Michelle Obama fez bem ou fez mal em aparecer de cabeça descoberta no funeral do Rei Abdullah, da Arábia Saudita?
 
A polémica estalou nos últimos dias e até houve quem comparasse a opção da Primeira Dama dos EUA com as vestes excessivas da mulher do ministro dos Negócios Estrangeiros português na visita ao Irão.

É daqueles temas em que se torna difícil encontrar a posição mais sensata.
 
Se, por um lado, o argumento da lei e dos hábitos locais pode ter colhimento numa situação como aquela (afinal de contas, só vai a um funeral quem quiser e o respeito por quem morre é um fator importante), por outro há uma posição que se firma por parte dos mais altos representantes dos Estados Unidos.
 
Michelle, Primeira Dama com agenda fortemente focada nos direitos individuais, no papel das mulheres na sociedade, pode ter querido aproveitar o momento para traçar fronteiras.
 
Do mesmo modo que o casal Obama já aproveitou a popularidade em África para promover a responsabilidade nos comportamentos sexuais no continente negro, Michelle e Barack sabem que a América ainda tem uma palavra a dizer em temas como a emancipação das mulheres nas sociedades muçulmanas.
 
Amy Davidson, na New Yorker, vai ao ponto: «Michelle Obama foi ao funeral do Rei Abdullah. Implicou, como acontece nos funerais, uma viagem inesperada, que até envolveu uma alteração à presença na Índia. Mas a Primeira Dama apareceu da forma apropriada. Usou calças pretas, uma blusa azul de alta costura e um casaco. Debaixo do seu pescoço, apenas as suas mãos estavam cobertas e ela fez questão de não as oferecer quando os homens sauditas, na receção realizada, a ignoraram ou a criticaram entredentes. Ela não usou um lenço na cabeça; provavelmente podia ter arranjado um quando estava na Índia, mas, na verdade, porque é que teria que o fazer? As mulheres sauditas têm que cobrir as suas cabeças e muitas vezes até cobrem as caras, também; as mulheres estrangeiras na Arábia Saudita, no entanto, não são obrigadas a isso e quando Laura Bush e Hillary Clinton lá foram as suas cabeças estavam destapadas».

Mas também é verdade que há precedentes apontando para o contrário: em 1979, a Raínha Isabel II, de Inglaterra, usou um lenço a tapar a cabeça na visita ao Golfo; a própria Michelle tapou os ombros na visita ao Vaticano, em 2009, quando foi recebida, ao lado do marido, pelo então Papa Bento XVI. E no ano seguinte, em 2010, numa visita a uma mesquita na Indonésia, tapou, também ela, a cabeça.

O argumento da imprevisibilidade que um funeral tem por natureza (para mais com a morte do Rei Abdullah a ter acontecido em plena viagem presidencial de Obama na Índia) reforça a tese de que não foi um ato ostensivo e premeditado por parte da Primeira Dama.

No excelente artigo na New Yorker, Amy Davidson acrescenta: «Em qualquer ocasião e lugar, há formas de  nos adaptarmos com o que temos, mantendo sempre a educação e garantindo que ninguém se sente ofendido. Isso tem a ver com modo, com gostos e com educação. Michelle Obama jogou com isso, com as suas calças largas e seu casaco longo e isso bastou».

Fim de polémica ou nem por isso?

Seja qual for a intenção de Michelle com a escolha da cabeça destapada, a verdade é que a relação EUA/Arábia Saudita está para ficar como uma das alianças mais duráveis, mas também mais ambíguas, do contexto internacional. Mesmo com tantas e tão visíveis diferenças de mentalidade.

O próprio Barack Obama admitiu, em entrevista à CNN, antes da visita a Riade: «Às vezes temos que equilibrar a nossa necessidade de falar sobre direitos humanos com as preocupações imediatas que temos em temas como a contenção do terrorismo ou lidar com a estabilidade regional».

Germano Almeida é jornalista do Maisfutebol, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição» e do blogue «Casa Branca»