para as mortes casadas pela guerra. Basha apenas lamenta que o vídeo só tenha recebido atenção depois da morte da criança.

“Fiquei com o coração partido por esta criança, e então publiquei o vídeo no Facebook, mas não recebeu muita atenção. É uma pena que as pessoas não se tenham importado enquanto ele estava vivo. As suas últimas palavras vão ficar comigo.”


A guerra entre a coligação liderada pela Arábia Saudita e os Houthis já causou a morte a pelo menos 2.300 civis, incluindo mais de 500 crianças.