Hillary Clinton está doente? Recusa esclarecer o seu estado de saúde para não assustar os eleitores?
 
As perguntas, lançadas assim, parecem um pouco alarmistas ou, no mínimo, de pendor sensacionalista.
 
Mas é neste ponto em que parece estar a campanha de Donald Trump, a avaliar pelo argumentário dos últimos dias.
 
Rudy Giuliani, um dos conselheiros políticos mais próximos de Trump e dos poucos republicanos de primeira linha que está com o nomeado presidencial de 2016, entrou no registo de Donald e lançou: “Os media estão a esconder isso, não estão a falar do tema, mas a saúde de Hillary tem muitas fragilidades, toda a gente sabe isso. Basta ir ao google e estão lá as notícias, os factos. Procurem!”
 
Para o ex-mayor de Nova Iorque, que só não foi adversário de Hillary para o Senado do estado nova-iorquino, em 2000, por lhe ter sido diagnosticado cancro na próstata (ironias da alta política americana, que a própria campanha de Hillary fez notar, em réplica), “tem havido sinais de que Hillary tem uma doença que não revela”.
 
Qual? Que evidências existem para que tal acusação seja levada a sério? Pois, o candidato falhado às primárias republicanas de 2008 não explica. Apenas atira, em jeito de tese conspirativa: “Procurem online ‘Hillary Clinton ilness’ e vejam os vídeos”, acusou à Fox News.
 
E perante as críticas à falta de sustentação da sua tese, Rudy voltou à carga nos dias seguintes, de modo ainda mais… subjetiva: “Hillary parece cansada. Ela parece doente”.
 
Em relação a este tema, parece que, do lado da campanha Trump, está a valer quase tudo.
 
Apesar dos últimos registos clínicos de Hillary não acusarem nada de grave, circulam na net, em especial em sites e blogues conservadores e da direita radical, boletins clínicos falsificados, que apontariam para problemas mentais (demência) e convulsões (seizure).
 
Como em muitas teorias da conspiração, há sempre um fundinho de verdade.
 
Ora, cinjamo-nos aos factos: é verdade que as últimas semanas de Hillary Clinton como Secretária de Estado, a agora nomeada presidencial democrata sofreu problemas de saúde com alguma gravidade: uma concussão em dezembro de 2012, que lhe provocou deficiências na visão durante várias semanas e que a levou a um internamento de alguns dias.
 
Lisa Bardack, médica de Hillary há vários anos, garantiu, no entanto, que “vários exames realizados durante o ano de 2013 mostraram que os efeitos da concussão estão totalmente ultrapassados”.
 
Mesmo assim, o tema parece estar para ficar na campanha eleitoral, a 74 dias da grande decisão.
 
O próprio Trump aborda a questão da saúde de Hillary com cada vez mais frequência, sobretudo no discurso de 15 de agosto, sobre política externa (“ela não tem estofo mental e físico para fazer face ao ISIS e todos os inimigos que ameaçam a América”) e “pundits” de direita como Sean Hannity, na FOX, dão cada vez mais gás ao assunto.
 
De tal modo o fator conspirativo do tema está a crescer que Gregory Krieg, na CNN Politics, já comparou as teses de “Hillary doente” com os “birthers”, movimento que durante anos garantia que Obama, nascido em Honolulu, no Hawai, não podia ser Presidente dos EUA porque teria nascido… no Quénia.
 
Ora, quem foi um dos grandes impulsionadores, pelos anos de 2010 e 2011, desse movimento, quem foi? Donald Trump, isso mesmo.


 Os emails, outra vez
 

Mas não é só o estado de saúde que ensombra, nesta fase, a campanha de Hillary.
 
A questão dos emails enviados em servidor não autorizado, enquanto Secretária de Estado, promete marcar a reta final da campanha.
 
O FBI anunciou que descobriu mais 15 mil emails que não tinham sido divulgados e que podem conter informações relevantes, nomeadamente em relação a financiamento da Clinton Foundation de países com quem a secretária de Estado Hillary tinha ligações.
 
O tema tem ainda muitas interrogações no ar e, também por isso, o candidato Donald Trump subiu nos últimos dias o tom das críticas, exigindo “um procurador especial para investigar em tempo recorde e a fundo tudo o que tenha a ver com os emails de Hillary”.
 
Desde que rebentou o escândalo dos emails, a equipa de advogados de Hillary fez uma análise detalhada das mais de 30 mil mensagens trocadas. Uma grande parte, relacionada com os emails de exclusivo conteúdo pessoal, foi imediatamente apagada. A restante (cerca de 49% do total) foi entregue ao Departamento de Estado (mais de 90% desse bolo tinha o endereço state.gov, o resto tinha outros endereços, mas com matéria relacionada com o Departamento de Estado).
 
O FBI, que já declarou em julho, através do seu diretor James Comey, que Hillary não será acusada no âmbito deste tema dos emails (apesar de ter considerado o comportamento da então Secretária de Estado de “extremamente descuidado”), vai agora analisar mais estes 15 mil emails, estando ainda por esclarecer se, na verdade, há dados novos em relação aos conteúdos dos 30 mil emails inicialmente analisados, em dezembro de 2014.
 
O Departamento de Justiça revelou que esses 15 mil emails foram disponibilizado ao FBI por um grupo conservador legal. Em declaração a reagir a este dado novo, Brian Fallon, porta-voz da campanha de Hillary, apontou: “Como sempre dissemos, Hillary Clinton providenciou ao Departamento de Estado todos os emails relacionados com trabalho em 2014. Não temos a certeza que tenha sido acrescentado material novo ao Departamento de Justiça, mas se o Departamento de Estado determinar que algum desse material é relacionado com questões de trabalho, então obviamente apoiamos que esses documentos sejam também revelados ao público”.
 
Um juiz federal já ordenou revisão urgente dos emails e quer conclusões até 22 de setembro. A campanha de Trump acredita que, em causa, possam estar contribuições de governos e empresas estrangeiras que estão a contribuir para a campanha de Hillary e com quem a então Secretária de Estado possa ter tido ligações.
 

Hillary volta a ter 10 pontos de avanço
 


Apesar destas contrariedades, Hillary continua claramente favorita à eleição de 8 de novembro.
 
Sondagem Quinnipiac, libertada quinta-feira, dá dez pontos de avanço à democrata sobre o republicano (51/41), uma diferença grandes dúvidas sobre quem está à frente da corrida.
 
Numa análise certeira em artigo no «Slate», Jamelle Bouie decreta: “There is no Clinton-Trump horse race” (não há uma verdadeira corrida Clinton-Trump).
 
“Para qualquer pessoa que siga as novidades desta eleição, a corrida Hillary/Trump parece estar a ser uma disputa renhida, uma eleição competitiva. Ambos os candidatos dominam os media, ambos já protagonizaram comícios e eventos políticos de relevo e com muita gente. Ambos estão nos anúncios das rádios e televisões; e ambos estão no terreno a tentar chegar aos diferentes eleitorados (…) Mas claro que não está a ser uma corrida renhida. Hillary Clinton não está apenas a liderar – ela está a dominar. E as hipóteses de vencer estão a ficar cada vez mais fortes, a cada dia que passa”, nota o articulista.