A saída de Chuck Hagel, já anunciada embora adiada para o momento em que Barack Obama já tiver uma sucessão confirmada para o Pentágono, significa três coisas.

Em primeiro lugar, mostra o falhanço do ainda secretário da Defesa, antigo senador republicano do Nebraska, amigo pessoal do Presidente e forte aliado da ascensão de Obama, por discordar claramente da posição de Bush em relação ao Iraque.

Depois, revela a força crescente da fação republicana, pós intercalares, que pretende abordagem mais agressiva em relação ao Iraque e à Síria.

Finalmente, e mais importante de tudo, significa que a mítica «contenção» que Barack Obama pretendia deixar como doutrina dos seus dois mandatos presidenciais, na forma de lidar com o poder bélico dos EUA, terá tido vencimento nos primeiros anos da sua passagem pela Casa Branca, mas, simplesmente, deixou de vigorar.

Com um Congresso profundamente hostil, sobretudo com a passagem do Senado para as mãos dos republicanos, Barack Obama sabe que terá, nos últimos dois anos da sua presidência, ainda menos poder de influência nas questões de política externa.

A campanha de «contra-terrorismo» iniciada a 11 de setembro passado, para combater e eliminar o Estado Islâmico, terá sido a gota de água que fez transbordar o copo: o Presidente anunciou à América e ao Mundo um plano que passava pelo reforço dos bombardeamentos aéreos e pela recusa em enviar tropas americanas para o terreno.

Chuck Hagel integrava-se nesta visão de Obama. Mas os principais chefes do «complexo militar» americano não acreditam nesta via: desde cedo, generais como Martin Dempsey avisaram: «A partir de um certo ponto desta operação, terá que haver "boots on the ground", por muito que isso nos custe». 

Ao anunciar a sua saída, a meio do segundo mandato de Obama, e dias depois da derrota democrata nas intercalares, Chuck Hagel está a mostrar que a reta final desta presidência será mais dominada pela visão dos chefes militares e menos pelo «realismo» de quem tem mandado politicamente na Casa Branca e no Pentágono. 

Quem virá a seguir? 

O problema, para Barack Obama, é precisamente esse. Para o Presidente, perder agora Chuck Hagel até podia não ser mau: a derrota avassaladora dos democratas nas intercalares exigir sangue novo na sua administração.

A questão é que a confirmação no Senado do próximo chefe do Pentágono pode não ser fácil. 

Com os republicanos agora em maioria na câmara alta, não é impossível que a escolha do Presidente venha a ser recusada, como primeiro sinal de força da oposição ao Presidente, reforçada depois das «midterms».

Obama, político prudente (por vezes, em excesso), vai tentar evitar esse problema a todo o custo. A melhor forma será lançar à votação no Senado o nome do sucessor de Hagel ainda antes da inauguração do 114.º Congresso, em janeiro.

O Presidente tem, por isso, poucas semanas para resolver o problema de chefia política no Pentágono ainda em ambiente político favorável.

Não será fácil: as primeiras duas escolhas (Michèle Flournoy, número 3 do Pentágono durante o consulado de Leon Panetta, que poderia ter sido a primeira mulher a mandar nas forças armadas americanas, e o senador Jack Reed, do Rhode Island) recusaram o convite para liderarem a pasta da Defesa da Administração Obama.

Obama já sabia que os últimos dois anos não iriam ser fáceis. Mas para não ser «lame duck» e continuar a ser o ás de trunfo do tabuleiro político na América vai mesmo ter que perder mais umas horas ao telefone, a discutir com os adversários políticos do Congresso. E como ele detesta essa parte do jogo.

Germano Almeida é jornalista do Maisfutebol, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição» e do blogue «Casa Branca»