Hillary 08’ foi a crónica de uma derrota inesperada que tinha tudo para ter sido uma vitória anunciada (não fora ter aparecido um tal de Barack Obama).
 
Hillary 16’ arranca com um rótulo de favoritismo ainda mais expressivo que há oito anos (agora a vantagem no campo democrata é de 40/50 pontos e não de 20/30…), mas a candidata, escaldada com o que lhe aconteceu na primeira tentativa, fará tudo para não ser surpreendida.
 
O anúncio da candidatura foi amplamente elogiado: o vídeo «Getting started» (4,27 milhões de visualizações no momento da escrita desta crónica) apanha, em dois minutos e 18 segundos, o essencial do «universo Hillary» e da base de apoio dos democratas e das maiorias presidenciais Obama 2008 e 2012: os latinos, os negros, os asiáticos, as minorias, as mulheres, as jovens mães com vontade de singrar na vida, os casais gay (duas mulheres e dois homens), gente com capacidade de trabalho e com vontade de «mudar» para poder melhorar as condições de vida.
 
A estes segmentos, Hillary somou também uma recém-reformada. Se nos jovens e nos negros Obama foi mais forte que a agora favorita para 2016, Hillary pode melhorar o desempenho do seu antecessor na nomeação presidencial democrata nas mulheres com idades acima dos 60.
 
Para lá destas «nuances» típicas da comunicação política nos EUA, há uma mensagem dominante que Hillary quis passar: desta vez, o foco vai estar nas pessoas, «real people», não tanto no seu próprio percurso político, por muito rico e inspirador que ele possa ser (e é).
 
E há, sobretudo, um otimismo e uma «call to action» (mobilização para a ação) notáveis para uma mulher com quase 68 anos (só aquele logótipo é que não passou muito bem...).
 
A derrota de 2008 deu-lhe mais trunfos que desvantagens: ela sabe o que quer e quer ser a «campeã de que os americanos precisam» para que, passada a grande crise que marcou os primeiros anos de Obama, os benefícios da recuperação económica possam ser aproveitados pela «middle class working America» (a classe média trabalhadora).
 
Hillary 08’ foi muito sobre o passado e sobre «ela». Hillary 16’ será virado para o futuro: mais «tecnológico» (as campanhas Obama foram um «turning point» e mais focado nos eleitores e não na candidata).
 
Enquanto as sondagens continuam a mostrar-se muito simpáticas para a super favorita (não se vê quem possa tirar-lhe a nomeação na corrida democrata, com Elizabeth Warren e Joe Biden pelos 10/14%; Bernie Sanders, Jim Webb e Martin O’Malley sem chegar aos 5% e Hillary a passear nos 55/65…), a presumível nomeada arrancou com esse vídeo e vai gerindo, para já tranquilamente, o início da campanha.
 
 

Dias depois do «Getting started», fez uma incursão no Iowa (o estado de arranque onde, em 2008, não passou do terceiro posto, com 29%, menos um que John Edwards e menos nove que Barack Obama), e teve contatos «one to one» com os eleitores que decidirão os «caucuses» que marcam a abertura das primárias presidenciais.
 
Hillary quer uma campanha tipo «small is beautiful»: desta vez, o que decide serão os pormenores, por muito que tudo o resto jogue a favor dela (o dinheiro arrecadado, os apoios, as sondagens, a logística).
 
A gestão do tempo (ainda faltam sete meses e meio para o Iowa e quase 19 meses para eleição) será um fator chave para quem tem avanço tão impressionante.
 
O que une os republicanos? Travar Hillary 
 
 
Do lado republicano, o «fator Hillary» está a mostrar-se ponto de união entre pretendentes tão diversos.
 
No terreno, como candidatos declarados, há já três nomes: Ted Cruz, senador do Texas favorito do «Tea Party»; Rand Paul, senador do Kentucky, de credenciais libertárias e contra a vigilância governamental da NSA; Marco Rubio, filho de cubanos, senador da Florida, apenas 43 anos e a tentar fazer pontes entre latinos, conservadores clássicos e a direita radical.
 
Mas vai haver mais: Mike Huckabee, ex-governador do Arkansas e segundo classificado nas primárias de 2008, outro «Tea Party darling», que nos últimos anos incendiou argumentos da direita radical nos comentários na FOX, deve avançar a 5 de maio.
 
Mais tarde, devem apresentar-se os três nomes mais viáveis: Scott Walker, governador do Wisconsin, à frente em muitas sondagens mas que recentemente teve grande desilusão ao ver que perde no seu próprio estado para Hillary Clinton por 52/40 (sondagem Marquette University, já depois do avanço da democrata); Jeb Bush, ex-governador da Florida, talvez o nomeado mais provável, que até se quis antecipar ao «Getting started» de Hillary com vídeo a garantir que fará melhor do que a «política externa Obama/Clinton»; e ainda Chris Christie, governador da Nova Jérsia, que chegou a estar à frente nas sondagens republicanas, mas tem tido meses complicados.

 
 
Ainda podem aparecer, à direita de Bush, Walker e Christie, as candidaturas de Ben Carson, Rick Santorum, Lindsay Graham e Rick Perry (nenhum tem hipóteses reais de ganhar).
 
Talvez com mais hipóteses de obter a nomeação, mas não mostrando para já garantias de avançar, estão o congressista Paul Ryan, do Wisconsin (candidato a vice no ticket de Mitt Romney em 2012), e Carly Fiorina (ex-CEO da Hewlett Packard).
 
No fim de semana, no New Hampshire (o estado que se seguirá ao Iowa), os republicanos reuniram-se para tentar perceber quem preferem.
 
A resposta sobre quem será o nomeado presidencial da direita americana está longe de ser clara. Mas uma coisa é certa: todos querem travar Hillary. É isso que, para já, os une.

Se olharmos para a sondagem CNN/Opinion Research Corporation, a primeira grande pesquisa nacional feita depois dos anúncios de Hillary e Rubio, é fácil perceber porquê: Hillary Clinton arrasa, com 58 pontos de avanço na corrida democrata (69 por cento para 11 de Joe Biden) e  bate Jeb Bush e Scott Walker por mais de 15 por cento na eleição geral. Bush aparece ligeiramente à frente nos republicanos (17%), com Walker a seguir (12%) e Rubio e Rand Paul com 11%.
 
Germano Almeida é jornalista do Maisfutebol, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição» e do blogue «Casa Branca»