É sabido que a eleição presidencial norte-americana é «a mais louca corrida do Mundo».
 
São dois anos de avanços e recuos, surpresas e solavancos, com vários pretendentes a declararem-se dos dois lados da barricada, qual deles o mais distinto.
 
É normal, por isso, que na fase de arranque, a meses das primeiras votações nos estados que iniciam as primárias partidárias, haja ainda uma certa confusão, tanto no discurso como na evolução das sondagens.
 
No verão de 2007, por exemplo, a meses das primárias de 2008, quase todos apostavam em Hillary Clinton e Rudy Giuliani como favoritos às nomeações e, como se sabe, foram Barack Obama e John McCain quem acabou por obtê-las. 
 
Até aí, tudo bem: faz parte da dinâmica da corrida e mostra a capacidade que as eleições na América têm de mostrar surpresa e novidade.
 
Mas o que se passa neste momento no campo republicano vai muito para além disso.
 
A entrada de Donald Trump perturbou definitivamente o evoluir da situação – e os estragos podem ainda estar só a começar.
 
Caitlin Huey-Burns, no Real Clear Politics, chamou-lhe «o elefante na sala republicana».
 
Num leque alargadíssimo de 16 nomes (hão de cair alguns nos próximos meses, mas parece já certo que esta época de primárias baterá recordes de adesão de candidaturas do lado da direita) Trump tem, como é óbvio, todo o direito de tentar a sua sorte.
 
Ainda por cima, tendo o multimilionário fortuna pessoal tão considerável, e estando disposto a gastar uma parte nesta sua aventura presidencial.
 
O problema é o resto: tudo o resto. O comportamento. A verborreia. A arrogância. As acusações disparatadas em jeito de franco-atirador.
 
Donald desdenhou o passado militar de John McCain («admiro os que não são capturados, não vejo qual o heroísmo que existe em ser capturado»).
 
Foi simplista e factualmente errado com os mexicanos, dizendo que estão a «invadir os EUA com traficantes e violadores».  
 
Arrasou o registo de Rick Perry como governador do Texas (depois de Rick dizer que Trump devia retirar-se da corrida).
 
Escancarou perante os seus apoiantes o número de telemóvel pessoal de Lindsey Graham (o senador da Carolina do Sul, também candidato às primárias republicanas, chamou-lhe ‘jackass’, estúpido, ignorante), num ato de pura irresponsabilidade.
 
Chamou Hillary de «pior secretária de Estado de sempre» e Jeb Bush de «fraco na imigração».
 
Seria de esperar que, nas sondagens, Trump se mantivesse numa bolsa própria, com números relativamente baixos, sendo um candidato tão «sui generis».
 
Como, de forma divertida, Jon Stewart disse no «Daily Show», mais do que «republican», Donald é… «trumpablican» (ele que até já esteve do lado dos democratas).
 
O que quase ninguém previu é que, nesta fase, Donald Trump estaria… em primeiro lugar nas sondagens, com vantagem considerável sobre os eventuais nomeados (Jeb Bush, Scott Walker, Marco Rubio).
 
Trump não devia ser levado a sério: a forma como insistiu durante anos no disparate do local de nascimento de Obama diz tudo sobre a credibilidade das suas posições. Mas que está a influenciar a corrida republicana, isso é já um facto concreto.

Como lidar com isto?
 
Do insulto à minimização
 
Os adversários de Trump têm lidado de forma diversa com o problema (sim, ele existe).
 
Ted Cruz, quase tão colado à direita radical como Donald, é o único que tenta aproximar-se do multimilionário, repetindo a ideia de que «Trump levantou questões importantes, que merecem ser debatidas».
 
Lindsey Graham, senador respeitado e experiente mas com números pouco animadores nas sondagens, é o candidato republicano que mais tem apontado baterias a Trump.
 
Mas não é o único: Rick Perry tem tentado descolar da imagem de demasiado à direita e estará a aproveitar o «disparate Trump» para ganhar visibilidade e credibilidade.
 
Jeb Bush e Scott Walker, os candidatos com mais potencial para ultrapassar Trump na hora decisiva, têm optado pela estratégia da minimização: quase ignoram o fator Trump, esperando que ele, simplesmente, se desvaneça.
 
É provável que seja mesmo isso que vá acontecer.
 
Por muito que, nesta altura, as sondagens apontem números muito bons para Donald Trump, a forma explosiva como ele tem conduzido a campanha tem tudo para dar para o torto com o decorrer do tempo.
  
Jeb à espera que a tempestade passe
 
Nos «media», os devaneios de Trump começaram por ser «pitorescos», depois passaram a ser «preocupantes», agora voltam a ser rotulados de «não credíveis».
 
O Huffington Post, num ato com o seu tom de originalidade, anunciou que passará a incluir as notícias sobre Trump na secção de entretenimento.
 
Falta saber como sobreviverá o Partido Republicano a tudo isto.
 
Se Jeb Bush, até agora muito alheado ao tema, não conseguir rapidamente recuperar a posição de favorito nas sondagens nacionais, pode ter um problema de «elegibilidade».
 
Como Lindsey Graham bem apontou em entrevista recente, «as tiradas de Trump estão a impedir os republicanos de se focarem nos temas certos».
 
Com 16 pretendentes à nomeação, esta fase inicial está a ser dominada por quem está a fazer mais barulho e por quem, pelas piores razões, atrai as luzes mediáticas.
 
É um daqueles casos de «quanto pior melhor», que não resistirá ao «choque da realidade».
 
Hillary, que do lado democrata parece perder algum fôlego perante a subida de Bernie Sanders (embora sem pôr em causa a noção de «inevitabilidade» da nomeação de Clinton), vai assistindo a toda esta «cena Trump» com um sorriso.
 
Em novembro de 2016, pode ser ela a principal beneficiária.
  
Germano Almeida é jornalista do Maisfutebol, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição» e do blogue «Casa Branca»