Quando se deparou com o retrato da filha na televisão, Mohamed Boumeddiene, motorista, ficou chocado: «Aquela é a minha filha», terá apenas balbuciado, segundo contaram vizinhos aos jornalistas do «Daily Mail», em Paris.
 
França viveu na semana passada um ato terrorista sem igual, quando homens armados entraram pela redação do jornal satírico «Charlie Hebdo» e fizeram um banho de sangue, colocando-se em fuga. Já se sabia que os suspeitos eram Amedy Coulibaly e os irmãos Said Kouachi e Cherif Kouachi. Mas, afinal, uma mulher era também procurada pela polícia: Hayat Boumeddiene, 26 anos. O seu retrato foi divulgado pelas autoridades nas redes sociais ainda a caça aos suspeitos decorria.
 
Ao fim de algumas horas na incredulidade por ver a foto da filha e perceber que estava envolvida naquele ato terrorista hediondo, ter-se-á deslocado a um posto policial para prestar declarações e depois enclausurou-se no seu apartamento, não sendo mais visto desde então. «Ele foi rezar à mesquita na sexta-feira e a seguir foi ao posto policial depois de ter visto o retrato da sua filha na televisão», disse um amigo citado pelo jornal.
 
A porta trancada, o coração despedaçado. Os vizinhos ouvem-no lá dentro a chorar e a lamentar-se: «Não sei se ela está viva ou morta». Mohamed Boumeddiene já não veria a filha há algum tempo. Depois de anos afastados, no ano passado ter-se-ão reaproximado e o pai até a foi buscar ao aeroporto quando ela regressou de uma peregrinação a Meca.
 
Mohamed Boumeddiene foi interrogado pelas autoridades, mas não ficou detido. Terá dito que não fazia ideia do que a filha tinha planeado. Da vida dela, aliás, sempre terá sabido pouco. Hayat Boumeddiene, de 26 anos, saiu de casa cedo, depois de a mãe morrer, tendo sido acolhida, com seis anos, bem como aos seus seis irmãos, pelos serviços sociais franceses.




                                                  Retrato divulgado pela polícia francesa
 
Muçulmana de origem argelina, Hayat Boumeddiene é descrita pelos serviços secretos como cúmplice de Amedy Coulibaly e dos irmãos Said Kouachi e Cherif Kouachi. Será perigosa, encontrar-se-á armada e terá treino terrorista, segundo as autoridades francesas. No ano passado, trocou mais de 500 chamadas telefónicas com a mulher de Cherif, Izzana, que foi domingo libertada pelas autoridades depois de vários dias de interrogatório. E haverá indícios de que terá ajudado na obtenção de armas. A uma amiga muito próxima, Hayat terá desabafado que, para ela, «França é um país inútil».
 
Estará agora na Síria, depois de ter escapado de França, primeiro com passagem por Madrid, depois seguindo para a Turquia com vista à Síria, que tem várias zonas tomadas pelos extremistas do Estado Islâmico. Recorde-se que surgiu na internet um vídeo póstumo, onde Coulibaly refere que os ataques que levaram 17 franceses à morte na passada semana servem para vingar os bombardeamentos dos países da coligação, nos quais se inclui a França.
 
O vizinho acredita que o marido é o culpado pelo caminho terrorista de Amedy Coulibaly. «Ela saiu daqui com aquele homem. Ele é que fez tudo e agora vêm ter com ela. Ele era o cabecilha», disse ao jornal, sem querer ser identificado pelo nome por temer represálias.