«Tratar as mulheres como cidadãs de segunda classe é uma má tradição. Mantém-vos na retaguarda. É uma desculpa para a agressão sexual e para a violência doméstica. Não há razão para que raparigas sofram mutilação genital. Não há lugar, em sociedades civilizadas, para forçar crianças a casar. Estas tradições podem ter séculos; mas não têm lugar no século XXI».
Barack Obama no Quénia, julho de 2015
 
 
«Não se deve ser presidente para sempre. Não entendo porque as pessoas querem ficar tanto tempo - sobretudo quando têm tanto dinheiro! Eu acho que sou bom presidente. E se me recandidatasse, podia vencer. Mas não posso. E lei é lei e ninguém está acima dela. Nem o presidente».
Barack Obama na Etiópia, julho de 2015
 
   
Há quem não goste de ver um presidente dos Estados Unidos pregar os valores que considera certos num país estrangeiro, com o homólogo local ao lado, a ouvir de soslaio.
 
Mas também há quem ache que África continua a ter demasiados países com leis e hábitos antiquados e que as mentalidades têm que mudar pelo exemplo.
 
Seja qual for a posição que tomemos, a verdade é que Barack Obama voltou a provar, na visita a África, que está decidido, nesta reta final, a dizer o que pensa e a bater-se pelo que acredita, mesmo que isso possa provocar críticas ou desconfortos.
 
Na emotiva passagem pelo Quénia, Obama reencontrou parentes próximos, foi a lugares que diziam muito ao pai falecido e com quem pouco conviveu.
 
Mas a marca que ficou da primeira visita de um presidente norte-americano a Nairobi e Adis Abeba vai muito para lá da parte sentimental para o primeiro presidente afro-americano dos EUA.
 
Obama marcou posição, arriscou, deixou claro que os valores que os EUA representam não comportam a cumplicidade com práticas de agressão sexual, intolerâncias para com os homossexuais, violência contra as mulheres ou trabalho infantil.
 
O homólogo queniano, ainda um pouco surpreendido por não ter na «photo op» com Obama um momento de simples consagração, viu-se forçado a rebater, lembrando que «a tradição de países como o Quénia é diferente».
 
Na Etiópia, Obama foi mais longe: não se limitou a expor as diferenças no plano ideológico e civilizacional em temas como direitos das minorias. Falou de práticas políticas, de hábitos de democracia. De  como é saudável evitar «eternização do poder», de como é importante saber sair.

Fez, na verdade, o que muito poucos líderes mundiais, nas últimas décadas, tiveram coragem de fazer em África.
 
 
«Podemos não ser capazes de deter todo o mal no mundo, mas eu sei que a forma como nos tratamos uns aos outros é inteiramente nossa. Eu acredito que apesar de todas as nossas imperfeições, estamos cheios de decência e bondade, e que as forças que nos separam não são tão fortes como aquelas que nos unem».
Barack Obama em 2015
 
«Negociaria com inimigos. Faria isso. E a razão por que o faria é que a noção de que não falar com determinados países é uma forma de os punir – que tem sido o guia diplomático da administração Bush – é ridícula»
Barack Obama em 2007, durante debate nas primárias democratas, que viria a ganhar
 
«Não fazemos a paz com os amigos. Fazemos a paz falando com os nossos adversários, para evitar que eles se tornem nossos inimigos»
Barack Obama, em entrevista a Jon Stewart, sobre acordo com o Irão
 
«Se não escolhermos de forma sensata, acredito que as futuras gerações vão julgar-nos de forma severa, por termos deixado perder este momento.»
Barack Obama sobre a necessidade aprovar a «Climate Bill»
 
«Se olharmos para os números dos americanos mortos no 11 de Setembro, foram menos pouco mais de dois mil. Se olharmos para os números de americanos assassinados pela violência de armas, são dezenas de milhares.»  
Barack Obama sobre a frustração de ainda não ter aprovado lei que restrinja o risco de violência com armas


Os últimos tempos deixaram mais claro o que pretende Obama enquanto Presidente dos EUA em final de mandato.
 
Já sem os condicionamentos de quem tinha que procurar a reeleição, e sabendo por experiência que a sua taxa de aprovação não sobe dos 50% e não baixa dos 40% independentemente de vitórias ou derrotas políticas que tenha, Barack Obama posiciona-se, no segundo mandato, como «presidente ideológico», com opinião própria e uma visão do seu poder que aponta para um líder que quer deixar um legado de «exemplo»: na prática política, na abertura ao Mundo, na promoção dos direitos das minorias. 

Mesmo quando assume frustração por ainda não ter avançado o suficiente no «gun control», Obama está a assumir uma posição arriscada, enquanto presidente um país onde o direito ao posse de arma é uma ideia tão forte. 

A história política de Barack Obama já teve muitos altos e baixos. Mas a menos de ano e meio da sua saída da Casa Branca, temos tido exemplos repetidos de que o melhor ainda pode estar para vir.
 
Germano Almeida é jornalista do Maisfutebol, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição» e do blogue «Casa Branca»