E, subitamente, o Presidente dos Estados Unidos voltou a sorrir.
 
No início de novembro, logo a seguir à derrota nas «midterms», Obama parecia acabado. Ainda 2014 não terminou, passaram sete semanas do triunfo republicano nas duas câmaras do Congresso, e neste curto espaço de tempo o 44.º inquilino da Casa Branca recuperou a face política e ganhou, inesperadamente, o «momentum».

«É óbvio que Obama não foi um Presidente fracassado. Contudo, também não é provável que seja considerado um grande Presidente, nem um líder emblemático. Ao contrário do que aconteceu com FDR (Roosevelt), JFK (Kennedy) ou mesmo LBJ (Johnson), não haverá um BHO», considera Aaron Miller, no Washington Post.
 
A verdade é que, em política, o fator surpresa tem um grau de importância muito elevado. Obama tem sabido jogar com isso nos momentos fundamentais: e quando parecia que já não iria ter planos B.
 
Em maio de 2011, quando tinha que começar a preparar a reeleição e não conseguia descolar dos 40 pontos de aprovação, Barack Obama jogou o seu futuro político na jogada arriscada de aprovar a operação da eliminação de Bin Laden.
 
Nessa altura, em poucos dias, o Presidente dos EUA também conseguiu ganhar inesperadamente uma nova vida (saltou para valores próximos dos 60 pontos de aprovação, os mais elevados desde os primeiro meses de Presidência). Um ano e meio depois, viria a obter, com facilidade, a reeleição.
 
Já sem o peso de ir a votos (nem sequer de forma indireta, nas intercalares), Obama voltou a surpreender desta vez: primeiro com as medidas executivas unilaterais para impedir a deportação de cinco milhões de imigrantes ilegais; agora com o acordo histórico com Cuba. 

Em ambos os casos, há a questão social e demográfica: já há quem lhe chame o «primeiro Presidente latino». Talvez seja exagero (e, na verdade, Bill Clinton também já tinha esse título nos anos 90). Mas o peso dos hispânicos na reeleição de Obama estará a contar muito nas prioridades do Presidente. 

Mais relevante ainda será a leitura poítica que Obama tem feito: perante o «gridlock» do Congresso (sendo que parte das culpas da paralisação estará na inabilidade do Presidente em seduzir número suficiente de congressistas do campo oposto para obter aprovações do que propõe), Barack Obama assumiu, claramente, a via dos poderes presidenciais. 

Isso tem os seus problemas: muitos analistas e políticos republicanos acusam-no de não respeitar a tradição de «checks and balances» do sistema de poder na América, em que o Presidente deve caucionar as suas ações junto do Congresso.

Esse dilema já tinha surgido na Imigração. E volta a verificar-se com Cuba: por muito que o acordo com Raul Castro seja forte e impactante, a verdade é que sem a aprovação do Senado, não haverá confirmação do embaixador norte-americano que o Presidente venha a nomear para Havana.

E mesmo com relações reatadas entre os líderes (Obama e Castro), sem o Congresso não haverá levantamento oficial do embargo. A economia virá como consequência do acordo político? Veremos.

De todo o modo, o novo sorriso de Barack Obama é justificado: o Presidente deu provas, nas últimas semanas, que ainda conta. Que ainda tem prestígio internacional suficiente para fazer «gamechanges» como a jogada da aproximação a Cuba.

A juntar a este «regresso de Obama», os índices económicos do final do ano são muito favoráveis aos EUA: crescimento de 5% no terceiro trimestre, o maior dos últimos 11 anos na América. O desemprego continua a baixar, o consumo privado está cada vez mais forte.

A Administração Obama termina 2014 em grande. Quem diria?
 
Germano Almeida é jornalista do Maisfutebol, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição» e do blogue «Casa Branca»