Depois da derrota pesada dos democratas nas intercalares do passado dia 4, os olhos dos apoiantes de Barack Obama viraram-se para Hillary Clinton.
 
A mais que provável nomeada do Partido Democrata para 2016 continua com números muito bons nas sondagens (50 a 60 pontos de avanço na corrida para a nomeação, entre 5 a 15 pontos de vantagem na luta final contra qualquer pretendente republicano), mas há quem receie que possa vir a sofrer de um certo «contágio negativo», nos próximos dois anos, caso a impopularidade da Administração Obama se agrave nos últimos dois anos de governação.
 
Hillary Clinton, que embora só deva anunciar a sua segunda candidatura à Casa Branca algures em 2015, já se comporta no terreno como se fosse a super favorita: seja em conferências, em declarações reagindo a momento de relevo da política americana (como quando Obama anunciou medidas executivas unilaterais para avançar com a Reforma da Imigração) ou em entrevistas como a que deu, no verão passado, a Jon Stewart, no «Daily Show».
 
Nessa conversa, vista por vários milhões de americanos, Hillary elaborou uma visão que é crítica da disfuncionalidade do Congresso, mas globalmente apoiante das prioridades do Presidente.
 
«Estou preocupada com o facto dos mais jovens não terem as mesmas oportunidades que eu, ou Bill, ou o Jon tivemos. A ideia de que quem estuda e trabalha muito terá sorte na vida. Infelizmente, vejo que milhões de jovens não têm essa ideia, essa garantia. E isso para nós, enquanto país, é grave», comentou Hillary.
 
«Acreditávamos que havia uma escada social. Essa escada foi cortada», reforçou.
 
Mas será isso culpa deste Presidente e desta Administração? Ora, é aí que Hillary se define, mostrando que vê Obama como «um Presidente que tem feito o melhor pela América, mas que tem sofrido, em muitos pontos, a paralisação de um Congresso que, simplesmente, não funciona».
 
O grau de confiança dos americanos nos políticos é cada vez mais baixo. O Presidente tem apenas 40% de aprovação, e isso é um problema, mas o Congresso, com forte pendor republicano, tem quase quatro vezes menos, somando pouco mais de 10% de aprovação.
 
O que tem falhado, então? Hillary arriscou uma tese: «É uma combinação de um Congresso que não funciona e que não permite que o ramo executivo faça o seu trabalho. O sistema político americano, com a sua teia de procedimentos e garantias, não se atualizou devidamente aos tempos modernos. Tem tempos diferentes e perde com isso. A burocracia política não ajuda».
 
Hillary pretende mostrar como a América ainda pode fazer a diferença: desde que saiba explicá-la. «Este sistema tem funcionado nos últimos 200 e tal anos e vai continuar a funcionar. Mas tem que se atualizar.»
 
A mais que provável nomeada presidencial democrata para 2016 coloca as coisas em perspetiva: «O mundo de hoje já não funciona de líderes para líderes. No meu tempo de estudante era assim, hoje já não é. Quando o Mundo era dividido entre dois blocos, e em que se apoiava uma superpotência ou outra, as coisas eram mais simples de compreender. Hoje as variáveis são muito maiores. O poder já não é só entre líderes. Acontece de baixo para cima. Nas redes sociais, noutrs foruns. Para os mais jovens, os EUA a libertarem a Europa, a derrotarem os nazis... isso é pré-história para eles! Temos que voltar a conseguir explicar que os EUA têm uma grande História. Não somos perfeitos, de forma alguma. Mas temos uma História que nos deve orgulhar. Temos é que saber contá-la melhor... a nós próprios, antes de tudo, e depois aos outros».
 
Hillary assume, com esta visão, um certo «declínio do poder americano», ideia que nos anos Obama começou a vigorar, mas insistiu numa visão otimista: «Lembro-me que Vaclav Havel, uma grande figura da cultura e da política europeia, primeiro presidente da República Checa libertada do comunismo, tinha como grande ídolo Lou Reed. A América sempre marcou gerações e culturas. Isso tem que continuar a acontecer». 

Germano Almeida é jornalista do Maisfutebol, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição» e do blogue «Casa Branca»