Há uma ideia, praticamente consensual, de que a luta pela sucessão de Barack Obama na Casa Branca está já apontada, a 16 meses das eleições, a esta tendência: Hillary «vs» nomeado republicano.

Se do lado da direita americana as coisas estão, de facto, totalmente em aberto (o leque de pretendente já vai em dezena e meia, sendo que Jeb Bush é um por enquanto um «frontrunner» com avanço relativamente curto), a corrida pela nomeação democrata apresenta um favoritismo tão grande de Hillary que pode provocar obstáculos inesperados à provável nomeada.

Não se trata, para já pelo menos, de pôr em causa a quase certeza de que a antiga secretária de Estado dos EUA vai mesmo ser a escolhida dos delegados à Convenção Democrata.

Tem a ver, isso sim, com a dinâmica que as primárias democratas estão a conhecer nesta fase, ainda de arranque.

Ainda com duas equações a resolver (será que o vice-presidente Joe Biden tentará uma candidatura de última hora? Poderá a senadora Elizabeth Warren ceder aos apelos dos sindicatos e da ala esquerda e avançar, também ela?), a verdade é que a corrida democrata começa a ganhar forma: Hillary na frente, Bernie Sanders como um «challenger» incómodo e com uma capacidade de mobilização surpreendente.
 

Corre, Bernie, corre!

Com um discurso claro e sem rodeios, Bernie, 73 anos, senador independente pelo Vermont (é socialista, mas vota no essencial alinhado com o Partido Democrata), está a agarrar os segmentos à esquerda do «mainstream»: exige maior regulação dos mercados, tetos salariais para CEO’s, defende a legalização da marijuana e apoia os esforços do Presidente Obama em áreas como a Saúde.

A apostar forte nos estados de arranque, Sanders começa a reduzir significativamente as vantagens de Hillary no Iowa e New Hampshire.

Antes dos anúncios das respetivas candidaturas, sondagens iniciais davam avanços de 50 pontos ou mais à superfavorita nesses dois estados.

Mas, nas últimas semanas, Sanders reduziu a diferença para oito pontos no New Hampshire e 19 no Iowa, graças A
campanha agressiva e mobilizadora, que já lhe valeu, de resto, a promoção de comícios muito participados.

Sondagem Quinnipiac para o «caucus» do Iowa dá 52 pontos a Hillary e 33 a Sanders. No New Hampsire, Bernie também está a subir e até obteve o apoio do ativista democrata Dudley Dudley. Sondagem CNN/ORC dá 43% a Hillary naquele estado do Midwest, contra 35% de Sanders: quem diria, há umas semanas, que Bernie iria chegar tão perto da super favorita?

Mas parece tratar-se de um fenómeno dos estados de arranque. Na Florida, por exemplo, não há grandes variações: Hillary 65/Sanders 21.
 

E Elizabeth?

Fica a ideia de que Bernie está também a aproveitar o vazio deixado pelo não avanço (até agora, pelo menos) da senadora Elizabeth Warren, que até há poucos meses era a preferida da ala esquerda do Partido Democrata.

Elizabeth continua a garantir que não é candidata, embora ainda não se tenha pronunciado sobre eventuais apoios a candidatos já no terreno. A revista «Mother Jones», situada à esquerda, noticiou há dias a possibilidade da senadora Warren poder vir a fazer campanha por Bernie Sanders.

Bernie tem o recorde, até agora, de 10 mil pessoas num comício em Madison, Wisconsin (nenhum outro candidato para 2016 conseguiu tal coisa, embora a procissão ainda vá no adro). E tem também o maior evento promovido até agora o Iowa (2.500 pessoas em Council Bluffs).

A capacidade de mobilização do senador pelo Vermont (que também trabalha bem as redes sociais) faz lembrar um pouco o fenómeno Ron Paul: nas últimas quatro eleições presidenciais, o pai de outro candidato republicano (Rand Paul) juntava muita gente nos comícios, aparecia forte nas sondagens de alguns estados – mas nunca conseguiu reunir condições reais para sonhar com a nomeação.

O mesmo, muito provavelmente, acontecerá a Sanders. Seria enorme surpresa se conseguisse vencer algum estado (Hillary continua a liderar com grande vantagem em todos), mas a verdade é que a campanha de Bernie já está a marcar a agenda da corrida democrata.
 

Campeões do liberalismo

Defensor das ideias mais liberais do espetro político do Senado americano, Bernie é considerado «a última grande esperança da democracia americana» para Shannon McCartney, ativista pela legalização da marijuana, citada pela ABC News.

Ainda com as conquistas do Presidente Obama a marcar a agenda da campanha democrata (Health Care e Equal Marriage), há uma espécie de concurso sobre quem tem mais legitimidade para herdar politicamente essas ideias.

E apesar das credenciais esquerdistas de Bernie, Hillary Clinton, embora numa posição mais «mainstream», até já puxou dos galões: «O meu percurso é conhecido. Não fico atrás de ninguém no registo pelas ideias liberais», disse a candidata em ação recente em Hanover, New Hampshire.
 

Hillary sai da toca

Em clara gestão de tempo e expetativas, Hillary deu a primeira grande entrevista, quase três meses depois do anúncio oficial da candidatura.

Foi à jornalista Brianna Keilar, numa pausa da campanha no Iowa.

Hillary desvalorizou a subida de Bernie Sanders («sempre disse que esta iria ser uma campanha competitiva»), criticou Jeb Bush («nunca teve um caminho para a cidadania dos imigrantes ilegais») e arrasou Donald Trump («estou muito desiludida com ele e com o que disse sobre os mexicanos. E também com o Partido Republicano, por não lhe dizer imediatamente: ‘pare lá com isso!’»).
 
Germano Almeida é jornalista do Maisfutebol, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição» e do blogue «Casa Branca»