«Ela não vai concordar comigo em tudo. E, sabe, uma das vantagens de concorrer a presidente é que podemos tomar as nossas próprias posições. E Hillary Clinton poderá vir a ser uma grande presidente». 
Barack Obama, entrevista a George Stephanopoulos, na ABC


«Ao abdicar das suas responsabilidades, a Câmara dos Representantes para esta ação executiva, seguindo os precedentes de Presidentes de ambos os partidos há várias décadas. Apoio a decisão do Presidente Obama»
Hillary Clinton, «statement» de reação ao plano de ação executiva anunciado por Obama para a Imigração


A relação entre Barack Obama e Hillary Clinton é a pedra angular para se perceber a dinâmica do Partido Democrata na última década.

Para se perceber os méritos e insucessos do partido do burro nos últimos dez anos, temos que olhar para as escolhas e hesitações do atual Presidente e da ex-Secretária de Estado e mais-do-que-provável nomeada presidencial para 2016.

O histórico duelo que ambos protagonizaram nas primárias para a nomeação presidencial de 2008 ditou a eleição do primeiro presidente negro da América e impediu (ou, pelo menos, adiou) a eleição da primeira mulher.

Depois de batalha intensa e, por momentos, agreste, Barack Obama surpreendeu ao escolher Hillary Clinton para Secretária de Estado do seu primeiro mandato.

E, contra muitas previsões, o «armistício» entre Obama e os Clinton foi sólido e frutuoso: os primeiros quatro anos da era Obama tiveram no plano internacional alguns dos seus melhores momentos e isso teve muito a ver com a competência de Hillary Clinton (a exceção foi Bengasi e o assassinato do embaixador americano na Líbia).

Quanto a Bill, depois de palavras infelizes nas primárias de 2008 a tentar desvalorizar triunfos de Obama em estados com muitos eleitores negros, teve redenção brilhante na Convenção de Charlotte, em setembro de 2012, dando empurrão decisivo à reeleição de Obama, com argumentário convincente dos méritos do primeiro mandato.

A opção de Hillary (anunciada bem antes da reeleição de Obama) de não participar na segunda administração terá muito a ver com a preparação de terreno para a sua campanha presidencial de 2016. Mas explica-se, também, por uma leitura que fez de que seria necessário ter espaço para se demarcar do Presidente em alguns pontos.

Não todos, como nos últimos dias se verificou: dias depois de derrota tremenda dos democratas nas intercalares, com forte grau de responsabilização da impopularidade do Presidente, Hillary não hesitou em  apoiar a jogada de Obama de se sobrepor ao «gridlock» do Congresso republicano, avançando para a Reforma da Imigração pela via das ações executivas unilaterais.

É certo que, há uns meses, Hillary não se coibiu, em entrevista à «The Atlantic», de se distanciar de Obama em questões como a guerra na Síria e mesmo na política de alianças com Israel.

Mas mesmo na frente externa, a provável nomeada do Partido Democrata tem-se mantido fiel à visão do Presidente, depois de quatro anos de total sintonia, quando serviu na primeira Administração Obama: conceitos de «retirada» e «contenção» nas guerras do Iraque e Afeganistão; uso de drones e evitamento a todo o custo de «boots on the ground»; travagem do Estado Islâmico pela via dos ; parceria exigente com Israel, com críticas pelos excessos na última ofensiva terrestre a Gaza, mas apoio político a Telavive.

No tabuleiro político interno, Barack Obama entrou, claramente, na reta final da sua presidência. A ação executiva unilateral sobre Imigração foi sinal claro de que o Presidente continuar a ser «player» influente, embora retraído por um Congresso politicamente hostil.

E, na entrevista que deu a George Stephanopoulos, à ABC, Obama deu dois sinais claros: tem consciência das limitações políticas que terá nos últimos dois anos e fará tudo para as contornar, de modo a cumprir a agenda política que fez aprovar na reeleição (Imigração, Energia, Reforma Fiscal, contenção da dívida e défice); vê como inevitável que os democratas comecem a virar-se para Hillary Clinton, no sentido de segurarem a Casa Branca para lá de 2016.

«Os norte-americanos querem conduzir um automóvel que não tenha o mesmo cheiro (…) Querem um novo começo. Não querem conduzir um carro com tantos quilómetros como eu», admitiu Obama nessa entrevista.

«Hillary Clinton pode ser uma candidata formidável e uma grande presidente. Estou muito interessado em assegurar que tenha um sucessor democrata na Presidência», apontou Obama.

A transição de Obama para Hillary está, por isso, em marcha no universo democrata. Mas isso ainda não significa o fim da história para Barack Obama. Esse fim já foi decretado tantas vezes e, bem vistas as coisas, o anúncio foi sempre precipitado.

Germano Almeida é jornalista do Maisfutebol, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição» e do blogue «Casa Branca»