O debate desta noite (8pm EDT, 01h da madrugada de quarta para quinta em Portugal) será novo teste para se confirmarem as tendências absolutamente surpreendentes das últimas semanas, na corrida republicana à nomeação presidencial de 2016.
 
Jake Tapper, 46 anos, chefe dos correspondentes da CNN em Washington, será o moderador do segundo debate presidencial republicano, a realizar na Reagan Presidential Library, em Simi Valley, Califórnia.
 
Pivot da CNN, apresenta os programas «The Lead with Jake Tapper», à semana, e «State of The Union», aos domingos de manhã. Vai liderar um debate com duas horas e 45 minutos (mais uma hora que o debate da Fox, sendo que esse primeiro debate teve três moderadores). O debate terá também perguntas da jornalista da CNN Dana Bash e do radialista conservador Hugh Hewitt.

Os temas incidirão em questões de política interna e externa e ainda em assuntos ideológicos.
 
O debate principal terá 11 candidatos: mais um do que o painel principal do debate de Cleveland.
 
Isto porque a CNN, após o bom desempenho de Carly Fiorina no debate alternativo de Cleveland (a ex-CEO da Hewlett Packard ganhou com mais de 80% de preferências dos espectadores esse debate), decidiu incluir a única mulher entre os 15 pré-candidatos, na sequência de uma emenda nos critérios de admissão: passou a contar a média das sondagens nacionais entre 6 de agosto e 10 de setembro.
 
Ora, à luz desses critérios, os dados são estes: 1) Donald Trump: 27.8%; 2) Ben Carson: 14.0%; 3) Jeb Bush: 9.2%; 4) Ted Cruz: 7.4%; 5) Scott Walker: 5.6%; 6) Marco Rubio: 5.4%; 7) Carly Fiorina: 4.4%; 8) Mike Huckabee: 4.4%; 9) Rand Paul: 3.2%; 10) John Kasich: 3.6; 11) Chris Christie: 2.8%.

Com estes resultados, nenhuma dúvida em incluir Carly Fiorina no painel principal.

Fiorina, ok, mas... Christie porquê?
 
A questão que sobra (e que na verdade a CNN não esclareceu por completo) é o porquê da inclusão de Chris Christie, que está claramente abaixo do décimo classificado e, mesmo assim, se manterá no debate maior.
 
No segundo bloco, numa espécie de «kid’s table», ficam Rick Santorum (0.8%), Bobby Jindal (0.56%), George Pataki (0.44%) e Lindsey Graham (0.28%).
 
Teria entrado também Rick Perry (1.08%), mas o ex-governador do Texas, desiludido com o rumo da sua campanha e já com dificuldades em pagar ao seu «staff», decidiu «suspender as atividades como candidato», forma eufemisticamente de anunciar que tinha desistido.
 
Trump, Trump, Trump
 
Ainda é isto que está a dar na corrida republicana. A liderança de Donald continua a surpreender e ainda mais quando olhamos para a evolução dos números: o multimilionário é cada vez mais líder e já surge em sondagens nacionais acima dos 30% e nos estados de arranque com vantagens enormes (40% no New Hampshire, em sondagem CBS/YouGov, para apenas 12% de Ben Carson e todos os outros com um só dígito).
 
No Iowa, a vantagem de Trump não é assim tão grande (está abaixo dos 30%), muito por culpa do bom desempenho de Ben Carson: 25% das preferências no «caucus» de arranque.
 
Mas o que é quase desconcertante na liderança de Trump nas sondagens é que o inesperado ‘frontrunner’ republicano se revela especialmente forte nos itens em que, supostamente, todos lhe apontariam fraquezas: 33% das mulheres republicanas preferem Trump (!), aponta sondagem recente CNN/ORC.
 
Questionados sobre o que levam a preferir Trump aos outros candidatos, os «eleitores Trump» respondem: 71% pelas posições de Donald em assuntos chave; 21% pela «job experience».
 
E mesmo em relação ao suposto apoio do Tea Party (41% dos eleitores Tea Party preferem Trump), a verdade é que nos republicanos ‘não Tea Party’, a preferência por Donald é significativa: 32%.
 
Ora, isto mostra que uma em cada três mulheres republicanas diz, neste momento que irá votar Trump; e que um em cada três republicanos supostamente «moderados» também.
 
Como encarar esta total surpresa? A resposta deve, neste momento, ser desafio enorme aos estrategas e conselheiros de campanha de Jeb Bush, Scott Walker, Marco Rubio e restantes candidatos.
 
Ben quê?

Mas o momento republicano não é só de Trump: é também de Ben Carson.
 
O neurocirurgião negro, um perfeito desconhecido para milhões de americanos até há poucas semanas, tem com Donald um aspeto em comum: não é «político profissional». E isso, claramente, está a render neste fase da corrida.
 
Ben tem discurso crítico de «Washington», mas distingue-se de Donald por ser mais empático e ter um estilo menos agressivo: enquanto Trump aposta na «execução», Carson aposta na «sedução».
 
Os números mostram Ben a aproximar-se de Donald nas sondagens nacionais e no Iowa. A ponto de começar a ser possível pensar-se em algo histórico: pela primeira vez um negro vir a ganhar um estado nas primárias republicanas.
 
E sondagem de ontem New York Times/CBS aponta para aproximação considerável de Carson a Trump: 27% para Donald, 23% para Ben. No último estudo NYT/CBS, Trump tinha 24% (subiu apenas 3%) e Carson... 6% (deu um pulo de 17%).

Mais do que isso? Não é impossível. Mas terá implicar uma vitória de Carson neste segundo debate. Tendo em conta a sua prestação no primeiro, pode acontecer.
 
O que se passa, Jeb?

 
Pois, é mesmo uma pergunta obrigatória: Bush anda simplesmente afundado nas sondagens.
 
Há dois meses era líder, com 17%. Agora nem aos dois dígitos chega nas sondagens nacionais.
 
Nessa mesma sondagem NYT/CBS, Jeb tem apenas 6% (tinha 13%) na anterior.

Nos estados de arranque, então, é alerta máximo no campo Bush: estudo CBS/YouGov coloca Jeb em oitavo (!) no Iowa, com apenas 3%.
 
Sim, esta é uma corrida longa. Mas um dos focos do debate de logo à noite estará no ex-governador da Florida: tem que mostrar capacidade de se manter como «favorito natural» à nomeação.
 
Outro caso de alarme total é o de Scott Walker: chegou a liderar no Iowa, agora tem só 5%.
 
Marco Rubio, para muitos o candidato que melhor se saiu no primeiro debate, terá também uma prova de fogo na Ronald Reagan Presidential Library: caso volte a destacar-se pela qualidade como debatente, pode marcar pontos.

Rand Paul, senador do Kentucky que também tem sido forte vítima do fenómeno Trump, já prometeu: «Vou aproveitar o debate de quarta à noite para bater forte em Donald».

Mas nada disto é literal na corrida republicana: enquanto se mantiver este cenário imprevisto de Trump e Carson muito à frente dos «políticos profissionais», os modelos clássicos de análise podem não funcionar.

Até porque este é só o segundo de... 12 debates republicanos já previstos para estas primárias. 

Os democratas terão o primeiro debate a 13 de outubro, em Las Vegas, também organizado pela CNN.
 
«Only in America»… mais uma vez.
 
Germano Almeida é jornalista do Maisfutebol, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição» e do blogue «Casa Branca»