O espanto pela vantagem de Donald Trump no lado republicano é tão grande que jornalistas, analistas e interessados em geral pela corrida à sucessão de Obama têm estado, nas últimas semanas, numa espécie de choque generalizado, tentando perceber o que se passa na cabeça dos eleitores republicanos.
 
Mas do lado democrata há um outro fenómeno inesperado a acontecer: tem 73 anos, um aspeto muito pouco consentâneo com os ditames do que é suposto ser um «candidato presidencial na América», mas não para de subir nas sondagens, sobretudo nos estados de arranque.
 
Bernie Sanders, senador do Vermont há oito anos e meio, nem sequer é do Partido Democrata: apresenta-se no Capitólio como «independente», embora tendencialmente vote alinhado com a bancada democrata.
 
Ao contrário de Barack Obama, quando surgiu em 2007/2008 a galopar rumo à derrota de Hillary, Bernie nem sequer é jovem, bonito e eloquente.
 
Mas a verdade é que o caminho que está a traçar começa a ter comparações inevitáveis: Sanders foi apresentado, quando iniciou a corrida, como o «patinho feio» que não teria qualquer hipótese de fazer sequer cócegas ao superfavoritismo de Hillary Clinton.
 
Só que não é isso, não é mesmo, o que se está a passar.
 
«Straight talk»
 

Com a sua «straight talk» (há dias, disse sobre Donald Trump «penso que a sua visão sobre a imigração insulta a comunidade latina e é algo que não devemos adotar em 2015»), Bernie está a conseguir liderar um movimento que junta ativistas de esquerda, desalinhados com o «core» democrata, desiludidos com a Administração Obama e, sobretudo, trabalhadores de classe média e baixa que duvidam que Hillary Clinton consiga avançar mais do que Barack Obama em questões como a regulação do sistema bancário ou o rendimento da «working middle class America».
 
Essa frontalidade de Bernie é muito apreciada na esquerda americana, que continua a ver Hillary como «demasiado colada ao sistema de poder».
 
Nos últimos meses, a surpresa está a crescer: Hillary começou no Iowa e no New Hampshire, os dois estados de arranque, com 60/70%, tendo Bernie níveis residuais.
 
Mas com o avançar da corrida, aconteceram três coisas:
 
-- Hillary foi começando a descer 20 ou 30 pontos, está agora pelos 40/50% no Iowa e abaixo ainda disso no New Hampshire;
 
-- o não avanço da senadora Elizabeth Warren, do Massachussets, que está a permitir a Bernir sugar a totalidade das sensibilidades à esquerda do eixo Obama/Hillary, no partido democrata e no universo liberal na América;
 
-- Bernie Sanders está a conseguir promover as maiores multidões nesta campanha, num efeito «bola de neve» que beneficia a ideia de que a sua candidatura ainda tem por onde crescer.
 
É certo que, nas sondagens nacionais, a vantagem de Hillary é ainda relativamente confortável (mas também já foi bem maior…).
 
Mas os sinais de nervosismo no campo da superfavorita já são tantos que não dá para disfarçar: ainda que quase todos continuem a apostar na nomeação de Hillary, a noção de «invencibilidade» da antiga secretária de Estado já caiu.
 
E isso, na dinâmica de uma corrida presidencial nos EUA, pode ser muito preocupante.
 
O mais cotado senador independente da história
 
Bernard Sanders é o mais cotado senador independente da história da América.
 
Nascido a 8 de setembro de 1941, filho de pai polaco e mãe de família judaica, completará em breve 74 anos.
 
Caso fosse eleito, em novembro do próximo ano, o sucessor de Barack Obama na Casa Branca, seria o mais velho presidente americano eleito para primeiro mandato.
 
O percurso político de Bernie é, a todos os títulos, notável: pela sua singularidade e pelo registo que tem no Congresso americano (16 anos como membro da Câmara dos Representantes, senador desde 2007, sempre pelo Vermont).
 
Líder do Comité de Veteranos do Senado, Bernie sempre se afirmou como «socialista» e nunca como democrata. Essa «nuance» é para ele essencial para apontar a chave do seu discurso político: a de que os democratas, na América, não têm uma verdadeira política «social-democrata» (nos moldes europeus).
 
Essa ideia tem-no destacado como um membro verdadeiramente original no Congresso americano.
 
Geralmente vota alinhado com os democratas, mas muitas vezes (Saúde, Reforma Financeira) se demarca da posição da Administração Obama (achou a primeira versão do ObamaCare curta, estilhaçou a forma como foi elaborada a Dodd/Frank Bill).
 
No Senado tem sido voz liderante em temas como acesso universal à saúde, direitos dos «gays», mudanças climáticas, direitos cívicos, «income inequality».
 
O candidato progressista
 

Não deixa de ter uma ponta de ironia que precisamente na fase em que a Presidência Obama está a obter sucessos na área mais progressista (gay marriage, Reforma da Saúde definitiva, plano para Climate Change Act, Equal Pay e Ovetime PayRule) esteja a acontecer esta «pulsão» por Bernie Sanders.
 
Hillary Clinton, que se apresentou como candidata muito atenta à classe média (quer ser a «campeã» da América trabalhadora), não está a conseguir agarrar essa causa na totalidade, talvez por ainda não se ter libertado da herança dos anos Clinton, que terminaram com a aprovação de medidas de desregulação.
 
Pode ser que seja apenas um sinal de protesto, mas a sondagem que deu Sanders sete pontos à frente de Hillary no New Hampshire teve grande carga simbólica.
 
Para mais, o «fenómeno Sanders» tem números concretos a apresentar: 28.000 pessoas em Portland, Oregon; outras 28.000 em Los Angeles, Califórnia. Mais de cem mil pessoas no somatório de comícios e ações em julho, o mês do «clique» para a candidatura do senador independente do Vermont.
 
Há quem veja Bernie como uma «versão soft de Trump à esquerda». A comparação é, de todo, injusta: Sanders tem credibilidade e um percurso político no Congresso.
 
Mas pode haver uma raíz comum no apoio a Bernie e Donald: o tal «desconforto com o sistema», um sentimento de zanga pela «gridlock» constante no congresso.
 
Bill Scher, no Politico Magazine, observa: « Na verdade, Bernie não está a concorrer a presidente dos EUA. Está a concorrer a presidente da América Progressista. E quando se concorre numa base tão ideológica assim, os seus apoiantes ideológicos vão exigir tudo e não vão permitir desvios a essa plataforma. É um jogo que simplesmente não pode ser ganho».
 
Bernie pode não ter hipóteses reais de chegar à Casa Branca. Mas que é um dos candidatos do momento nesta mais louca corrida do Mundo, isso é.
 
Hillary está atenta e ainda não conseguiu estancar a ferida.
 
Germano Almeida é jornalista do Maisfutebol, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição» e do blogue «Casa Branca»