Tem nome de pato famoso, mas promete ser o «elefante na sala» do primeiro debate televisivo da corrida à nomeação presidencial republicana: Donald Trump, líder improvável mas destacado nas sondagens, já está a ser o protagonista, ainda antes de começar a discussão.
 
A vantagem do multimilionário nas sondagens não só se mantém como parece estar a crescer. Pesquisa da FOX, revelada ontem, dá 26% a Trump, para apenas 15% de Jeb Bush e 9% de Scott Walker. Os restantes pretendentes à investidura na Convenção Republicana do verão de 2016 nem sequer passam dos seis pontos percentuais.
 
Outras duas sondagens libertadas nos últimos dias apontam tendência idêntica: na Bloomberg, Trump aparece à frente com 21%, para 10% de Jeb e 8% de Walker. Na CBS, o multimilionário soma 24% das preferências, para 13% de Bush e 10% do governador do Wisconsin.
 
Neste ponto da corrida, parece, pois, seguro afirmar que Donald Trump não é apenas um meteorito que aproveitou os primeiros dias de lançamento da candidatura: por muito estranho e surpreendente que isso possa parecer, o polémico empresário tem sido, nas últimas semanas, o «frontrunner» destacado da corrida republicana.
 
O prolongar desta surpresa torna óbvia a antecipação: o «elefante Trump» vai perturbar inevitavelmente a sala, no primeiro debate televisivo desta «pré-temporada» das primárias republicanas.
 
Será a primeira grande prova para Donald. Organizado pela FOX, está agendado para esta quinta, às 21h locais (duas da manhã em Lisboa) e tem duração prevista de duas horas.
 


«Não vai haver flores na parede»

 
Terá três moderadores (Chris Wallace, Bret Baier e Megyn Kelly), experientes apresentadores da FOX. O momento tem sido preparado ao detalhe nas últimas semanas, com várias reuniões entre os três para escolherem as melhores perguntas.
 
Apesar do estatuto e da longa experiência televisiva, Megyn Kelly admite, citada pelo «Politico», que moderar o primeiro debate desta campanha presidencial «é um momento de nervosismo, que faz o coração bater mais forte».
 
«E não vai haver flores na parede», promete Chris Wallace. «Tentámos escolher as perguntas mais duras, os temas mais quentes. Foi por isso que nos escolheram para moderar o debate, somos três dos entrevistadores mais exigentes do meio».
 
Com dez candidatos no «plateau», as duas horas vão parecer curtas: em média, cada um falará 10/11 minutos. Não vai dar para «recuperar» de «gaffes»; só dará mesmo para lançar as ideias fortes.
 
Quantos ao papel dos moderadores, Anderson Cooper, da CNN, também citado pelo «Politico», define assim a questão: «É mais ou menos como um maestro numa orquestra: ninguém presta muita atenção ao desempenho deles, a menos que estejam a fazer alguma coisa de forma errada».
 
Cruz, Kasich e Christie ‘in’; Perry, Santorum e Fiorina ‘out’
 
Com tantos pretendentes à nomeação republicana (17!), a FOX definiu um teto de dez convidados. Mais do que isso era complicado: nem sequer cabiam todos no mesmo plano e a discussão ficava dispersa e sem o ritmo desejado.
 
O critério escolhido foi a média das últimas sondagens nacionais para eleger os dez mais prováveis nomeados e eliminar os sete menos competitivos.
 
Se Donald Trump, Jeb Bush, Scott Walker, Marco Rubio, Mike Huckabee, Ben Carson e Rand Paul eram nomes indiscutíveis (têm sido, consistentemente, os sete primeiros das sondagens republicanas nas últimas semanas), houve até anteontem algumas dúvidas quanto a quem ocuparia as restantes três vagas.
 
Ted Cruz, senador do Texas e primeiro a avançar, conseguiu lugar na sala, apesar de começar a aparecer em alguns estudos entre os 3 e os 5 pontos. Cruz terá sido (a par de Paul, Huckabee e Walker) dos mais prejudicados com a «surge» de Trump, uma vez que boa parte dos seus potenciais eleitores «tea party» estão para já muito entusiasmados com a liderança do multimilionário nova-iorquino.
 
Os últimos dois a garantir lugar no primeiro debate foram o governador do Ohio, John Kasich, e o governador da Nova Jérsia, Chris Christie.
 


Kasich foi o último a arrancar, mas rapidamente somou 5 a 6 pontos nas sondagens e dá mostras de poder angariar mais apoios numa área moderada. Christie é o grande mistério da corrida até agora: até há uns meses, surgia perto de Bush como provável nomeado, mas foi por aí abaixo nas sondagens, culpa dos problemas e escândalos na governação do seu estado.
 
De fora ficaram o governador do Texas, Rick Perry, outra «vítima» do furacão Trump, também pela reação violenta que teve contra as diatribes de Donald; Carly Fiorina, única mulher na corrida republicana, que não consegue passar de 1% nas sondagens; e até Rick Santorum, ex-senador da Pensilvânia, que apesar de ter ficado em segundo nas primárias de 2012, está afundado nos 2%.
 
Também Bobby Jindal (governador da Luisiana), Jim Gilmore (antigo governador da Virgínia), George Pataki (antigo governador de Nova Iorque) e Lindsey Graham (senador da Carolina do Sul) foram excluídos do primeiro debate. 
 
Estes sete candidatos agora remetidos à «segunda divisão» vão estar num debate à parte, de apenas 60 minutos, a ter lugar quatro horas antes.

Se Trump promete dominar as atenções, há expetativas em relação à forma como Jeb Bush vai tentar retomar a ideia de que é o favorito natural e ainda aos desempenhos de Marco Rubio (senador da Florida que também alimenta perspetivas de nomeação) e de Rand Paul (que apesar dos números fracos nas sondagens revela base forte de apoio).

Mas este é só o primeiro de muitos debates que ocorrerão nos próximos meses. Afinal de contas, estamos a falar da mais louca corrida do Mundo.
 
Germano Almeida é jornalista do Maisfutebol, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição» e do blogue «Casa Branca»