O Quicken Loans Arena, em Cleveland, casa dos Cavaliers, local que acolherá daqui a um ano a Convenção Republicana que vai investir o próximo nomeado presidencial da direita americana, foi palco do primeiro grande combate da longa campanha para 2016, que ainda agora está a começar.
 
Donald Trump, o fator inesperado do arranque da corrida republicana, esteve no centro das atenções.
 
Isso já era esperado, mas o que nem todos terão antecipado foi que o «fator Trump» iria transformar o primeiro debate presidencial numa… espécie de circo.
 
Alguns aplausos, muitas vaias. Donald é um «frontrunner» com imensos anti-corpos no próprio Partido Republicano, como rapidamente se percebeu à primeira pergunta, quando foi o único a não garantir que não iria tentar uma candidatura independente caso não fosse o nomeado: «Acho que vou ser, até porque vou à frente. Mas se não for, não posso garantir isso, porque quero concorrer».  

Um «focus group» preparado pela FOX mostrou que alguns apoiantes de Trump condenaram esta posição, falando em «desilusão» e «traição aos republicanos». «Apoiava-o porque achava que era diferente dos políticos. Mas depois deste debate, Donald pareceu-me um político ou até mesmo pior que eles», comentou um dos eleitores que antes do debate se declarava «por Trump». «Achei-o zangado, demasiado agressivo. Não o imaginava assim», comentou outra eleitora desiludida com o desempenho do «frontrunner».

Trump tem uma taxa de reprovação elevadíssima e isso foi bem audível pelas reações da assistência a cada resposta que dava. Desrespeitou as regras do debate, por vezes nem sequer ouviu a pergunta até ao fim. Foi deselegante para com Megyn Kelly, a única mulher no lote de três moderadores do debate, quando confrontado com o que escreveu no twitter sobre as mulheres.
 
Jeb manteve linha moderada
 

Jeb Bush, apontado como favorito à nomeação até à «surge» do multimilionário, tentou não cair na «armadilha Trump». Mas tinha preparada uma deixa com ar de quem queria fazer frente ao estilo de Donald, para mostrar que também podia ser duro: «Na Florida, chamavam-me ‘veto Corleone’, tantas vezes usei esse instrumento’.»
 
No essencial, Jeb colocou-se como o candidato mais institucional, tentando recentrar a ideia de ser o mais «elegível» e «viável» para a eleição geral, apesar dos problemas que tem tido nas últimas semanas: «O meu registo conservador ajudou as pessoas a ficarem melhores. E quanto ao meu pai e ao meu irmão, na Florida tratam-me por Jeb».

O governador da Florida quis tanto manter linha moderada que até Donald Trump, situado à sua direita, disse já na reta final: «Você é um gentleman. E digo isto sinceramente».
 
Outros dois pretendentes à nomeação com hipóteses reais de lá chegar, Marco Rubio e Scott Walker, não puderam seguir o guião preparado, tão perturbador foi o «fator Trump».
 
Rubio, ainda assim, passou a ideia de ser o «candidato do futuro» e aprimorou a sua visão sobre imigração, demarcando-se da ferocidade primária de Trump ( «nem é verdade que os mexicanos sejam os que mais tentam passar a fronteira ilegalmente, há muito mais guatemaltecos, costa-riquenhos e de outras nações»), mas mostrando ter proposta mais exigente que Bush sobre o tema.
 
Scott Walker acusou algum nervosismo no início, mas conseguiu mais tarde atirar ataque a Hillary Clinton, em temas como o «mailgate» e na instabilidade no Médio Oriente.
 
Christie «vs» Paul: duelo periférico
 
Jeb Bush, Marco Rubio e Scott Walker eram os candidatos com mais obrigações de desafiar a liderança de Trump, mas o duelo mais claro que se verificou no debate foi entre dois candidatos que neste momento são periféricos: Chris Christie e Rand Paul.
 
As críticas do governador da Nova Jérsia às posições anti-vigilância de Rand Paul no Senado criaram o momento mais aceso da noite entre dois candidatos no «plateau».
 
Mas Rand também se «pegou» com Trump, o que levou Donald a atirar: «Você está a ter uma noite difícil…»
 
Ben Carson (boa declaração final, original e divertida) e Mike Huckabee não saíram das suas «trincheiras» muito à direita (Huckabee chega a ter posições mais radicais sobre aborto e direitos dos homossexuais do que Trump ou Cruz) e Ted Cruz optou por via muito radical na sua visão anti-sistema, anti-Washington e até anti-líderes republicanos no Congresso, prometendo, se for eleito, «revogar todas as medidas executivas de Barack Obama».
 
E quanto a John Kasich, governador do Ohio e último a entrar na corrida, aproveitou o «fator casa» e foi dos mais aplaudidos. Enquadrou o «momento Trump» na «fúria dos eleitores contra o estado da política, do sistema e de Washington».
 
A primeira noite de debates das eleições 2016 mostrou também um Partido Republicano ainda pouco aberto às diferenças: num larguíssimo campo de 17 candidatos (10 no painel principal, outros sete no alternativo realizado horas antes), só uma mulher (Carly Fiorina), um negro (Ben Carson), um indiano-descendente (Bobby Jindal) e dois latinos (Marco Rubio e Ted Cruz).

E, é claro, depois de se falar de temas mais «políticos» como imigração, relações externas, saúde e defesa, o debate republicano terminou com os pensamentos de cada candidato sobre... Deus. «God bless America», sempre.

Rubio e Walker fortes na «favorabilidade»
 
O primeiro debate foi claro na confirmação de que Donald Trump é o «frontrunner» que todos querem derrubar, mas a corrida está num ponto de uma certa… esquizofrenia.
 
É que apesar de, nas sondagens, Trump continuar destacado na frente, no índice de favorabilidade (saldo entre opiniões positivas e negativas), Marco Rubio e Scott Walker são os mais bem posicionados no eleitorado republicano.
 
Estudo divulgado pelo «Gallup» horas antes do debate aponta o senador da Florida com 52% de opiniões favoráveis e apenas 14% desfavoráveis (+38%), tendo o governador do Wisconsin (45% bom, só 7%) o mesmo saldo de 38%.
 
Jeb Bush fica um pouco abaixo, por culpa do elevado número de opiniões desfavoráveis (27%), apesar de bom resultado nas opiniões favoráveis (52%). Quanto a Trump, é o recordista das opiniões favoráveis (55% e isso talvez explique a liderança nas sondagens para já), mas também das desfavoráveis (37%), o que lhe confere um saldo positivo de apenas 18%.
 
A questão estará, por isso, em perceber se, nas próximas semanas e meses a enorme visibilidade de Trump (para o melhor, mas também para o pior) lhe continuará a dar a liderança da corrida, ou se a partir de um certo ponto isso não irá virar-se contra ele.
 
Rudy Giuliani, pretendente falhado à nomeação republicana de 2008, avisou há dias em entrevista televisiva: «É um erro desvalorizar Trump. Ele tem apontado algumas questões importantes. Podemos estar aqui perante um pequeno Reagan em potência».
 
Fiorina brilhou no «outro» debate
 
Esta noite de arranque de debates televisivos para a corrida presidencial de 2016 foi tão original que até teve uma espécie de… «programa alternativo».
 
Quatro horas antes do «Big Debate» com os dez mais bem posicionados nas sondagens, realizou-se um segundo debate, mais curto, de 60 minutos, com os sete candidatos menos cotados até esta fase.
 
E foi a única mulher, Carly Fiorina, ex-CEO da Hewlett Packard, quem demonstrou melhor «performance».
 
Esteve forte, com ideias claras, a posicionar-se como conservadora focada nas empresas e no rigor fiscal -- até lhe perguntaram se uma comparação com Margaret Thatcher era legítima.
 
A questão é que se torna duvidosa uma eventual vantagem de Fiorina em ter «ganho» o debate alternativo. Só o facto de ter sido «relegada» para o segundo painel já terá sido revés suficientemente grande para se poder falar em «vitória».
 
Mesmo assim, os elogios quase consensuais a Fiorina (até Megyn Kelly, no arranque do debate principal, puxou por essa ideia) podem tê-la lançado para uma nova fase da sua campanha, não sendo de excluir que em próximas sondagens Carly surja bem acima dos 2% (e até há quem a veja como uma boa solução para vice-presidente do futuro nomeado republicano).
 
Rick Santorum, ex-senador da Pensilvânia que foi segundo nas primárias de 2012, levou com a pergunta: «O seu tempo não terá já passado?».
 
Bobby Jindal, que no início da era Obama era visto como uma das ‘rising stars’ do Partido Republicano mas entretanto perdeu gás, foi confrontado com os maus números de aprovação no estado da Luisiana, que governa.
 
O senador Lindsey Graham, da Carolina do Sul, ainda conseguiu atirar umas alfinetadas a Hillary e mostrou músculo contra o Estado Islâmico.
 
Já os antigos governadores Rick Perry (Texas), Jim Gilmore (Virgínia) e George Pataki (Nova Iorque) revelaram fragilidades que dificilmente resistirão ao avançar da corrida.
 
Mas, lá está, isto foi só a primeira noite de debates televisivos. Muitas outras se seguirão nos próximos meses.
  
Germano Almeida é jornalista do Maisfutebol, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição» e do blogue «Casa Branca»