O ano de 2014 foi, no mínimo, desequilibrado para Barack Obama: teve 11 meses negativos (sobretudo o 11.º, novembro, com derrota pesada nas intercalares para o Partido Democrata), mas um mês de dezembro excelente, que lhe permitiu um «boost» inesperado.
 
Desde que está na Casa Branca, o 44.º Presidente dos EUA tem vivido quase sempre com saldo negativo de aprovação. O número de americanos que, nos estudos de opinião, desaprovam o desempenho de Obama tem sido superior aos que aprovam.
 
Mas esses indicadores podem mudar nesta reta final de segundo mandato.
 
Nas últimas semanas, uma sucessão de acontecimentos, quase todos mérito da boa reação à derrota nas intercalares ou fruto de apostas políticas deste Presidente, mudaram o cenário nos EUA.

As medidas executivas unilaterais sobre Imigração; o acordo com Cuba; o acordo ambiental com a China; o acordo orçamental com os «inimigos» republicanos que evitou mais uma cena lamentável de «shutdown» como o que aconteceu em 2013; uma medida protetora do ozono, decretada pela agência governamental para o Ambiente; a crítica à Sony por ter, num primeiro momento, cedido ao ataque norte-coreano em relação ao filme «The Interview»; os louros do posicionamento energético que diminui o impacto nos EUA da queda dos preços de petróleo; os indicadores económicos a apontarem para o maior crescimento dos últimos 11 anos na América, com os 5% de aumento no terceiro trimestre de 2014.
 
Pesquisa do Opinion Research Corporation para a CNN coloca Obama, neste final de 2014, com 48% de aprovação, o melhor valor para o Presidente dos últimos 20 meses, contrastando com os 40 e poucos (por vezes até 38/39) que Obama foi tendo nos últimos dois anos.
 
Esta subida de quatro pontos desde a última pesquisa CNN/ORC sobre o desempenho do Presidente mostra, também, uma confiança crescente dos americanos no estado da economia.
 
Mas a base desta recuperação do «momentum» de Obama tem, mais uma vez, a ver com os segmentos que, nas duas eleições presidenciais de 2008 e 2012, foram decisivos nas vitórias de Barack: as mulheres, os jovens e as minorias (todos eles com subidas de dez pontos nos níveis de aprovação do Presidente).
 
No caso dos latinos, estaremos já aqui a assistir à capitalização do acordo com Cuba e das medidas sobre Imigração. Quanto às mulheres, foi especialmente curiosa a decisão de Obama de, na última conferência de Imprensa do ano, só ter respondido a perguntas de jornalistas do sexo feminino.
 
Não se tratou de decisão anunciada previamente, nem sequer verbalizada: mas nas escolhas de Obama, pergunta a pergunta, sobre quem iria ter a palavra, as mulheres tiveram sempre prevalência.
 
Foi, obviamente, algo preparado antes pelo Presidente e que não passou despercebido.

Margaret Carlson, na Bloomberg, nota: «Nessa conferência de Imprensa, voltámos a ver um pouco do carisma do jovem senador do Illinois que chegou à Casa Branca de forma inesperada em 2008. Passámos o ano a ver o Presidente em dificuldades para lidar com os adversários no Congresso. Mas se Obama conseguir voltar a ter momentos como os de sexta feira, os dois anos que ainda tem para cumprir na Casa Branca podem ser um presente para todos nós. Nunca é tarde para mudar». 

Amie Parnes, no «The Hill», observa: «Um Obama 'libertado' constrói o seu novo momento. A subida nas sondagens, aliada aos bons índices económicos, estão a fazer a Casa Branca acreditar em dois bons anos finais para o Presidente».

«Ele já não se sente constrangido para agir», nota Steve Elmendorf, lobbista democrata, citado na peça de Amie Parnes. «Acho que ele se sentir constrangido antes das eleições intercalares, para tentar proteger os senadores mais experientes. Agora está mais solto, respira melhor».

Na mesma linha, antigo membro da Administração Obama, mantido sob anonimato nessa peça do «The Hill», acrescenta: «O mais notável em Barack Obama é que ele manteve sempre confiança em si e nas suas prioridades, independentemente dos resultados exteriores ou do que comentadores e 'pundits' foram dizendo». «Ele nunca quis ser lame duck e vai querer continuar a contar», acrescentou esse antigo membro de governos Obama.

Mas mesmo neste cenário mais favorável para Obama no final de 2014, não se pense que 2015 será um mar de rosas para o Presidente: «Será cada mais difícil para ele», Julian Zelizer, professor em Princeton. «Os republicanos no Capitólio estão a preparar uma série de impedimentos e obstáculos para os próximos meses», avisa Zelizer.

Mais do mesmo em DC para o ano que está quase a começar? Talvez. Mas a notícia deste final de 2014 é mesmo o regresso de Barack Obama.

Contem com ele para os próximos tempos largos.

Germano Almeida é jornalista do Maisfutebol, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição» e do blogue «Casa Branca»