A corrida à nomeação republicana está a começar com o favoritismo de Jeb Bush, a entrada forte de Scott Walker nos estados de arranque, a confirmação de Mike Huckabee no Iowa (amor antigo do ex-governador do Arkansas) e algumas surpresas (como a popularidade de Ben Carson, as dificuldades de Chris Christie e Marco Rubio ou a desistência precoce de Mitt Romney).
 
Mas há um candidato, que se posicionou cedo, que mostra um caminho mais sólido, não tão dependente das circunstâncias do momento, embora esteja longe de habitar no olimpo dos favoritos à nomeação:  Rand Paul.
 
Randal Howard «Rand» Paul, 52 anos, senador pelo Kentucky desde 2011, nasceu em Pittsburgh, Pensilvânia.
 
Filho de Ron Paul (antigo congressista que tentou três candidaturas presidenciais, sempre com proposta libertária, na margem direita do Partido Republicano), Rand herdou a base mobilizada (mesmo que sempre com estigma de fação e nunca de maioria dominadora) que apoiou durante décadas a visão do pai.
  
Em traços gerais, o que os apoiantes de Ron Paul defendem é uma América que se cinja aos princípios gerais da constituição, que impeça o crescimento do governo, que mantenha um estado nos limites mínimos, que deixe aos cidadãos liberdade quase total (daí o rótulo «libertário», que nos EUA é associado à direita do «mainstream» republicano»).
 
Ora, se esse discurso até há uns anos empurrava Ron Paul para fora do eixo dominante de quem decidia as nomeações presidenciais na direita americana, a verdade é que boa parte destas propostas passaram a ser quase «mainstream» no discurso do Partido Republicano.
 
Talvez por isso, Rand mantém-se no «core» do partido e nem sequer pensa em sair para as margens, como fez o pai.
 
Médico de formação, especializado em oftalmologia, Rand deu os primeiros passos na política envolvido nas campanhas do pai (para o Congresso e nas primárias presidenciais de 1988 e 2008).
 
Em 2012, Ron ainda tentou uma terceira campanha presidencial, numa altura em que o filho já era senador pelo Kentucky.
 
Ron nunca chegou a vencer um estado significativo nas primárias republicanas, mas andou lá perto. A base está lá e com Rand ela até pode ser um pouco alargada.
 
Tal como o pai, Rand é crítico da intervenção estatal alargada e, nos últimos anos, aumentou o tom dessas críticas em temas como a vigilância da NSA, o programa de drones (e a possibilidade que mate americanos) ou a redução de impostos (ideia que lhe dá créditos no campo republicano).
 
Mas Rand, também à imagem do que foi o pai nas últimas décadas, não alinha em todas as bandeiras dominantes do discurso do seu partido.
 
Ao contrário do que defenderam líderes republicanos como Marco Rubio ou Ted Cruz, Rand Paul apoiou a aproximação a Cuba, promovida pelo Presidente Obama.

E fundamentou-a assim, em artigo na «Time»: «Cresci numa família que desprezava, não apenas o comunismo, mas o coletivismo, socialismo e qualquer «ismo» que privava os direitos individuais e respetivos direitos naturais (...) Penso que uma política de isolacionismo de Cuba é errada e não tem funcionado. Apoio o envolvimento, a diplomacia e o comércio com Cuba, China, Vietname e muitos países com menos credenciais em direitos humanos, porque acredito que as pessoas sujeitas a regimes sem direitos, quando experimentam os benefícios do capitalismo vão querer mais liberdade. Os apoiantes do embargo com Cuba falam com paixão exacerbada, mas calam-se estranhamente quando lhe perguntam em que é diferente Cuba da Rússia, da China ou do Vietname. É uma posição inconsistente e incoerente defender relações comerciais com outros países comunistas, mas não com a China».

A questão cubana até gerou forte polémica entre Rand Paul e Marco Rubio, via twitter. E pode marcar boa parte da discussão da batalha republicana nos próximos meses. 

O que diferencia, no essencial, Rand Paul do pai Ron? Um maior enfoque do filho na classe média e nos segmentos que lhe podem dar a vitória. Jeremy Peters, no «New York Times», nota: «Enquanto luta por um apoio largo a nível nacional, Rand tenta juntar mundos diferentes. Há aqueles que são mais jovens, aqueles que tenderiam a votar democrata... Há o «establishment», elementos centro-direita do Partido Republicano. E há os mais fervorosos libertários, mais próximos do movimento Ron Paul».

Mesmo com abordagem mais «mainstream» que o pai, há uma estranha forma de rebeldia em Rand Paul. Dificilmente se imagina este oftalmologista na Casa Branca, mas talvez consiga baralhar as contas na corrida à nomeação presidencial republicana para 2016.  
 
Germano Almeida é jornalista do Maisfutebol, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição» e do blogue «Casa Branca»