«Quero que os cidadãos vejam o meu correio. Pedi ao Departamento de Estado que os publique e disseram-me que iriam revê-los para publicação o mais rapidamente possível»
HILLARY CLINTON, provável nomeada presidencial democrata, reação ao «mailgate»


E, subitamente, a tempestade abateu-se sobre a superfavorita.
 
Hillary Clinton, muito à frente nas sondagens para a nomeação democrata e sempre em vantagem (ainda que por menos) nos duelos com os republicanos, enfrentou, nos últimos dias, a sua primeira grande crise, na caminhada, ainda não oficializada mas praticamente assumida, para as presidenciais 2016.
 
O «mailgate» teve efeitos negativos evidentes sobre Hillary (o próprio Presidente Obama assumiu só ter tido conhecimento «pelos media» que Hillary utilizou email pessoal para assuntos de Estado), mas terá tido o mérito de retirar as últimas dúvidas: ela vai mesmo ser candidata.
 
Se ainda lhe passasse pela cabeça não avançar, a senhora Clinton não se disporia, por certo, a atravessar a turbulência com que foi confrontada nos últimos dias.
 
Resumindo: d urante os anos como secretária de Estado, no primeiro mandato presidencial de Barack Obama, Hillary terá cometido a imprudência de não utilizar o email com domínio governamental, trocando mails, supostamente com conteúdos relacionados com as suas funções como chefe da diplomacia, através de uma conta pessoal.

À primeira vista, o caso parece quase bizarro: pelo elevado grau de experiência e profissionalismo que Hillary sempre mostrou em quase meio século de vida pública e pelo aparente amadorismo que esse descuido (que até implicará, possivelmente, a violação da lei) revela.

Que Hillary errou ao longo deste processo, isso é claro: e isso foi já, de resto, assumido pela própria, na reação que teve, na passada terça. Mas no mesmo ato em que considerou que «se calhar deveria ter usado outra conta de email», a antiga senadora democrata por Nova Iorque deixou também a garantia de ter entregado ao governo «todos os emails relacionados com o trabalho».

«Quando comecei o trabalho como secretária de Estado, optei pela conveniência de usar o meu email pessoal, oq ue foi autorizado pelo Departamento de Estado, porque pensei que seria mais fácil usar apenas uma conta de email para o meu trabalho e para os meus emails pessoais, em vez de dois. Olhando para trás, teria sido melhor se, simplesmente, eu tivesse usado uma segunda conta de email e um segundo telefone, mas, nessa altura, isso não foi para mim sequer um assunto. Depois, uma larga maioria dos meus emails de trabalho foram para funcionários do governo, para as suas moradas eletrónicas governamentais, o que significa que foram registadas e preservadas imediatamente no sistema informático do Departamento de Estado»
HILLARY CLINTON, conferência de Imprensa de reação ao «mailgate»

A necessidade de minimizar danos foi óbvia.

E o caso não era para menos: chega a ser estranho ver como a mais provável próxima Presidente dos EUA não possa ter antecipado os riscos políticos (para ela e para o Departamento de Estado que dirigia) de não seguir os procedimentos devidos nesta matéria.

Há que colocar duas coisas em perspetiva: a primeira é que Hillary Clinton representa, literalmente, outra geração de políticos. Nos oito anos que passou na Casa Branca, como Primeira Dama (com uma equipa e uma agenda próprias), ainda não eram usados emails com frequência (Bill Clinton, por exemplo, garante nunca ter tido email pessoal até hoje). 

Por outro lado, o Departamento de Estado é uma realidade à parte no complexo governamental em Washington. Tem uma existência física à parte da Casa Branca e aí poderá estar também uma explicação para que tenha sido possível que o «mundo Hillary», no primeiro mandato de Barack Obama, tenha vivido com regras tão separadas das da esfera do Presidente.

Dito isto, não há outra forma de pôr a questão: depois de meses e meses de noção de «inevitabilidade de Hillary», este foi o primeiro rombo na estratégia Clinton para, à segunda tentativa, agarrar a nomeação democrata e, depois, a Casa Branca. 

Num total de mais de 60 mil emails, cerca de metade (31.380, contas do Washington Post) nunca serão lidos (estavam com a marca de «emails de cariz pessoal). Os restantes deverão ser tornados públicos (foi esse o pedido da própria Hillary, sendo que o Departamento de Estado está a analisar esse cenário). 

Em 2009, quando Hillary foi para o Departamento de Estado, o tema segurança informática não estava tão em cima da agenda mediática e política como hoje (ainda não tinha havido Snowden nem Estado Islâmico), mas os «ciberataques» já eram uma ameaça real à segurança do poder americano (com China e Rússia 

Mesmo assim, ainda não terá sido desta que Hillary deixou de ser favorita para 2016: o movimento «Ready for Hilary» está mais do que no terreno, com «Super PACs» já muito bem financiadas, e no campo democrata persiste a noção de que não há qualquer «plano B» com hipóteses reais de tirar a nomeação a Clinton.

«Os democratas no Congresso esperam uma forte campanha de Hillary para os levantar», nota o New York Times, em peça assinada por Nicholas Confessore, Jonathan Martins e Maggier Haberman.

Dan Balz, no Washington Post, vai mais longe: «Há ausência de competição no campo democrata. Isso nunca foi tão claro como nesta crise dos emails. Mesmo com Hillary enrolada num escândalo a fazer lembrar os velhos tempos de Clinton na Casa Branca, ela conseguiu passar de tal modo a ideia de que é imbatível que qualquer tipo de competição no Partido Democrata é simplesmente inexistente».
 
Germano Almeida é jornalista do Maisfutebol, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição» e do blogue «Casa Branca»