A corrida presidencial norte-americana para 2016 avança a passos largos (o leque de candidatos republicanos já vai em dez e está prestes a subir, em vésperas do anúncio formal de Jeb Bush, e do lado democrata, Hillary fará este sábado o primeiro discurso em comício) e isso poderia diminuir a capacidade de Barack Obama marcar a agenda na política americana.

Mas o que está a acontecer é algo bem diferente.

Os últimos dias voltaram a provar que as posições e prioridades do 44.º Presidente dos EUA vão continuar a determinar o essencial da rota política da América no próximo ano e meio. Ainda que nem sempre pelos melhores motivos.

A ameaça russa estará, cada vez mais, na lista de prioridades da reta final da presidência Obama.

Na recente cimeira do G7, o presidente norte-americano não podia ter sido mais claro. Putin, acusou Obama, tem um «desejo obstinado de recrear as antigas glórias do império soviético».

E o presidente dos EUA lançou mais um aviso ao homólogo do Kremlin: «Estamos prontos para tomar futuras medidas restritivas de modo a aumentar os custos na Rússia, se as ações assim o determinarem».

Mas Obama não se preocupou só com Putin, na cimeira realizada na cidade alemã de Krun: insistiu muito na questão ambiental (as mudanças climáticas serão outra prioridade do ano e meio final deste Presidente), apelou ao «sentido de responsabilidade» do governo de Tsipras, na crise grega» e até exigiu «transparência» à FIFA.
 
O Iraque, sempre o Iraque

Alterações climáticas, independência energética, responsabilidade e ética nas relações internacionais e nas regras do jogo no futebol mundial: temas caros a Obama, sim, mas há sem dúvida um problema maior a encarar com prioridade máxima -- o Médio Oriente.

Dentro dessa grande tenda, dois pontos especialmente sensíveis (ambos diretamente ligados): o Iraque e o combate ao Estado Islâmico.

As últimas semanas são preocupantes: o ISIS a conquistar Ramadi, no Iraque, e Palmira, na Síria; também a ganhar posições a norte de Aleppo.

Obama, contestado em diversas frentes pela forma como está a liderar a coligação que trava combate ao EI, voltou a confessar: «Os EUA ainda não têm uma estratégia completa e total». Mas o líder da Casa Branca insistiu na urgência de uma mudança de atitude das autoridades iraquianas, remetendo alguma culpa ao governo de Abadi na perda de Ramadi: «Queremos mais tropas iraquianas treinadas, frescas, bem equipadas e concentradas. Abadi quer o mesmo, por isso estamos neste momento a rever os planos de como podemos fazer isso».

Pressão sobre Abadi

E Obama não quer só mais envolvimento dos iraquianos. Apela à ação dos muçulmanos sunitas em geral, numa separação de águas entre os sunitas moderados e os jiadistas radicais, também sunitas, do Estado Islâmico:  «Temos vistos tribos sunitas que não só querem e estão preparadas para combater o Estado Islâmico, como têm-no feito com sucesso.  Isto não tem acontecido com a velocidade necessária.»

O Presidente dos EUA já não tem tempo nem margem política para assumir uma mudança dramática na estratégia contra o «Daesh». Envio maciço de tropas para o terreno está fora de hipótese. Mas o recente envio para o Iraque de mais 350 «conselheiros militares» (muitos deles, na verdade, operacionais altamente especializados, capazes de dominar as tecnologias de ponta que os militares iraquianos no terreno não estarão a aproveitar devidamente) reforça a ideia de que o combate ao Estado Islâmico exigirá sempre um complemento «on the ground» às ações aéreas da coligação.

Recuo no Trade Deal

Outra frente importante para Obama neste ano e meio são os grandes acordos comerciais e de investimento com o Europa e o Pacífico. Integram-se na visão multilateral do Presidente de recentrar os EUA como pêndulo fundamental das relações internacionais. 

Só que, por diferentes motivos, Barack não tem grandes aliados internos nessa sua intenção. Se em quase tudo o resto sofre forte e feroz oposição dos republicanos, no grande acordo com o Pacífico está a ter divergências muito complicadas de resolver com os seus amigos democratas no Congresso.

A explicação é relativamente simples: os democratas eleitos para o US Congress têm como intenção fundamental defender os interesses dos sindicatos que os apoiam nos respetivos estados. E receiam que o «Trade Deal» leve à perda de postos de trabalho americanos e a uma abertura não regulada a mercados asiáticos, que possam ser hostis aos «traditional american jobs».

Nesta sexta, como era de esperar, e apesar de apelo final de Obama no sentido de que tal não acontecesse, os democratas na House rejeitaram a Trade Bill: «Queremos um acordo melhor para os trabalhadores americanos», explicou Nancy Pelosi, a líder da minoria democrata na Câmara dos Representantes.

A vida está difícil para Barack Obama. Mas, desde que chegou à Casa Branca, sempre esteve, não é verdade? 

Germano Almeida é jornalista do Maisfutebol, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição» e do blogue «Casa Branca»