A crise política, com o Presidente da República da Guiné-Bissau a demitir o Governo, não afetou a tranquilidade da madrugada no centro da capital, constatou a agência Lusa, nesta quinta-feira.

Em plena época das chuvas, as principais ruas que ligam à zona do Palácio da Presidência e à Praça dos Heróis Nacionais, logo em frente, estão desertas e sem trânsito.

Nalguns dias da última semana, diversas manifestações pacíficas têm juntado a população naquela praça (onde fica também a sede do PAIGC) para pedir estabilidade política para o país.

Através de um decreto presidencial lido às 23:10 de quarta-feira (00:10 em Lisboa) na Rádio Difusão Nacional, José Mário Vaz demitiu o Governo de Domingos Simões Pereira.

A decisão foi divulgada pela rádio pública da Guiné-Bissau duas horas e meia depois de o chefe de Estado ter feito um discurso à nação, no qual referiu que uma remodelação governamental não chegava para resolver a crise política no país.

Segundo o constitucionalista guineense Carlos Vamaim, citado pela Lusa, a lei não impõe prazos para ultrapassar a destituição de um Governo, sendo que o PAIGC e o Presidente José Mário Vaz anunciaram posições de confronto antes da demissão do Governo.

Os prazos "estão ao critério das instituições", mas "o normal é agir o mais rapidamente possível, para que não haja uma paralisação na administração pública", referiu.

Segundo Vamaim, "o Presidente terá forçosamente de pedir ao partido vencedor das eleições [realizadas em 2014] para indigitar outra figura que possa ocupar o cargo de primeiro-ministro", explicou, baseado na Constituição.

Quem já se manifestou publicamente contra esta decisão foi José Ramos Horta, ex-Presidente da República timorense, defendendo inclusive que Timor-Leste deve congelar de imediato a cooperação com a Guiné-Bissau.

"A decisão não me surpreendeu mas não deixo de ficar consternado perante a total incapacidade da liderança guineense de superar as diferenças políticas e sociais, fazendo o país recuar de novo, face aos progressos registados nos últimos 12 meses", disse à Lusa em Díli.

Também o ex-primeiro-ministro timorense Mari Alkatiri considerou que a decisão do Presidente da República da Guiné-Bissau em demitir o Governo só descredibiliza o país num momento em que ainda estava a procurar recuperar essa credibilidade.

"Qualquer estadista, num momento de desenvolvimento, de criação do Estado, deve saber sempre encontrar soluções por via do diálogo", afirmou em declarações à Lusa.