Barack Obama tem dois enormes desafios a resolver nas próximas semanas.
 
Um deles é interno: a aprovação do Orçamento para 2016, depois de se ter evitado, por horas, um novo «shutdown» governamental (o Congresso aprovou, sobre o «deadline», lei que o impediu, com 32 senadores republicanos a juntarem-se aos democratas e 91 membros do GOP na House também a votar ‘sim’).
 
O outro é externo, a nova etapa na luta contra o Estado Islâmico, com a entrada em cena de Vladimir Putin, como trunfo ambíguo pela sua relação com Assad.
 
Desde o agravar no conflito na Ucrânia que Obama e Putin têm andado de candeias às avessas. A tensão entre Washington e Moscovo chegou a níveis que não permitiam uma relação normal entre os dois líderes.
 
Mas, como tantas vezes acontece na política internacional, houve um inimigo comum a aproximá-los: o Estado Islâmico.
 
A Rússia demorou a envolver-se diretamente na ameaça jiadista sunita. Mas finalmente está a agir em conformidade.
 
Aliada do regime de Assad, Moscovo entendeu que chegou a altura de atuar.
 
O recente encontro de mais de hora e meia entre Obama e Putin foi a confirmação definitiva de que os EUA e a Rússia estão finalmente a cooperar nesta questão, certamente empurrados para tal perante a escalada do problema dos refugiados a entrar pelo espaço europeu.
 
Mas essa cooperação ainda não significa por inteiro uma união de esforços. Americanos e russos querem derrotar o Estado Islâmico, sim.
 
Mas enquanto os EUA se recusam a ajudar militarmente Assad (e até admitem combatê-lo e derrotá-lo), a Rússia de Putin já começou a envolver-se diretamente na guerra da Síria, agindo ao abrigo dos interesses de Assad.
 
A Casa Branca, por via do secretário de Estado John Kerry, já fez saber que, desde que as ações militares russas na Síria sejam contra o Estado Islâmico, tudo bem («se a Rússia for apenas atingir o ISIS, estamos preparados para ajudar»). E, para já, o Kremlin vai dizendo que é só isso.
 
O problema é que Putin dá sinais de querer envolvimento direto na guerra da Síria, ajudando a permanência de Assad e combatendo a oposição síria ao regime dominante. As ações aéreas russas das últimas 72 horas para isso apontam.
 
Josh Earnest, porta-voz da Administração Obama, avisou: «A Rússia não será mais bem-sucedida na luta contra o ISIS do que os EUA foi no Iraque».
 
Em estilo bem mais direto, como é seu costume, o senador John McCain, do Arizona, lançou: «É melhor que Putin saia do caminho».
 
Ora, se isso se verificar, a relação Obama/Putin pode ficar ainda mais ambígua e complexa.
 
Obama e o Papa
 

Mas nem tudo foi complicado na gestão internacional da agenda do Presidente Obama. A visita do Papa aos EUA foi um sucesso.
 
Os dois maiores líderes do nosso tempo (Obama e Francisco) surgiram como os grandes defensores de uma via política que aponte para que as grandes potências enderecem seriamente as alterações climáticas.
 
O tema foi encarado de frente no discurso do Papa Francisco em pleno Congresso americano. Nessa parte, só teve aplausos dos democratas. Os republicanos, céticos em relação ao «ClimateChange», ouviram, em silêncio.
 
Mas, pouco depois, os mesmos republicanos aplaudiram entusiasticamente o Papa quando este se manteve firme na oposição ao aborto.
 


A saída inesperada de John Boehner
 
O tempo em Washington é de alguma perturbação política.
 
O anúncio inesperado do «speaker» do Congresso, o republicano John Boehner, do Ohio, de se demitir até ao fim de outubro, abriu um novo capítulo na agenda política da maioria republicana no Capitólio.
 
Está aberta a corrida à sucessão e o primeiro pretendente anunciado (e forte candidato) é Kevin McCarthy, atual líder da maioria republicana na Câmara dos Representantes e congressista da Califórnia.
 
Se ouvirmos os candidatos presidenciais republicanos nestas primárias, percebemos que há grandes divisões no GOP.
 
Setores mais à direita, representados por nomes como Mike Huckabee, Ted Cruz ou Rick Santorum, desejam um Partido Republicano ainda mais obstrutivo do que tem sido para com a agenda do Presidente Obama.
 
Esta questão deverá dominar a sucessão de Boehner, que em alguns momentos críticos foi acusado de não ter sido suficientemente destrutivo para com os intentos do Presidente Obama.
 
O próximo teste já está em marcha: a discussão sobre o Orçamento.
 
Num cenário de grande maioria republicana nas duas câmaras (embora ‘filibuster’ de bloqueio democrata no Senado), Obama sabe que terá que fazer concessões (como sempre aconteceu, ano após ano, desde 2009, de resto).
 
Mas do lado republicano preparam-se, em dois temas cruciais («Planned Parenthood» e «Obamacare»), medidas de «reconciliação» (que precisam de apenas 51 votos no Senado, e não os 60 de Supermaioria que os republicanos não têm), de modo a aprovar legislação que impeça partes significativas da Reforma da Saúde e do planeamento familiar.
 
O que fará Barack Obama com a sua «veto pen» a essas leis que receberá do Congresso republicano?
 
Esta foi a última crónica «Histórias da Casa Branca» no site TVI24. Pode continuar a seguir as análises de Germano Almeida no blogue «Casa Branca» e na página Facebook «Observatório2016»