Barack Obama tomou posse para segundo mandato como Presidente dos EUA faz hoje dois anos e meio -- a 21 de janeiro de 2013.
 
A «reta final» da presidência do primeiro negro na Casa Branca há muito que tem vindo a ser anunciada, mas a verdade é que ainda falta exatamente ano e meio para que Obama abandone o mais alto cargo político eleito a nível mundial.
 
Não sendo já muito tempo para quem foi eleito para um total de oito anos, a verdade é que ainda são quase 550 dias. Dá para fazer muita coisa.
 
Tendo em conta a estratégia adotada pelo Presidente dos EUA nos últimos meses, sobretudo depois da derrota dos democratas nas intercalares de novembro de 2014, é de prever que os próximos 18 meses venham a ser aproveitados ao limite para que a marca que Obama deseja deixar na Casa Branca fique bem presente.
 
A política americana é uma caixinha de surpresas.
 
Obama teve fases muito difíceis na sua presidência. Sobretudo durante aqueles meses iniciais, com a economia americana a perder 750 mil postos de trabalho por mês, o PIB a recuar 9%, o Congresso (mesmo democrata, na altura) a torcer o nariz a grandes planos de estímulo económico (não está nos genes daquela sociedade avessa ao peso do Estado).
 
Mesmo depois da reeleição (momento que parecia ter clarificado as águas, perante o triunfo claro de Obama sobre Romney nas urnas), a verdade é que o Presidente quase nunca passou dos 50% de aprovação – e teve a sua agenda política declarada morta demasiadas vezes.
 
A derrota avassaladora dos democratas nas «midterms» de novembro (em ambiente em que os próprios candidatos democratas pareciam fugir do «contágio Obama», não querendo muitos deles sequer fazer campanha ao lado do Presidente) foi, para muitos, a sentença de «morte política» do sucessor de George W. Bush na Casa Branca.
 
Os últimos sete meses, no entanto, estão a provar o oposto: Obama soma vitória sobre vitória, está a conseguir impor a sua agenda, revela uma taxa de cumprimento das suas promessas eleitorais absolutamente invejável num tempo em que os políticos são olhados, nas democracias, como «mentirosos» ou «sem palavra».
 
Cumprir as promessas, coisa estranha
 
Esqueçam a «maldição dos segundos mandatos» (ideia dominante na história dos Presidentes americanos que, após a reeleição, são afetados por uma estranha incapacidade de cumprirem o que prometeram).
 
Para Barack Obama, o «pós reeleição» está a ser ainda melhor (bem melhor até) do que os primeiros quatro anos.
 
E com essa… coisa estranha nos tempos que correm, que é ver um líder de um grande país a cumprir no exercício das suas funções o que prometeu antes de ser sujeito ao escrutínio eleitoral.
 
A lista é impressionante:
 
-- acordo com Raul Castro para o restabelecimento de relações com Cuba, com benefícios nas trocas comerciais dos dois países, libertações de presos e reabertura de embaixadas (a bandeira de Cuba voltou ontem a ser hasteada em Washington, 54 anos depois);
 
-- acordo com o Irão, no sentido da travagem da ameaça nuclear e desanuviamento de tensões políticas e melhoria de relações comerciais (alargado a outras potências, com efeitos na redução dos preços do petróleo);
 
-- confirmação do ObamaCare no Supremo, em nova garantia de que a Reforma da Saúde será implementada e durável;
 
-- confirmação do «Equal Marriage» como lei federal a aplicar em todos os estados; acordo comercial com o Pacífico, com resistências democratas e apoios republicanos;
 
-- caminho para maior apoio financeiro a quem trabalha horas a mais; primeira visita de um Presidente americano em funções a uma prisão federal, em forte sinal de avanço para uma reforma do sistema prisional (a realidade atual nas prisões americanas é alvo de críticas duras de relatório de direitos humanos)
 
-- discurso notável em Charleston, terminando a cantar o «Amazing Grace», em recordação das vítimas de atentado com arma de fogo em igreja negra
 
-- proposta de Reforma Fiscal de apoio à classe média, taxando os 1% mais ricos, em análise no Congresso
 
-- medidas executivas unilaterais (após inviabilização de um acordo no Congresso) de proteção aos imigrantes ilegais, para evitar deportação imediata de perto de cinco milhões de cidadãos sem cidadania americana que residem e trabalham nos EUA
 
Algumas destas medidas políticas podem não ser consensuais.

Mas a sua globalidade mostra um Presidente em clara estratégia de concretização, que está a ser capaz de ser «efetivo», depois de uma primeira fase em que foi adiando algumas das suas prioridades, de modo a assegurar o essencial: evitar que os EUA caíssem numa nova Grande Depressão e criar alicerces para a recuperação económica.
 
Os resultados estão à vista: os Estados Unidos criam emprego há 65 meses seguidos, estando agora com uma taxa de desemprego de 5.3%, pouco mais de metade do que era em meados de 2009, no pico da tempestade financeira (10%).
  
Dado inesperado: o Estado Islâmico
 
Nem tudo correu bem a Obama nestes primeiros dois anos e meio do segundo mandato.
 
A ascensão do Estado Islâmico ainda não foi devidamente travada e a operação internacional que os EUA lideram desde setembro de 2014 tem tido recuos inesperados.
 
O calendário aponta-nos, para já, esta certeza: Obama não tem qualquer plano para um envio maciço de tropas americanas para o terreno. O caminho deverá continuar uma conjugação de bombardeamentos cirúrgicos, ataques com drones, apoio às monarquias árabes da região (aliadas dos EUA na luta contra os jiadistas sunitas) e o reforço de «know-how» e equipamento do exército regular iraquiano.
  
O que esperar deste ano e meio final?
 

Com a corrida à sua sucessão a acelerar (16 candidatos do lado republicano, Hillary super favorita no campo democrata), Barack Obama tem agora 18 meses para fechar em grande.
 
Na verdade, terá mais um ano: a partir do verão de 2016, as atenções mediáticas e políticas vão virar-se quase em exclusivo para a eleição presidencial, quando se foram investidos os nomeados dos dois partidos, nas convenções.
 
Há sempre a hipótese de Obama estar já a preparar uma surpresa em larga escala, do estilo que fez com Cuba, em dezembro passado. E há sempre um grau de imprevisibilidade no Mundo complicado em que vivemos.
 
Mas com os dados que existem hoje, é de esperar que Obama mantenha o foco na recuperação económica (e, com o petróleo baixo nos próximos meses, tudo indica que haverá condições para que os dados possam ser ainda melhores em 2016), na aprovação de medidas legislativas que melhorem a classe média e aumentem os direitos dos imigrantes e das minorias.
 
À falta de melhor, haverá o acordo com a Europa (TTIP) para concluir e anunciar, já perto de novembro de 2016.
 
Faz hoje dois anos e meio, Barack Obama, a tomar posse para segundo mandato, prometeu ser um Presidente defensor das minorias, dos direitos de todos os cidadãos e com foco especial na classe média trabalhadora.
 
A realidade está a provar que está ser mesmo isso e até mais.
 
Quem diria?
 
Germano Almeida é jornalista do Maisfutebol, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição» e do blogue «Casa Branca»