A boa aluna ou o vendedor de ilusões?

A primeira mulher ou o primeiro não-político a mandar na Casa Branca?

A candidata que está há quase quatro décadas a preparar-se para este momento, somando um currículo impressionante e quase imbatível, ou o multimilionário que nunca foi a votos mas se gaba de ter torres e aviões com o seu nome?

Dificilmente se poderia imaginar duelo tão improvável para se definir a sucessão de Barack Obama na Casa Branca -- e seria quase impossível encontrar dois rivais tão diferentes na história pessoal, nas características de liderança e no comportamento público.

Hillary Diane Rodham Clinton ou Donald John Trump, um dos dois será o 45.º Presidente dos Estados Unidos da América.

Hillary é aplicada, rigorosa, profunda e trabalhadora.

Foi sempre das melhores alunas da turma no brilhante percurso escolar e académico que teve. Como senadora, dominava de forma notável os dossiês. Enquanto secretária de Estado, bateu todos os recordes de países visitados e horas de avião somadas por um «US Official» em serviço. E aproveitou ao limite as oportunidades políticas que lhe apareceram para criar uma carreira pessoal, por ter casado com Bill Clinton, o 42.º Presidente dos EUA.

Donald é sanguíneo, demagógico, autoritário e populista.

Gaba-se de ser politicamente incorrecto e não tem qualquer preocupação com a verdade. Muda de opinião sobre pessoas, temas e atitudes – e consegue sobreviver incrivelmente com isso. Utiliza à exaustão o argumento de que se foi capaz de gerar fortuna pessoal pelo sucesso que tem tido nos negócios, poderá conseguir fazer o mesmo com os EUA, uma vez na Casa Branca.

Os trunfos de Hillary são os pecados de Donald. Mas no que Hillary tem falhado (falta de carisma e capacidade mobilizadora), Trump está a mostrar-se assustadoramente eficaz.

Origem, estilo e princípios: um mundo de diferenças

Nascida em Chicago, a 26 de outubro de 1947, Hillary Clinton, que será investida como nomeada presidencial democrata na Convenção que hoje começa em Filadélfia, é formada em Ciência Política, em Wellesley, e em Direito, em Yale.

«Não nasci primeira-dama nem senadora. Não nasci democrata. Não nasci advogada nem defensora dos direitos das mulheres e dos direitos humanos. Não nasci esposa nem mãe. Nasci americana no meio do século XX, num tempo e num local afortunados. Fui livre de fazer as minhas escolhas, que não estavam à disposição das gerações anteriores de mulheres no meu próprio país e são inconcebíveis para muitas mulheres do mundo de hoje. Cresci na crista de uma tumultuosa mudança social e participei nas batalhas políticas que se travavam sobre o significado da América e o seu papel no mundo. O meu pai nasceu em Scranton, Pensilvânia, filho do meio de Hugh Rodham Sr. e de Hannah Jones. Do lado da mãe, vinha de uma linha de mineiros galeses do carvão, de cabelo preto. Tal como Hannah, era manhoso e, por vezes, rude, mas quando se ria o sonho vinha lá do fundo e parecia envolver todas as partes do corpo. Herdei o riso dele, a mesma grande gargalhada enrolada que pode fazer virar cabeças num restaurante e afugentar os gatos de uma sala. Fui educada para amar o meu Deus e o meu país, para ajudar os outros, para proteger e defender os ideais democráticos que inspiraram e guiaram pessoas livres durante mais de 200 anos. Esses ideais foram incutidos em mim desde que tenho memória. Em 1959, queria ser professora ou física nuclear. Os professores eram necessários para “formar jovens cidadãos” e sem eles não teríamos um “grande país”. A América precisava de cientistas porque os ”Russos têm cerca de cinco cientistas para cada um dos nossos”. Mesmo nessa altura, eu era totalmente um produto do meu país e dos seus tempos, absorvendo as lições da minha família e as necessidades da América enquanto pensava no meu próprio futuro», escreve Hillary em «A Minha História», livro autobiográfico.

Natural de Nova Iorque, filho do empresário Fred Trump e de Mary Anne MacLeod, Donald Trump, nomeado como candidato presidencial republicana na Convenção de Cleveland da semana passada, tem ascendência alemã, por parte dos avós paternos, e escocesa (a mãe nasceu na Escócia em 1912).

Casado pela terceira vez, a primeira mulher, Ivana, é checa, e a terceira e atual, Melania, é eslovena.

Tantas influências estrangeiras na vida pessoal de Donald não deixam de ser irónicas para o agora candidato republicano que promete «fechar fronteiras», «retirar os EUA da Organização Mundial do Comércio» e «impedir a entrada de refugiados e imigrantes ilegais».

Já foram amigos e são quase da mesma idade

Têm quase a mesma idade (Hillary completa 69 anos a 28 de outubro, Donald completou 70 no passado dia 14 de junho).

E, sim, até já foram amigos (ou, pelo menos, aliados de conveniência).

Donald, hoje o campeão da crítica «aos políticos da elite de Washington», financiou durante vários anos os Clinton, para obter vantagens assumidas nos negócios.

É já célebre a fotografia que junta Donald e Melania com Bill e Hillary, no dia casamento dos Trump, a 22 de janeiro de 2005, em Palm Beach, Florida.

A junção, na altura, não causava grande estranheza: Bill era um ex-presidente que sempre contou com o financiamento de Donald Trump, Hillary era senadora por Nova Iorque, o estado onde Donald sempre manteve mais negócios, e na altura já se falava numa possível candidatura presidencial da ex-Primeira Dama.

Em 2007, numa altura em que se perspetivava um duelo «nova-iorquino» nas presidenciais de 2008 entre Hillary Clinton e Rudy Giuliani (antecipação precipitada, claro, porque meses o duelo seria entre Barack Obama e John McCain), Donald Trump até dizia preferir Hillary a Rudy, em entrevistas televisivas que deu.

O tanto que mudou no cenário político americano desde aí chega a ser difícil de perceber na sua total dimensão.

Mas há que puxar o filme um pouco atrás para se compreender como é que Hillary e Donald são, hoje, os rivais improváveis que prometem protagonizar uma das campanhas mais feias e violentas das últimas décadas na política americana.

Uma história difícil de compreender

Os anos Obama levaram a um extremar de posições da Direita americana.

O Partido Republicano, em crise de identidade há uma década (desde o final a pique do segundo mandato presidencial de George W. Bush), começou a ganhar aversão a políticos do «establishment» e mais focados no centro político, e passou a estar cada vez mais vulnerável a aventuras populistas.

O Tea Party, movimento que reivindica o «regresso» do poder ao povo americano, numa crítica acérrima às práticas de Washington, baseando as suas posições numa leitura literal, quase bíblica, da Constituição americana, fletiu a agulha ideológica do Partido Republicano para um extremo, fazendo secar o centro e a moderação.

Se, em 2012, Mitt Romney, o único candidato do «establishment», ainda conseguiu obter a nomeação (embora sem conseguir gerar grande entusiasmo das bases republicanas e depois de umas primárias em que se viu forçado a dizer coisas muito mais radicais do que eram as sua ideias), em 2016 o panorama resvalou para uma situação quase surreal.

Donald Trump, multimilionário com um império na área dos media e do imobiliário, dono da Trump Organization e da Trump Entertainment Resorts, simboliza, para muitos, o sonho americano levado ao paroxismo.

A sua fortuna colossal não lhe garantiu um percurso imaculado nos negócios: já declarou quatro vezes bancarrota desde o início dos anos 90, mas sempre com um plano para regressar ainda mais em grande. América no seu estado mais cru, no melhor e no pior.

Figura do «mainstream» mediático há várias décadas na América, foi, no entanto, sempre associado ao mundo empresarial e, mais recentemente, também do espectáculo televisivo.

Truculento, agressivo, exibicionista, Donald Trump gaba-se de ter uma personalidade dominadora e arrogante.

Dois modos de chegar à nomeação

Durante anos, a ideia de concorrer à presidência era encarada quase como uma piada.

Inconsequente, Donald foi democrata nos anos 90, independente no início do século XXI (até tentou candidatura presidencial pelo Partido Reformista, em 2000) e aproximou-se dos republicanos, na última década.

Em 2012, ainda ensaiou um avanço nas primárias republicanas, surfando a onda dos «birthers» (um conjunto de almas perturbadas que garantiam que Barack Obama não podia ser presidente dos EUA porque teria nascido… no Quénia).

Depois de mais de um ano a aguentar um punhado de aleivosias lançadas em público, Obama entendeu que já chegava e mandou libertar o certificado de nascimento do Hospital de Honolulu, no Hawai, onde obviamente nasceu a 4 de agosto de 1961.

Sem conseguir grande «buzz» nos media ou nas sondagens, Trump acabou por nem aparecer nos primeiros estados das primárias republicanas de 2012.

Apenas quatro anos depois, o mesmo Trump arrasou toda a concorrência e ganhou claramente a nomeação republicana.

Bem diferente foi a via de Hillary até à nomeação democrata de 2016.

Republicana até aos primeiros anos da idade adulta, influenciada pelo pai e por ter conhecido o Presidente Nixon na Casa Branca num prémio que venceu por ser das melhores alunas do país, Hillary chegou a ser líder dos jovens republicanos de Wellesley e trabalhou para a campanha de Barry Goldwater, candidato presidencial republicano de 1964, que viria a perder para Lyndon Johnson.

Mas o movimento dos Direitos Cívicos, muito mais ligado aos democratas, e o ano conturbado de 1968 (assassinatos de Martin Luther King e de Robert Kennedy, presença americana na Guerra do Vietname), foram decisivos para a viragem ideológica de Hillary.

Democrata a partir daí, foi solidificando posição ligadas aos direitos das crianças e das mulheres. O casamento com Bill Clinton tornou-a não só uma advogada democrata de dimensão regional como uma eventual estrela política no plano nacional.

Como mulher do mais jovem governador de estado da América, como responsável pela reforma da saúde nos anos 90 durante a Administração Bill Clinton, como senadora por Nova Iorque ou como secretária de Estado, Hillary Clinton é, há 40 anos, uma política com credenciais alargadas e constantemente postas à prova.

Se as eleições de 8 de novembro fossem um teste ao currículo e ao conhecimento político e técnico dos candidatos, Hillary já teria ganho.

Mas a escolha de um Presidente dos EUA tem muito mais de emocional do que racional.

E só daqui a 106 DIAS é que ficaremos a saber quem vai mesmo suceder a Barack Hussein Obama no cargo político mais poderoso do mundo. Ainda.

*jornalista, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição»