Enquanto a corrida presidencial para a sua sucessão vai aquecendo, Barack Obama está longe de ter vontade de desacelerar no cumprimento da agenda política do seu segundo mandato na Casa Branca.
 
A nomeação (recentemente confirmada no Senado com o voto dos 46 senadores democratas e ainda de dez republicanos) de Loretta Lynch para «attorney general» (primeira mulher negra a liderar o Departamento de Justiça) foi mais uma marca deixada pelo Presidente.
 
Quase desde o início do seu segundo mandato que se diz que «a era Obama está perto de acabar».
 
Essa ideia parecia ter tido, de resto, a sua estocada final quando, em novembro de 2014, os democratas levaram grande derrota, perdendo o controlo do Senado nas intercalares.
 
Análise do quadro geral mostra, no entanto, que Barack Obama tem já, nos seis anos e quatro meses de presidência, «achievements» que definirão o registo do seu legado: a recuperação económica sustentada (desemprego acima dos 10% no início da sua presidência, agora apenas nos 5.5%, depois de mais de 60 meses seguidos de criação de postos de trabalho nos EUA); criação de sistema tendencialmente universal de cuidados de saúde (em lei ainda com implementação progressiva e que já permitiu o apoio de vários milhões de americanos); desanuviamento de tensões de longo prazo dos EUA com Cuba e Irão (acordos históricos com Castro e Rohani).
 
A estes dados, já consolidados, podemos ainda juntar a questão da Imigração, outro tema já assumido pelo Presidente (ao avançar para as medidas executivas unilaterais que impediram, ou pelo menos adiaram, a deportação de mais cinco milhões de ilegais).
 
No entanto, o problema da Imigração é de tal modo complexo e diverso nos EUA que será difícil, em contexto de forte maioria republicano no Congresso, que Obama consiga fazer muito mais para permitir melhores condições de enquadramento legal, que impeçam um cenário de deportação em massa.
 
O último quarto de oito anos no poder

A 19 meses de deixar a Casa Branca (as eleições serão a 8 de novembro de 2016, mas a tomada de posse do 45.º Presidente será só a 20 de janeiro de 2017), Obama vê ainda tempo suficiente para terminar o trabalho noutros temas que considera cruciais para a «plataforma» social e política que lhe deu duas grandes maiorias presidenciais.
 
Indicaria quatro grandes objetivos definidos pelo Presidente, a conseguir até 20 de janeiro de 2017: consolidar a Reforma Fiscal por que se bateu na reeleição; travar o Estado Islâmico; assinar acordos comerciais em grande escala (Pacific Trade Deal e TTIP EUA/Europa); impor visão sobre alterações climáticas.
 
A Reforma Fiscal será talvez (a par da Reforma da Saúde) a principal ideia de Barack Obama: dar melhores condições à classe média para prosperar e apoiar os mais desfavorecidos, baseando a arrecadação da receita na taxação dos «super ricos» (na expressão feliz de Warren Buffet).
 
O Estado Islâmico, não sendo apenas uma ameaça para os EUA, representa desafio novo na luta contra o terrorismo islâmico e deverá exigir, nos próximos meses, uma das decisões mais difíceis da presidência Obama (talvez só equiparável à decisão de aprovar a Operação Gerónimo, que redundaria na morte de Osama Bin Laden): enviar ou não tropas americanas para o terreno? Até agora, a promessa de não voltar a envolver soldados americanos em conflitos no estrangeiro tem prevalecido e é visto como visão correta, uma vez que um cenário de muitos americanos mortos pelos Estado Islâmico no Iraque e na Síria seria politicamente insustentável, neste momento.
 
Os acordos comerciais que estão a ser negociados com o Pacífico e com a Europa integram-se na visão de Obama de que a liderança americana é reforçada (e não diminuída) quando se abre ao exterior. Especialmente no caso do Pacific Trade Deal, as reservas da ala esquerda dos democratas, representada por Elizabeth Warren, podem complicar.
 
As alterações climáticas são outro grande ponto na visão Obama do que pretende fazer enquanto Presidente dos EUA.
 
Foi um dado inesperadamente relevante na reeleição (enquanto Romney cedia a quem, na direita, queria acabar com o FEMA, a violência inusitada do «Sandy» levou a resposta pronta e efetiva das autoridades federais, no apoio a quem tinha perdido tudo em estados como Nova Jérsia, Nova Iorque ou Connecticut) e mantém-se como tema chave nas intervenções de Obama.
 
Este vídeo, muito visto e comentado nos últimos dias, com o «anger translator» a dizer alto e bom som, no jantar anual dos correspondentes da Casa Branca, o que Obama sentirá, mostra com humor refinado e inteligente, como o «negacionismo» de vários republicanos no Congresso pode levar o Presidente a reações entre o paternalismo e o desespero…
 
 

Desafios para o 45.º Presidente
 
Para lá destes quatro enormes objetivos, há muitos outros desafios que, certamente, não estarão acabados por janeiro de 2017, quando Obama ceder o lugar na Sala Oval a Hillary Clinton ou a um republicano: a ameaça russa (Putin estará à espera de ver como será o sucessor de Obama para voltar a criar instabilidade no Leste da Europa), a ascensão da China, a questão israelo-palestiniana (que não avançou como se chegou a acreditar durante os anos Obama), a consolidação da recuperação económica.
 
A atenção mediática estará cada vez mais virada, nos próximos meses, para a excitante corrida presidencial de 2016. Mas ainda é cedo para deixar de contar com a capacidade de criar surpresas do 44.º Presidente dos EUA.
 
Germano Almeida é jornalista do Maisfutebol, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição» e do blogue «Casa Branca»