Cem milhões de pessoas terão visto o debate entre os dois candidatos à presidência dos Estados Unidos. A escolha está marcada para o dia 8 de novembro.

Na corrida para o sucessor de Obama, a ex-secretária de Estado Democrata, Hillary Clinton, e o multimilionário candidato Republicano, Donald Trump, estão taco a taco nas sondagens.

O debate da noite de segunda-feira poderá ter sido ganho por Clinton, a avaliar pela maioria dos estudos de opinião. Ainda assim, foi apenas um primeiro round de um combate que promete. Até a avaliar pelos golpes baixos e esquivas que já foram vistos de parte a parte.

Verdades, “disse que disse” e “não disse”, mentiras e imprecisões foram mais que muitas e são agora trazidas à tona pela comunicação social internacional. Aqui ficam alguns exemplos.

Trump: “O meu pai fez-me um pequeno empréstimo em 1975”

Rico pai e rico filho. O milionário afirmou alto e bom som que começou a sua vida nos negócios com um pequeno empréstimo do pai.

De facto, empréstimo, houve. Até mais do que um. Agora, chamar-lhe “pequeno”, enfim… Porque Trump nunca foi propriamente um “Zé Ninguém” ou um “pé rapado”.

De acordo com o jornal britânico The Guardian, o pai emprestou-lhe um milhão de dólares. Foi em 1978. Pela valorização, equivaleria hoje a 3,7 milhões. Ou seja, 3,3 milhões de euros, o que não se pode considerar assim tão pouco para começar.

Depois, o pai do milionário deu-lhe mais umas ajudinhas. Em 1981 descoseu-se com 7,5 milhões de dólares e, anos depois, gastou 3,5 milhões em fichas de jogo de um casino do filho que fora à falência.

Hillary Clinton acusou ainda o candidato Republicano de ter conseguido um empréstimo de 14 milhões de dólares no início da sua carreira. Pelos vistos, é verdade e dá para adivinhar quem terá sido o fiador.

Trump: “Afro-americanos e hispânicos vivem no inferno. Quase 4 mil pessoas foram mortas em Chicago, desde que Obama é presidente”

Regularmente, o candidato compara a cidade onde Obama se lançou na política com o Afeganistão. Sobretudo, no número de vítimas por causa das armas.

Trata-se seguramente de um exagero. Em 2015, houve na cidade 488 homicídios e este ano, segundo o jornal Chicago Tribune, a contagem vai na ordem dos 500, com 2100 pessoas a serem vítimas de violência armada.

Ora, no Afeganistão, de janeiro a junho deste ano, já morreram 1601 civis e mais de 3500 ficaram feridos. A comparação de Trump é, no mínimo, exagerada.

Trump: “O ‘pára e revista’ funcionou muito bem em Nova Iorque e baixou a taxa de crime”

O Republicano levou para o debate a questão das armas e a prática que a polícia de Nova Iorque teve em tempos de mandar parar qualquer um que lhe parecesse suspeito e revistá-lo, para verificar se não transportava consigo qualquer objeto ilícito.

Trump disse que a medida tinha sido abandonada porque um juiz não gostava dela e não por ter sido considerada inconstitucional. De facto, foi-o. E Trump não falou a verdade.

Quanto à criminalidade em Nova Iorque, Trump assegurou que subiu desde que a polícia deixou o “stop and frisk”. Também é falso. Os números mostram que a taxa criminal na cidade tem vindo a baixar gradualmente desde 1994 e está hoje em mínimos históricos.

Clinton afirma que os afro-americanos têm mais probabilidade de serem mortos por armas na sociedade norte-americana

A leitura da CNN dá-lhe razão. Estatísticas mostram que os negros são os maiores alvos da violência armada, o que inclui casos envolvendo a polícia.

Os números dão-lhe também razão, quando diz que o crime baixou desde 1990, mas esconde outra verdade: em 2015, o número de assassínios aumentou 10,8% nos Estados Unidos.

Clinton: Trump tem “louvado Vladimir Putin”. Trump: "É falso”

Trump tem considerado o presidente russo como um “líder forte”. A 18 de Dezembro, no canal MSNBC salientou mesmo que Putin “governa o seu país e, no mínimo, é um líder, ao contrário do que temos no nosso país”.

Entretanto, em março, é verdade que corrigiu o tiro: “Forte não significa bom. É um líder forte, mas não digo se o é no bom ou mau sentido. Digo que é um facto”.

Clinton: “Pessoas que analisam os nossos planos económicos, concluem que o meu vai criar 10 milhões de empregos e o seu [de Trump] vai fazer-nos perder 3,5 milhões"

De acordo com a CNN, Hillary refere-se a uma análise de Mark Zandi da Moody's Analytics. E foi enganadora, porque o relatório refere que a própria economia irá criar 7,2 milhões de postos de trabalho, mesmo que Clinton nada faça. Portanto, os seus planos só trarão um acrescento de 3 milhões de empregos.

Depois, as comparações de Hillary são abusivas. Porque os planos apresentados têm períodos temporais distintos.

A China e a Miss Universo

Além das trocas de acusações sobre a política externa dos Estados Unidos e sobre a intervenção no Afeganistão, Iraque e Líbia – que Trump apoiou, para mais tarde dizer que não – o debate teve também momentos de maior ligeireza. Em torno de duas questões que o candidato republicano quis negar a todo o custo. Mas sem o conseguir.

Clinton: “Donald Trump diz que as mudanças climáticas são um engano criado pelos chineses”. Trump: “Eu não disse isso”

Pois, em boa verdade, o milionário republicano, no seu estilo sempre desabrido, teve mesmo uma tirada do género. Uma daquelas “pérolas” que a comunicação social veio agora desenterrar. Em 2012, Trump defendeu que “o conceito de aquecimento global foi criado pelos chineses para conseguir que a manufatura norte-americana seja menos competitiva”.

Trump: “Miss Piggy e Miss Dona de Casa? Onde é que encontrou isso?

Comentários depreciativos de Trump acerca das mulheres. Hillary levou a questão para o debate e acusou o milionário de ter chamado Miss Piggy e Miss Dona de Casa à venezuelana  Alicia Machado, a Miss Universo de 1996.

Ela tornou-se uma cidadã dos Estados Unidos e pode crer que ela vai votar em novembro”, atirou Clinton.

Trump garante que nunca o disse, mas a Miss Alicia Machado já o desmentiu. E mostrou também em quem vai votar.