Que o Médio Oriente é, há décadas, uma grande confusão, já todos sabíamos.
 
Mas o momento atual da relação de forças na região desperta perplexidades capazes de inquietar os maiores especialistas.

A situação no Iémen está para lá da preocupação: é um caso de guerra iminente e de risco enorme de desintegração de fronteiras. 
 
A «Tempestade Decisiva», operação liderada pela Arábia Saudita e que contém ainda o envolvimento de países como o Egito, a Jordânia, o Paquistão, o Qatar, Marrocos, Sudão o Bahrain e os Emiratos Árabes Unidos, será a última tentativa para evitar a desagregação do Iémen, algo que agravaria ainda mais o cenário de caos na região.

E mostra, ao limite, que a grande divisão do mundo muçulmano (muito mais do que a questão de suposta hostilidade com o «Ocidente» e a «América») tem a ver com a antinomia xiitas «vs» sunitas.

A ascensão do Estado Islâmico no último ano (primeiro no Iraque e nos últimos meses também na Síria) foi um primeiro sinal claro duma reação sunita contra o poder xiita decorrente do pós-Saddam no Iraque e do regime de Assad na Síria.

O Iémen, foco de tensão e possível acolhedor de terroristas nos últimos anos, não tem o impacto mediático e político do Iraque ou da Síria (a explicação é fácil: é mais pequeno e quase não tem petróleo, embora tenha importância no acesso ao golfo de Aden). Mas tem provocado, sobretudo desde a Primavera Árabe, alguns dos momentos mais problemáticos para as chancelarias ocidentais.

As conturbações sociais e políticas da Primavera Árabe geraram quedas de ditadores na Tunísia (Ben Ali), no Egito (Mubarak), na Líbia (Kadhafi) e no Iémen (Ali Abdullah Saleh).

Sucede que, tal como acontecia no Egito e na Tunísia (e durante algumas fase também na Líbia...), o ditador de Sana era aliado estratégico dos EUA na região. 

Com a queda de Saleh, o Iémen passou a ser um ponto de interrogação ainda maior. A Al-Qaeda, que perdeu força no Afeganistão e no Paquistão após uma década de presença de tropas americanas no «AfPak», foi criando zonas de influência no Iémen, o que chegou a obrigar a bombardeamentos aéreos pontuais.

Desta vez, a ameaça é outra.

O Presidente Hadi fugiu do país em janeiro, após ataque dos Huthis ao palácio presidencial.

Nos últimos dias, a coligação liderada por Riade tem feito incursões aéreas contra posições do movimento iemenita dos Huthis, de modo a retirá-los do controlo de Sana, a capital do Iémen.

As milícias houthis que conquistaram posições importantes no Iémen são mais um passo nas movimentações do Irão (bastião dos xiitas no universo muçulmano) em países que têm sido dominados pelos sunitas. 

O Iémen está, assim, no centro de mais um jogo de forças entre Riade e Teerão. Entre a Arábia Saudita, sunita, e o Irão, xiita.

Pelo meio, a Al Qaeda e o Estado Islâmico (organizações jiadistas sunitas com atuações e interesses diferentes), são atores importantes no terreno, aumentando a complexidade do conflito e o risco de desintegração do país.

Nas últimas décadas, sobretudo desde a «revolução dos aiatolas» em Teerão, que ditou a queda do Xá da Pérsia, os EUA tiveram o Irão como um dos principais inimigos na região. Isso implicou uma fase de aliança de Washington com o Iraque de Saddam, mais tarde tornado inimigo. Mas implicou, acima de tudo, que a Casa Real Saudita seja aliada de longo prazo dos americanos (não só na política, sobretudo nos negócios).

Neste cenário, tornava-se compreensível o apoio de Washington ao esforço saudita nesta «Tempestade Decisiva».

Mas não deixa de ser paradoxal: ao mesmo tempo que a coligação liderada pelos EUA bombardeia posições do Estado Islâmico (movimento jiadista sunita), com interesse comum do Irão, que também está a financiar e fornecer armas aos resistentes xiitas e curdos no Iraque e na Síria, os mesmos Estados Unidos estão do lado oposto aos interesses iranianos no Iémen.

Para aumentar a confusão deste jogo de forças, Washington e Teerão tentam fechar acordo, por estes dias, em relação ao nuclear.

Joe Scarborough, em artigo no «Politico.com», tem sentença dura para com a estratégia dos últimos dois presidentes dos EUA para o Médio Oriente: «O Iémen em chamas, o ISIS em marcha, a Síria no apocalipse, o Irão a entrar pelo Iraque, a anarquia reina na Líbia, a Jordânia a oscilar, a Turquia a deslizar e a relação da América com a única democracia no Médio Oriente (Israel) a deslizar para níveis baixíssimos. Quando os historiadores e analistas olharem para trás e tentarem analisar o falhanço da política externa dos EUA no início do século XXI, muitos perguntarão como é que a superpotência sem rival em termos militares, económicos e culturais perdeu essa vantagem histórica tão depressa nessa região. A resposta? George W. Bush e Barack Obama. (...) A política externa ideológica de George W. Bush, com o desastre da invasão do Iraque, foi seguida tragicamente pela ideia errada de Obama de que a América poderia apagar os pecados da invasão Bush/Cheney abdicando simplesmente das responsabilidades dos EUA como nação indispensável».

Voltaremos em breve a este tema. Muito provavelmente, pelas piores razões, claro.

Germano Almeida é jornalista do Maisfutebol, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição» e do blogue «Casa Branca»