2014 foi um ano bom ou mau para Barack Obama?

Se alargarmos a análise aos planos interno e externo, torna-se quase impossível uma avaliação simples. O melhor mesmo é dizer que o ano que hoje termina foi «inclassificável» para o Presidente dos Estados Unidos. 

Na frente mais ligada ao jogo político em Washington, o balanço é globalmente negativo. Obama não foi capaz de resolver o «gridlock» que tem marcado o clima na capital política americana. Em parte por inabilidade, também por mera escolha pessoal. «O Presidente nunca teve grande paciência para conversas de circunstância, para jogos de bastidores, tudo coisas fundamentais para conquistar o voto de elementos do outro lado da bancada num Congresso que lhe é especialmente hostil. Nesse sentido, é muito diferente de Bill Clinton, que mesmo quando sabia que tinha um voto perdido, não desistia de falar durante muito tempo com congressistas republicanos», nota Tom Coburn, republicano do Oklahoma que deixou o Senado há poucos dias.

Coburn é um caso interessante para avaliarmos as contradições em que a Presidência Obama está mergulhada há seis anos: amigo pessoal do Presidente, chegou a trabalhar em conjunto com Barack, quando este era apenas senador democrata do Illinois, sobretudo em matérias de ética. Mesmo assim, Coburn foi opositor acérrimo à agenda do Presidente, nos últimos anos, especialmente na área fiscal, no ObamaCare e nos programas sociais. 

É caso para perguntar: com amigos destes, como é possivel que Obama sobreviva com tantos inimigos figadais que tem no Capitólio?

A verdade é que, surpreendentemente, a Presidência Obama está viva. E como o ex-senador Coburn repetiu na entrevista ao «60 Minutes» da CBS: «Não concordo em quase nada com ele em termos políticos, mas o Presidente é um tipo sério, honesto. Gosto dele». 

Apesar de tantas certidões de óbito que tem recebido, nos últimos anos, de distintos analistas, políticos e «pundits» na América e fora dela. Apesar de crónica taxa de impopularidade.

Porquê? Por duas razões, essencialmente.  

Em primeiro lugar, porque a América é, em todos os sentidos, um país muito grande; nela cabem vários «países» diferentes, com segmentos muito diversos, que querem coisas muito diferentes também. A agenda política que foi relegitimiada em 2012, na reeleição de Obama, continua a ter forte apoio em segmentos como os latinos (acordo com Cuba e medidas executivas unilaterais sobre Imigração), nas mulheres (direitos sociais, Lilly Ledbetter Fair Pay Act, condições para o aborto legal), nos jovens (apoio a estudantes com créditos bonificados), nos negros (apesar de Ferguson e das tensões com a polícia).

Depois, porque Obama tem desenvolvido uma resiliência, uma capacidade de resistir à adversidade política interna muito particular. Libertado das amarras de ter que se reeleger, ciente de que já não tem muito tempo a perder com tentativas irrealistas de «conciliação» com «o outro lado», Obama soltou o sorriso nos últimos dois meses do ano, sinalizou que não quer baixar os braços mesmo depois da derrota nas intercalares e avançou para jogadas fortes: o acordo histórico com Cuba; o acordo ambiental com a China; a independência energética; a visão de uma América de «dreamers» que não expulsa cinco milhões de imigrantes que querem trabalhar nos EUA e cumprir o seu «sonho americano».

A juntar a tudo isto, vemos que 2014 termina com o maior crescimento económico da última década na América (5% no terceiro trimestre do ano) e o desemprego mais baixo dos últimos seis anos e meio (5.8%).

Na frente externa, o Afeganistão é, a partir de ontem, oficialmente uma guerra terminada para os EUA (o que acontecerá a seguir já é outra história...). O «Estado Islâmico» (os americanos agora chamam-lhe Daesh ou ISIL) parece estar a recuar ou, pelo menos, a estabilizar no seu raio de ação na Síria e no Iraque. Tudo isto sem o envio de um único soldado americano.

Durante meses apontada como temível e a ganhar ascendente sobre a América de Obama nessa «nova guerra fria» que este mundo «mais desordenado do que multipolar», como referiu António Guterres na entrevista ao Público, desenha, a Rússia de Putin acaba o ano na iminência do colapso económico, com o rublo a desvalorizar 40%.

Obama, que insistiu sempre na via do isolamento de Putin pós-invasão da Crimeia, está a ver a sua estratégia de endurecimento das sanções a Moscovo finalmente a ter resultados. «Putin acreditou que nos tinha vencido a todos e que nos tinha conseguido intimidar ao alargar o poder russo. Disse, na altura, que não queríamos entrar em guerra com a Rússia, mas conseguimos impor uma maior pressão (sanções) trabalhando com os nossos parceiros europeus», apontou Barack Obama, em entrevista recente à NPR. «E, hoje, tenho a sensação de que, pelo menos fora da Rússia, algumas pessoas estão a pensar que o que Putin fez não foi muito inteligente», rematou o Presidente dos EUA.

Mais uma vez, as sentenças de que «os EUA deixaram de ser o ás de trunfo da política internacional» mostraram-se precipitadas. 

Com uma Rússia instável, uma China a desacelerar, um Brasil a parar de crescer e até uma Cuba a querer abrir-se a Washington e virar costas à Venezuela, os EUA voltam a liderar com clareza.

Donde, fica impossível decretar «ano mau» para Obama.

Tudo somado, os pontos positivos talvez sejam mais significativos e duráveis. Mas ainda há dois anos para tirarmos isso a limpo.

Obama termina o ano de 2014 com 48% de aprovação, bem acima dos níveis baixos com que foi aguentando o resto do ano. Em democracia, o povo tem sempre razão.

Germano Almeida é jornalista do Maisfutebol, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição» e do blogue «Casa Branca»