«Este discurso vai claramente na direção certa ao impor um mínimo impositivo para os mais ricos a fim de investir na educação»
THOMAS PIKETTY, autor do «best-seller» «O Capital no Século XXI»
 
«A realidade é que o discurso sobre o Estado da União foi muito bom, mas o presidente Obama tem uma ideia para torná-lo ainda melhor: cobrar impostos de Wall Street e dos super-ricos para que o trabalho da classe média seja mais rentável. É Piketty com sotaque norte-americano»
MATT O’BRIEN, Washington Post
 
«Onde é que está o dinheiro para todas aquelas boas intenções do Presidente?»
RAND PAUL, senador do Kentucky, possível candidato presidencial republicano
 
«O presidente Obama disse muito bem: ‘As coisas vão melhor para este país quando todos têm oportunidades, todos contribuem com a sua parte e todos jogam sob as mesmas regras’»
ELIZABETH WARREN, senadora do Massachussets, possível candidata da ala esquerda nas primárias do Partido Democrata
 

Terá sido um dos melhores «Estados da União» para Barack Obama, em ambiente de euforia económica e com a noção de que os EUA voltaram a liderar, ao apresentarem níveis de crescimento superiores aos «BRIC».
 
Como o Presidente amplamente repetiu: «Desde 2010, os Estados Unidos criaram mais empregos do que Japão, Europa e todas as economias avançadas juntas».
 
A mensagem que Obama queria lançar no seu penúltimo State of The Union parece ter passado: o receio de que «os melhores dias da América poderiam ter já estado para trás» já não existe, como no início da sua presidência.

Mesmo os mais aguerridos opositores desta administração (e há muitos) admitem que há melhorias económicas, embora ainda estejamos longe de ver um consenso sobre a dimensão real desse crescimento no «americano comum».

Ora, foi precisamente esse ponto que dominou a intervenção do Presidente, no discurso de dia 20 à noite, perante um Congresso agora totalmente dominado pelos republicanos.

Obama não se limitou a festejar os melhores números económicos da última década: apontou um plano para que essa melhoria seja sentida pelo grosso da população.

E, perante sorrisos amarelos de muitos congressistas republicanos, questionou em jeito opinativo: «Isto são boas notícias, não são meus senhores?»

O problema é que o plano do Presidente, para muitos com o fato de «Robin Hood» vestido, vai contra os dogmas mais inamovíveis de quem agora controla na totalidade as duas câmaras do Congresso, depois das eleições intercalares de novembro.

Os republicanos mantêm-se fiéis ao «mantra» de estarem contra qualquer subida de impostos: mesmo para os mais ricos (no caso de alguns republicanos... «sobretudo para os mais ricos»).

A ideia pode parecer absurda para quem segue uma lógica de progressividade fiscal (paga mais quem ganha mais), mas nos EUA há correntes, com força e «lobby» junto de muitos congressistas, que acreditam que, para que a economia tenha dinheiro, há que aliviar os mais ricos, de modo a que estes tenham todas as condições para investir e, dessa forma, criar empregos.

O que Barack Obama quis dizer perante o Congresso, de forma muito clara e sonora, foi: a crise já passou, os EUA crescem a um ritmo muito satisfatório. Chegou, por isso, a altura, do estado central intervir fortemente e, pela via fiscal, assumir alguns princípios sólidos para a visão de sociedade que pretendemos corporizar: apoio aos mais necessitados, inventivo a quem quer estudar, incentivo a quem quer arriscar, pôr mais dinheiro no bolso das famílias, sobretudo daquelas que ganham menos e têm mais filhos.

Nada que nos surpreenda muito deste lado do Atlântico (são, em termos gerais, estes os princípios que regem os escalonamentos fiscais nos sistemas europeus), mas algo que ainda está em profunda discussão na socidade americana, mais avessa ao peso do Estado e à intervenção federal para corrigir as assimetrias sociais.

Os elogios de Thomas Piketty, autor do «best seller» «O Capital no Século XXI» ( «este discurso vai claramente na direção certa») confirmam que a proposta de Barack Obama coloca esta intervenção do Presidente como a prova definitiva de que, neste momento, habita a Casa Branca alguém com uma agenda liberal (do ponto de vista americano), com uma ideologia de esquerda (algo que o seu discurso de posse no segundo mandato, a 21 de janeiro de 2013, parecia já ter anunciado, embora os meses seguintes não o confirmassem por completo).

Os aplausos de Elizabeth Warren também são significativos: várias vezes, nos últimos tempos, a combativa senadora democrata da Massachussets, campeã de uma certa «consciência de esquerda» no Congresso, criticou o Presidente por ter cedido demasiado às pressões republicanas. Desta vez, a senadora Warren gostou do que ouviu da boca do Presidente.

E agora, republicanos?

Dificilmente a «reforma fiscal» de Obama passará no Congresso. Isso seria um precedente enorme no «mantra» republicano. Mas há dinâmicas novas a avaliar na direita americana.

As duas candidaturas que se perfilam como as mais fortes nas primárias do Partido Republicano (Jeb Bush e Mitt Romney) já têm dado sinais de algumas preocupações na área da coesão social e no apoio aos menos favorecidos (certamente cientes de que sem apoios dessas áreas dificilmente terão hipóteses na eleição geral com Hillary).

Falta saber que via dominará o comportamento republicano no Congresso a partie de agora: se uma posição mais centrista e negociadora (Jeb Bush, Mitt Romney, Chris Christie, sendo que nenhum deles é congressista, mas todos têm apoiantes republicanos nas duas câmaras de Capitol Hill) ou a lógica dogmática que tem prevalecido, mais à direita, influenciada pelo Tea Party (Rand Paul, Paul Ryan, Ted Cruz. Mike Huckabee).

Cabe, assim, uma palavra de enorme importância a John Boehner, o «speaker» republicano da Câmara dos Representantes e, sobretudo, a Mitch McConnell, o líder da nova maioria republicana no Senado.

Ambos têm vontade de algum tipo de compromisso (não querem, por certo, mais dois anos de obstrução completa), mas têm também receios do que a direita do partido republicano vai querer impor.

Pelo meio, será de acompanhar de perto as futuras posições e votação de Marco Rubio, senador republicano da Florida: já foi «tea party darling», já tentou moderar-se na Imigração, voltou a juntar-se aos extremistas e agora, talvez de olho numa futura candidatura presidencial, defende propostas na área fiscal que, embora não apontem para a taxação dos mais ricos como quer Obama, favorecem boa parte da classe média (sobretudo a ideia de incluir os benefícios fiscais no salário mensal).

Entre as ondas de choque do discurso de Obama no State of The Union, as ambiguidades republicanas sobre como aproveitar a maioria no Congressso e a corrida presidencial que está prestes a começar, os próximos tempos na política americana vão ser bem interessantes de seguir.

Germano Almeida é jornalista do Maisfutebol, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição» e do blogue «Casa Branca»