Barack Obama aos 54: o quarto presidente mais jovem da História da América (foi eleito aos 47) aproxima-se dos «mid fifties» (é hoje o seu aniversário, nasceu a 4 de agosto de 1961) na melhor fase da sua Presidência.

Nunca como agora ficou claro que os anos Obama deixarão marca forte: Reforma da Saúde aprovada em definitivo, relações com Cuba reatadas (e embaixada cubana em Washington reaberta); acordo nuclear com o Irão (quem acreditava nele no início desta presidência?); aposta clara nas renováveis e apelo ao #ActonClimate, com o recém-anunciado «Plano Energia Limpa», de combate às alterações climáticas (o objetivo é reduzir até 2030 cerca de 32% das emissões de dióxido de carbono nas centrais termoelétricas); acordos comerciais com o Pacífico e TTIP com a Europa a caminho; decisões presidenciais para combater a paralisação do Congresso e proteger imigrantes em risco de deportação, consumidores a precisar de regulação, doentes a precisar de tratamento e trabalhadores que não recebiam horas extra.

Subjacente a isto tudo, uma recuperação económica que hoje até já parece «normal», mas que um apelo à memória revela como muito significativa: Obama pegou nos EUA em plena tempestade e prepara-se para deixar os Estados Unidos de novo a liderar a economia mundial, com um desemprego de pouco mais de 5% e crescimento trimestral nos melhores índices da última década.

Nada mau para quem, tantas vezes, levou com sentenças como «líder fraco», «presidente falhado» ou «lame duck».

«Coisas interessantes» para esta reta final
 
Um dia depois da derrota nas «midterms» de novembro de 2014, muitos apontaram o «fim» de Obama. Da Casa Branca, Barack retaliou com um aviso: «A minha presidência está apenas a entrar no último quarto. Coisas muito interessantes acontecem nessa fase. Estou ansioso por vivê-las».

Mera retórica política para contornar derrota tão expressiva dos democratas? Houve quem achasse que sim.
Mas não. Os meses que se seguiram falam por si. E revelaram, de longe, a fase mais concretizadora e efetiva desta presidência.

A ponto de já ser claro que o fantasma do «falhanço», que perseguiu durante tantos anos o desempenho de Obama na Casa Branca, estar definitivamente afastado.

É uma questão de verificar os factos: Obama conseguiu, em menos de sete anos na Casa Branca, o que a maior parte dos presidentes de dois mandatos não chegou sequer perto em oito.
 
O que pode vir aí ainda?
 
É sempre uma incógnita, mas haverá três grandes desafios a resolver:

-- Guantánamo, prisão que Obama prometeu fechar, logo nos primeiros dias da sua presidência, e que ainda está a funcionar (embora de forma completamente diferente que há sete anos, não sendo de excluir que até janeiro de 2017 Obama ainda consiga anunciar a concretização desse fecho);

-- uma visita a Havana, para selar em definitivo o acordo histórico que terminou com mais de meio século de costas voltadas entre EUA e Cuba;

-- medidas mais fortes na reforma fiscal, de modo a concretizar uma das suas ideias principais: taxar as riquezas mais elevadas para aliviar fiscalmente a classe média e os mais desfavorecidos.
«Este é um presidente muito experiente, que está disposto a tomar passos muito fortes para cumprir o que prometeu», aponta Dianne Feinstein, senadora democrata da Califórnia, para acrescentar: «E acho que, na sua maioria, o povo americano o aprecia e apoia. Os seus números de aprovação têm vindo a aumentar e isso dá-lhe ainda mais força para fazer o que pretende».  
 
O que talvez não consiga mesmo fazer
 

Se a Reforma Fiscal não é ainda uma derrota definitiva, há algumas batalhas que dificilmente Barack Obama vencerá.
Em recente entrevista a Jon Stewart, na sétima e última aparição no «Daily Show», Obama confessou: «A única coisa que lamento profundamente (e isso é algo que sentirei ainda mais quando sair do governo) tem a ver com o problema das armas que tantas tragédias já causou. É um problema que nós, enquanto nação, temos que refletir e temos que tentar sarar».

Outro ponto em relação ao qual Obama já terá perdido as esperanças tem a ver com a tal «reconciliação» prometida nos primeiros anos. A sucessão de «gridlock» no Congresso fê-lo mudar de estratégia (a mudança definitiva foi mesmo em novembro passado), desistindo de perder muito tempo em tentar estabelecer consensos impossíveis.

No final do dia, o que vai definir? Talvez o modo como decidiu apostar todas as fichas no acordo com o Irão, perante tantos avisos em contrário.

Afinal de contas, em 2007, na campanha das primárias que viria a ganhar contra Hillary, o então jovem senador do Illinois Barack Obama já dizia: «Não tenho qualquer interesse em sentar-me à mesa com os adversários apenas pelo prazer de falar. A questão é que não fazemos a Paz com os amigos. Fazemos com os possíveis inimigos. Não por causa deles, mas por nós. Como presidente dos EUA, devo liderar uma diplomacia forte e determinada com o líder iraniano apropriado, em tempo e local escolhidos por mim -- se isso for do interesse dos Estados Unidos».
 
Cumpriu. 
  
Germano Almeida é jornalista do Maisfutebol, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição» e do blogue «Casa Branca»