O octogenário alemão Cornelius Gurlitt, em cuja casa foram encontradas mais de 1400 obras, algumas eventualmente retiradas a judeus durante o regime nazi, decidiu apresentar esta quarta-feira uma queixa contra o confisco da sua coleção.

Há cerca de dois anos, a justiça alemã apreendeu os quadros pertencentes a este filho de um negociador de arte com um passado turbulento durante o regime do III Reich, no âmbito de um processo por fraude fiscal.

De início, e ultrapassado pelos acontecimentos, este idoso solitário que vive num apartamento em Munique rodeado de telas de mestres como Chagall ou Matisse, não reagiu.

Após a descoberta do seu «tesouro», amplamente divulgada pelos media, Cornelius Gurlitt permaneceu na defensiva, até ao início desta semana.

Na segunda-feira, este homem de cabelos brancos, que prefere escrever uma carta a telefonar, colocou em linha, através dos seus advogados e do seu porta-voz, uma página de informação na internet. «Apenas pretendo viver com os meus quadros, em paz e em tranquilidade», escreve na apresentação do portal que pretende divulgar os seus argumentos.

«Na Alemanha existem muitas coleções públicas e privadas, nas quais a proporção de arte suscetível de ter sido roubada pelos nazis é muito mais elevada que na coleção Gurlitt. Ora, para estes colecionadores e para os diretores dos museus em causa, não existem de momento sanções», afirmou um dos seus defensores, Hannes Hartung, ao anunciar o novo sítio na rede.

O caso Gurlitt relançou o debate sobre a restituição de obras retiradas aos judeus durante o III Reich, apesar de a Alemanha ter assinado em dezembro de 1998 a «declaração de Washington» pela qual 44 estados se comprometeram a detetar e restituir as obras de artes que foram apropriadas pelo regime nazi.

Berlim já prometeu novas medidas e na sexta-feira o estado regional da Baviera apresentou na câmara alta do parlamento alemão um projeto-lei destinado a facilitar as restituições.

De acordo com a AFP, e na sequência das últimas investigações de um grupo de peritos encarregue de detetar a origem da coleção Gurlitt, não está excluída a hipótese de as 458 obras terem sido roubadas ou retiradas a judeus.

Perto de 380 outras obras de arte foram confiscadas de museus alemães na década de 1930 por serem incluídas na categoria de «arte degenerada», como eram então designadas pelos nazis.