“Ouço isto tudo e sinto tudo de forma pessoal. E estou certa de que muitos vocês sentem o mesmo, especialmente as mulheres. Os comentários vergonhosos sobre os nossos corpos, o desrespeito pela nossa inteligência. A noção de que se pode fazer tudo a uma mulher? É cruel. É assustador. E a verdade dói. Dói.”

MICHELLE OBAMA, comício da campanha Hillary no New Hampshire, 13 de outubro
 
 Hillary disparou no eleitorado feminino, nos dias sequentes à divulgação da gravação de 2005 em que Donald Trump fala de forma indecorosa e inaceitável sobre as mulheres.
 
Sendo o voto feminino maioritário no bolo total das eleições presidenciais americanas (estima-se que a 8 de novembro votem 53 mulheres e 47 homens em cada 100 americanos que forem às urnas), a vantagem da democrata sobre o republicano nesse segmento (61-28, sondagem The Atlantic/IPRRI) abre-lhe caminho para uma vitória confortável.

Se a esse dado juntarmos a recuperação de Clinton nos eleitores independentes (há duas semanas, Trump estava oito pontos à frente nos eleitores sem preferência declarada entre democratas e republicanos, agora Hilary tem 11 pontos de avanço), conclui-se que esta eleição pode estar perto de ficar decidida.

As sondagens nacionais dão agora uma diferença de 7 a 12 pontos, com o Colégio Eleitoral a mostrar vantagem enorme da democrata. Não se vê caminho para os 270 para Donald Trump, no atual estado da corrida.
 
O que pode Trump fazer para tentar uma última vida? Em queda nas sondagens, o nomeado republicano conseguiu, pelo menos, estancar a debandada dos notáveis do seu partido, depois de desempenho razoável no segundo debate.
 
Mas  no plano da estratégia, Donald tem vindo a radicalizar ainda mais a sua linguagem, posicionando-se como candidato anti-sistema, anti-políticos, anti-media, numa construção de uma espécie de “teoria da conspiração”.
 
Trump contra o mundo: “Isto é uma conspiração contra vocês, o povo americano, e não podemos deixar que aconteça nem que volte a acontecer”, disse Donald aos seus apoiantes, referindo-se a suposto favorecimento da cobertura mediática à campanha de Hillary Clinton. “Este é o nosso momento de definição para a nossa sociedade e para a civilização”

Rudy Giuliani, conselheiro político sénior da campanha Trump, desvalorizou, entretanto, o conteúdo do vídeo de 2005, dizendo que "são coisas que os homens dizem em privado". 
 
O tema "assédio a mulheres" continua na agenda da campanha. A estratégia da candidatura de Hillary parece ser a de gerir a sólida vantagem repetindo, até à exaustão, nas próximas três semanas, que Donald Trump tem um comportamento indigno para a Presidência dos EUA.

A verdade é que, nos últimos dias, todos os sinais apontam para que Hillary está a agarrar a maior parte dos indecisos e a fixar os seus eleitorados preferenciais, aumentando vantagens nas mulheres, nos independentes, no jovens e nos latinos (nos negros já será difícil ter mais que 90%).
 
A juntar a tudo isto, continua o clima de turbulência no Partido Republicano.
 
Paul Ryan, o republicano com cargo público mais elevado, demarcou-se em definitivo (não tirou oficialmente o ‘endorsement’ a Trump, mas garantiu que não volta a aparecer com ele em campanha, o que é quase a mesma coisa). E continua a aumentar o rol de jornais conservadores a abrir precedentes históricos, assumindo, pela primeira vez, apoio oficial a um candidato democrata, com justificações como “Trump não tem dimensão para ser Presidente” ou “é impróprio para a função”.
 
Enquanto isso, já se vota em vários estados, especialmente nos decisivos.
 
O «early voting» pode ter, este ano, uma importância significativa, sobretudo se atendermos à vantagem que, nesta altura, Hillary tem sobre Trump. A democrata tem uma máquina muito mais preparada para tirar proveito do voto antecipado e chegar a 8 de novembro com um balanço que dificilmente poderá ser contrariado pelo republicano.
 
De acordo com o «Huffington Post», Hillary tem, a três semanas e três dias da eleição, 92% de probabilidades de ganhar.
 
Os menos de 10% de esperança de Trump não devem, no entanto, ser totalmente menosprezados. É que, na política americana, é mesmo tudo possível.