Tornar real para o americano comum a recuperação económica que os Estados Unidos exibiram nos últimos anos e, muito em particular, nos últimos meses.
 
No penúltimo State of The Union (Estado da União) da sua presidência, Barack Obama vai exortar o Congresso a aprovar medidas que beneficiem 99% dos americanos, propondo aumentos fiscais para os 1% mais ricos, ou seja, casais que ganhem acima de 500 mil dólares/ano.
 
A tese, que dominou boa parte do primeiro mandato de Obama e foi sendo adiada pelo «gridlock» com os republicanos, teria tudo para voltar a emperrar, logo agora que o 114.º Congresso, iniciado há três semanas, tem ainda maior maioria republicana e, pela primeira vez na era Obama, também no Senado, já não apenas na House of Representatives.

Mas o crescimento económico acima do esperado (maior da última década nos EUA) dá ao Presidente trunfo suplementar para insistir na questão.

As contas da Casa Branca apontam para uma receita de 320 mil milhões de dólares na próxima década, decorrente do aumento proposto de 23,8 para 28% de taxação dos casais que ganhem mais de 500 mil dólares/ano. Um valor que permitiria pagar incentivos à classe média e ajuda mais pobres, em setores como a educação ou saúde.
 
Em 2013, a ideia nova do SOTU (State of The Union) foi o acordo comercial e estratégico com a Europa (que ainda está a ser negociado); no ano passado, Obama lançou a questão do aumento do salário mínimo (já pegando nos bons índices económicos que se sentiam na altura nos EUA, entretanto reforçados em valores acima do esperado, nos 12 meses que passaram).
 
Para 2015, prevê-se, assim, que o Presidente defenda uma União mais justa, acelerando a Reforma Fiscal, que Obama acredita ter agora o seu momento certo: taxação dos 1% mais ricos de modo a obter 320 mil milhões de dólares na próxima década, a distribuir pelos restantes 99% dos americanos; taxação sobre o passivo das 100 empresas mais ricas do setor financeiro, para limitar a especulação.  
 
Nas semanas a seguir à derrota nas intercalares, Obama reagiu ao risco de insignificância política com ações presidenciais: Imigração, acordo com Cuba, acordo ambiental com a China, proposta ao Congresso de plano climático.
 
Essa atitude foi encarada pelos opositores como um abuso das funções presidenciais, que naquele sistema são enquadrados pelo contrapeso do Congresso.
 
Depois da reação agressiva, é de esperar que, terça à noite, Barack Obama seja mais conciliador na primeira vez que se dirigir a um Congresso totalmente dominado pelos republicanos.
 
Mas não uma conciliação defensiva: tudo indica, em função do que a Casa Branca já foi libertando nas últimas horas, que o Presidente desafie o Congresso a aprovar medidas que decorram dos bons dados económicos apresentados pelos EUA em 2014: trimestre com maior crescimento nos últimos 11 anos (julho/setembro, 5%), três milhões de empregos criados ao longo do ano (o melhor registo da última década), previsão de crescimento para 2015 de 3% (o maior da última década).
 
Ao mesmo tempo, a descida drástica do petróleo (estava há um ano acima dos 90 dólares, está a caminho dos 40…) está a permitir também uma baixa nos preços dos combustíveis, o que tem dado alívio adicional às famílias americanas.
 
No plano externo, o Presidente deverá pedir apoio republicano à sua luta contra o Estado Islâmico e, agora com mais foco, também contra o perigo terrorista em solo americano e europeu.
 
E manterá agenda ideológica em temas como independência energética, apoio a estudantes com dificuldades económicas e soluções para as alterações climáticas.

A exatamente dois anos de sair da Casa Branca (o seu sucessor toma possa a 20 de janeiro de 2017), e a um ano do último SOTU que endereçar, este talvez seja o Estado da União mais relevante para o legado que Barack Obama pretenda deixar.

Mais do que o Presidente «da mudança» ou da «reconciliação» (retórica de 2008), Obama pretende agora ficar como o líder que relançou a economia americana (os números estão aí a prová-lo) e que deu uma nova oportunidade à classe média.

Sobre essa batalha, talvez os resultados finais só sejam conhecidos no próximo mandato. Será tarefa para Hillary Clinton completar?

Germano Almeida é jornalista do Maisfutebol, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição» e do blogue «Casa Branca»