Está tudo a falar no «elefante Trump» do lado republicano, mas… e se, afinal, a surpresa vier mesmo do campo democrata?
 
Após semanas de sinais preocupantes, agora é oficial: a campanha de Hillary Clinton encontra-se em estado de choque.
 
Um dos momentos mais alarmantes da «crise Hillary» foi a sondagem do fim de semana passado, realizada, pela Survey USA, que colocava pela primeira vez Donal Trump à frente da antiga secretária de Estado, e logo por cinco pontos (45-40), num cenário de Donald e Hillary serem os nomeados para a eleição geral.
 
A preocupação no campo democrata com o desempenho de Hillary nesta fase da corrida é indisfarçável -- e já há setores do partido a defenderem um «big-name plan B» do estilo de Al Gore ou John Kerry, antigos nomeados que perderam eleições gerais.

«Se os líderes do partido se depararem com um cenário no próximo inverno de real possibilidade de Bernie Sanders obter a nomeação, acho que se colocará a sério a hipótese de Kerry ou Gore entrarem nas primárias. Ou então Joe Biden ou até Elizabeth Warren», comentou Garnet F. Coleman, legislador democrata do Texas. 

A super favorita para a investidura democrata, que chegou a ter mais de 50 pontos de avanço nas sondagens nacionais e nos estado principais, foi perdendo terreno e tinha já cedido a liderança no New Hampshire, primeiro estado a votar em sistema tradicional, para Bernie Sanders.
 
O senador septuagenário do Vermont, independente e campeão da ala radical da esquerda americana, tem sabido capitalizar a mobilização e não para de crescer nos estados de arranque: mantém-se forte no New Hampshire, com uma vantagem de cerca de sete pontos sobre Hillary, e surge, pela primeira vez em primeiro lugar o «caucus» do Iowa, primeira votação das primárias 2016.



 
Sondagem Quinnipiac para o Iowa dá 41 pontos a Bernie Sanders, 40 a Hillary Clinton e apenas 12 a Joe Biden (que pondera avançar, mas ainda não decidiu).

E então, Joe?
 
O momento de crise da campanha Hillary parece ter aberto um caminho que há alguns meses surgia como mera impossibilidade: será que Joe Biden vai mesmo avançar?
 
Perante a quase inevitabilidade da nomeação de Hillary, que dominou a primeira fase da corrida democrata, a questão da herança dos anos Obama parecia arrumada: seria a antiga rival de Barack na disputa pela nomeação de 2008, secretária de Estado na primeira administração Obama, a capitalizar politicamente os dois mandatos do 44.º Presidente.
 



Neste cenário, não se vislumbraria espaço para uma tentativa do vice-presidente (que só poderá ter alguma hipótese se for ele a agarrar a herança dos anos Obama).
 
Mas Joe Biden tem uma certa vocação para o risco – mesmo quando os dados parece não permitir-lhe qualquer veleidade de sucesso.
 
Joe tentou já duas vezes a nomeação presidencial democrata; em 1988 (perdeu para Mike Dukakis) e em 2008 (caiu rapidamente, vítima do super duelo Obama/Hillary, e ainda com John Edwards como terceira opção que resistiu durante alguns meses).
 
Mas a escolha de Barack Obama, nomeado democrata em 2008, de Joe Biden para vice-presidente ofereceu ao antigo senador pelo Delaware uma última oportunidade de atingir o olimpo da política americana.
 
E logo ele, que teria tantos impedimentos: uma vida pessoal marcada pela tragédia (perdeu mulher e um filho num acidente de automóvel nos anos 70 e há poucos meses perdeu outro filho, Beau Biden (que aos 46 anos faleceu com um cancro na cabeça).
 
Apesar de tanto infortúnio e de derrotas políticas que desaconselhariam nova tentativa, há uma certa «onda Joe» a animar as hostes democratas.
 
Por cada ponto que Hillary desce nas sondagens o «buzz» sobe mais um bocadinho: vamos ou não ter Biden na corrida? «Enquanto o vice-presidente não decide, amigos próximos dizem que ele ainda não atingiu certezas sobre o que deve fazer. Sobretudo porque há algum tempo terá dito, no núcleo duro da Casa Branca, que se inclinaria por um apoio a Hillary», conta Glenn Thrush, no Politico.com.
 
Com 72 anos, e mais de metade da vida dedicada ao Senado (36 anos no Capitólio em representação do Delaware), há quase sete na Casa Branca ocupando o número dois da Administração Obama, Joe Biden tem o currículo mas talvez não tenha os «skills» políticos necessários para chegar a Presidente: soma ‘ gaffes’ incómodas, é inconveniente e tem um certo «cheiro a político do passado», demasiado comprometido com o «business as usual» de Washington.
 
Nas últimas semanas, Joe andou em consultas. Tentou até ter o apoio de Elizabeth Warren, a senadora do Massachussets que muitos esquerdistas queriam ver no lugar de Bernie Sanders a desafiar Hillary.
 
Mas terá ainda faltado aquele ‘clique’ que é preciso ter para se avançar para uma empreitada com a dimensão de uma corrida presidencial.
 
As sondagens, é preciso dizer, não têm sido especialmente excitantes para Joe Biden. Mesmo com Hillary em queda livre, é Bernie Sanders que surge como ameaça real a Clinton – não Joe.
 
Um antigo assessor da campanha falhada de Biden em 2008 sintetiza, ao «Huffington Post»: «No Iowa, por exemplo, Joe Biden foi o candidato que fez mais amigos e o que teve menos votos».

Não é um retrato promissor para quem sonha em chegar à Casa Branca, de facto.  

Já foi mais provável uma entrada em cena de Joe Biden na corrida de 2016. O tempo está a contar.
 
Germano Almeida é jornalista do Maisfutebol, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição» e do blogue «Casa Branca»