Hillary Rodham Clinton, nascida a 26 de outubro de 1947, faz hoje 70 anos, em Park Ridge, Illinois, Primeira Dama entre 1993 e 2001, senadora por Nova Iorque entre 2001 e 2009, candidata às primárias democratas de 2008, e segunda candidata mais votada de sempre numa eleição presidencial nos EUA, em 2016, tinha tudo para festejar esta quinta, 26 de outubro de 2017, o seu 70.º aniversário com o estatuto histórico de primeira mulher Presidente dos Estados Unidos.

Mas não será assim.

Muito bem preparada nos temas e com um currículo político e profissional quase desenhado a régua e esquadro para a função presidencial, Hillary falhou, por duas vezes, quando parecia ter tudo para vir a ser a primeira mulher a chefiar a maior potência do mundo.

O que lhe sobrou em experiência faltou-lhe em habilidade política. O que lhe escasseou de carisma teve, de sobra, em conhecimento e foco.

Não se pode dizer que tenha feito uma campanha falhada em 2016.

Chegou a ter a nomeação em risco, perante a força inusitada do “feel the Bern” e nos momentos decisivos não vacilou: segurou os apoios dos superdelegados (um quinto do universo eleitoral democrata), foi muito forte nos debates das primárias e ganhou com vantagens confortáveis onde tinha que ganhar (Califórnia e no resto do sul, sobretudo).

Frente a Trump, foi muito melhor e mais preparada nos três debates televisivos – o eleitorado percebeu isso e deu-lhe, nessas três ocasiões, folgadas vitórias que lhe permitiram descolar nas sondagens.

Mas não terá avaliado corretamente o risco que a estranha campanha de Donald representava e isso, numa corrida tão longa e multifatorial, foi fatal.

Focou-se em demasia no mantra de “Trump é um candidato com conduta censurável e propostas inaceitáveis”, pensando que tais avisos chegariam para anular as hipóteses reais do nomeado republicano ser eleito.

Não chegaram.

Mesmo assim, foi, de longe, a candidata mais votada na eleição presidencial de 8 de novembro de 2016: mereceu a confiança de 65.853.516 eleitores norte-americanos, quase mais três milhões de sufrágios que Donald J. Trump, que recolheu 62.984.825 (só Barack Obama, com 70 milhões de votos em 2008 e 66 milhões em 2012, teve a preferência de mais americanos numa eleição do que Hillary obteve em 2016).

Mas as especificidades estaduais do sistema eleitoral que elege o cargo político mais influente do mundo puseram o multimilionário nova-iorquino na Casa Branca, terminando, de vez, com o sonho presidencial da a partir de hoje septuagenária.

 

Uma história inesperadamente infeliz

 

É daquelas histórias que pareciam destinadas a ter um final feliz mas, inesperadamente e já quase no seu termo, sofrem um percalço inesperado e comprometedor.

Não foi, sequer, a primeira vez.

Em 2008, o caminho presidencial de Hillary também parecera, no início, talhado a chegar à meta com facilidade relativa.

O ciclo eleitoral tendia para os democratas, depois de oito anos de George W. Bush e o atoleiro do Iraque, e o arranque da escolha do Partido Democrata mostrava a então senadora por Nova Iorque com 30 pontos de avanço sobre um jovem e quase desconhecido senador negro do Illinois (Barack Obama) e um também jovem e bem-parecido senador sulista, que fora candidato a vice no ticket de John Kerry, quatro anos antes (John Edwards).

Mas o ‘caucus’ do Iowa, no agora já tão longínquo janeiro de 2008 (já passou quase uma década, como é possível?), prenunciara a enorme surpresa que estaria para vir: a superfavorita do sistema e das primeiras sondagens – Primeira Dama com pasta equiparável a ministerial na Saúde nos primeiros dois anos de administração do marido Bill, nos anos 90 – ficava-se por um frustrante terceiro lugar, com 29%, pouco atrás de Edwards, que arrecadaria 30%, e bem atrás do grande vencedor, Barack Obama, com 38%.

A vitória da senadora Clinton no New Hampshire (por dois pontos, 39%/37%) serviria apenas para dar um falso sinal positivo a Hillary: o jovem senador Obama estava mais forte, era ele que agarrara a mensagem de “hope and change” que os americanos estava desejos de ouvir.

E mesmo quando não vencia, Barack ficava perto de Hillary nas votações e somava delegados suficientes para manter a vantagem.

A 4 de novembro de 2008, os americanos cumpriam, uma vez mais, uma espécie de destino comum: fazia História, dando frutos a um movimento extraordinário, talvez a maior e mais bem preparada campanha política das democracias modernas, e elegiam Barack Hussein Obama como Presidente dos EUA.

O primeiro negro e primeiro filho de muçulmano a atingir a Casa Branca.

Hillary parecia ter perdido em definitivo o comboio da História.

Partira como vencedora antecipada, terminava como derrotada inesperada, remetida a apoiar partidariamente aquele eu lhe retirara a coroação.

Mas, na política americana, nem sempre o que parece é.

O comportamento exemplar que Hillary teve com Obama na hora da concessão da nomeação democrata – mesmo tendo tido mais votos que Barack no total dos estados das primárias, apoiou-o sem rodeios nem hesitações – teve como prémio o convite para chefiar a diplomacia americana.

Primeiro hesitou, chegou a recusar duas vezes (“sou muito feliz como senadora”), mas acabou por aceitar, perante a insistência de Barack (“Quando o Presidente dos Estados Unidos nos convoca, devemos dizer ‘sim’”).

Seria a terceira mulher a liderar o Departamento de Estado (depois de Madeleine Albright e Condoleeza Rice).

Fê-lo só por um mandato, dando seguimento ao acordo que terá feito com Obama em dezembro de 2008.

Seria articulada e fiel à Presidência Obama durante quatro anos, ganharia experiência e currículo como Secretária de Estado e ficaria livre, depois de janeiro de 2013, para preparar o caminho para uma segunda tentativa de chegar à Casa Branca -- e, desta vez, com uma garantia importante, a de contar com o apoio expresso do antigo rival e agora aliado (e, de acordo com vários sinais e fontes), também amigo, Barack Obama.

Tudo isto se confirmou.

 

A segunda e mais dramática tentativa

 

Hillary avançaria com a segunda candidatura presidencial em abril de 2015, 19 meses antes do fatídico dia em que viria a levar o maior choque de uma carreira política de quase quatro décadas.

Ter mais três milhões de votos e não ser eleito é, só por si, um contrassenso difícil de engolir. Que isso tenha acontecido perante um candidato desconcertante e disruptivo como Donald Trump, ainda mais. E que tal tenha sucedido depois de semanas de aparente inevitabilidade de uma eleição Hillary, muito mais ainda.

Só que a América é mesmo assim – está sempre a surpreender-nos, para o melhor e também para o pior.

Se, durante anos, achámos que os americanos eram ótimos porque elegeram duas vezes alguém com as características pessoais e políticas de Barack Obama, não podemos, de repente, achar os americanos péssimos porque permitiram a eleição de alguém tão mal preparado como Donald Trump.

O que aconteceu, afinal?

A pergunta, obrigatória perante tamanha perplexidade, domina o título do recente livro de Hillary Clinton: “What happened”.

O problema em encontrar explicações para o que sucedeu a 8 de novembro de 2016 é que mesmo uma análise detalhada não nos mostra nada de muito inesperado ou bombástico.

A nomeada presidencial democrata teve mais três milhões de votos que o nomeado presidencial republicano: ora, nas últimas oito eleições presidenciais na América, desde 1992, sete tiveram maioria de votos dos democratas (isso só não aconteceu entre Bush e Kerry, por diferença de 2,5 milhões).

A nomeada presidencial democrata teve 94% do voto das mulheres negras e 68% das mulheres latinas – nenhuma surpresa.

A nomeada presidencial democrata ganhou nas mulheres, nos negros, nos latinos e nos asiáticos. E também nos estratos sociais de classe média, média baixa e baixa. O nomeado presidencial republicano ganhou nos homens, nas classes alta e média alta.

Até aqui, nada de novo.

A democrata ganhou nas costas, o republicano na maioria dos estados do Midwest e do Sul. Também nenhuma surpresa de monta.

Hillary arrasou nos meios urbanos (enormes vantagens nas grandes cidades, mesmo nos estados em que perdeu, como o Texas ou a Pensilvânia), Trump arrecadou uma enorme maioria de condados rurais. Também nada de muito surpreendente: na América dividida” das últimas décadas, os democratas agarraram o eleitorado cosmopolita e diverso, os republicanos fixaram o mundo rural, “country”, “real America”.

E Trump, que fizera campanha numa plataforma de crítica extrema “aos políticos de Washington”, em ataque simultâneo a democratas e republicanos recolhia 46% dos votos, dentro de um universo eleitoral que, na década anterior, dava taxas de rejeição ao desempenho do Congresso na ordem dos 90%.

O que é que ocorreu fora do esperado, então?

Algo mesmo muito inesperado, com uma dimensão estatística reduzida, mas suficiente para baralhar quase todas as previsões: Trump arrecadou maior votação do que o esperado (e Hillary uma votação ligeiramente menor do que o esperado) no segmento das mulheres brancas e em três estados do Midwest: Pensilvânia, Michigan e Wisconsin.

Nos primeiros dois estados, as sondagens apontavam vitórias de Hillary por 2 a 5 pontos. No Wisconsin nem sequer havia sondagens, porque se dava como certa a vitória da democrata, em estado onde até Gore e Kerry (que perderam as respetivas eleições para para George W. Bush) haviam ganho.

A narrativa “Make America Great Again”, ideia forte de Trump, repetida à exaustão pelo bizarro candidato escolhido pelos republicanos, tinha tido adesão maior do que era expectável nesses três estados.

As marcas da crise sentiam-se ainda na Rust Belt (“Cintura da Ferrugem”), outrora pujante e hoje decadente.

Milhares de famílias habitualmente democratas, numa espécie de vingança silenciosa, penalizaram a candidata da elite do partido e foram na onda de um Trump que prometia “o regresso da América liderante” que traria de novo “o carvão, as indústrias pesadas” e devolveria “os velhos postos de trabalho da indústria manufatureira aos trabalhadores americanos”, repelindo a concorrência dos chineses e dos mexicanos.

O populismo, mesmo que sustentado numa ideia de uma América que, na verdade, já não volta, ganhava naqueles três estados – e mesmo que o todo nacional tivesse preferido Hillary, o sistema eleitoral premiava Trump.

 

O último grito da “velha América”

 

A “velha América”, branca, homogénea, preconceituosa e fechada – que nos anos Obama sentira o seu domínio em risco – tinha aqui um último grito, como se fosse possível puxar o relógio do tempo para trás.

A América diversa, cosmopolita, heterogénea, mais predominante nas costas mas também presente em estados como a Virgínia ou o Nevada (que também votaram Hillary), teve aqui um inesperado recuo, depois de enormes avanços nos dois ciclos eleitorais anteriores (em 2012, por exemplo, o peso dos não brancos no total da votação foi decisivo para que Obama derrotasse Romney).

Essa “América boa”, na verdade, deu grande vitória a Hillary – mas não em números suficientes para evitar contrapeso do tal “último grito” da visão anacrónica.

A História não é linear -- é feita de avanços e recuos. Até nisso não se devia ver no que se passou a 8 de novembro de 2016 uma total surpresa.

Não dá, por isso, para explicar só com um fator como foi possível Hillary não ter cumprido o seu sonho.

Na verdade, ela fez quase tudo o que tinha que ser feito para lá chegar e recolheu um montante de votos (quase 66 milhões) que, em qualquer outra eleição, daria facilmente para abrir as portas de acesso à Casa Branca.

Mas a realidade é quase sempre mais complicada do que imaginamos. E as perceções, hoje em dia, valem bem mais que os factos.

Pela segunda vez, Hillary falhava inesperadamente na reta da meta – e pela segunda vez não atingia o objetivo apesar de ter tido mais votos que o adversário.

Pelo meio, houve fatores conjunturais que pesaram: a carta de Jim Comey, então diretor do FBI, ao Congresso, a 28 de outubro (Hillary já disse e escreveu em livro que, sem essa missiva, seria hoje Presidente dos EUA); um erro de avaliação estratégico da campanha Hillary (e, antes de tudo, da candidata, naturalmente) de ir tarde demais tentar perceber o que estava a passar-se no Michigan e no Wisconsin; eventual interferência russa, na multiplicação, através de “bots”, de “fake news” que atiravam falsas, mas poderosas, acusações à reputação de Hillary (sobretudo sobre o que fez como Secretária de Estado e a fantasiosas ligações da Fundação Clinton com grupos que financiaram o Daesh) e ajudavam à construção da narrativa da campanha Trump.

 

E os falhanços, que também os houve

 

Entendamo-nos: uma campanha presidencial na América não é um passeio no parque.

Vale mesmo quase tudo e a teoria da vitimização não merece, sequer, ser explanada.

Trump soube usar as armas eleitoralmente mais eficazes e isso, por muito que possa custar a quem ainda acredita num mínimo de ética e bom senso na política, tem o se mérito estratégico.

O que tem acontecido depois de 20 de janeiro já é outra história.

Uma parte de quem votou em Trump já se apercebeu do logro total em que caiu, embora ainda haja uma base mobilizada, zangada e muito fiel (na ordem dos 33/38 por cento) que continua a acreditar cegamente no que o 45.º Presidente dos EUA propala.

 

As lições que tardam em chegar

 

O ódio ao “mainstream media” e às elites política, mediática e cultural é um combustível poderoso em muitos setores da vida americana – e não só nos extratos menos letrados.

Trump soube dar gás a esse sentimento, mas a sua crónica incapacidade governativa já está a ter efeitos.

Resta saber se os democratas, ainda muito presos ao duplo sentimento de “saudades de Obama” e “choque pela derrota Hillary”, vão ser capazes de reencontrar a tempo a sua rota, de modo a evitar a reeleição de Trump em 2020.

O relógio está a contar – e há cada vez mais americanos a perceberem que Donald Trump não é bem um Presidente dos Estados Unidos.