
Há quem lhe chame um «referendo ao euro». As eleições deste domingo na Grécia são a segunda tentativa em apenas seis semanas de formar um governo com uma maioria que permita aguentar o peso de um país em recessão durante cinco anos consecutivos.
A mensagem que vem de fora é esta: ou o euro, ou o caos. De um lado a Nova Democracia (ND), que se dispõe a renegociar as condições do resgate para aliviar a vida do povo; do outro o Syriza, que promete rasgar o acordo com a troika para afastar de vez a austeridade. Nenhum dos dois quer abandonar a Europa e a moeda única, mas há um que ainda não soube explicar como.
Os gregos manifestaram-se nas ruas e usaram o voto de protesto a 6 de maio para assustar os partidos habituados a governar. Mas 80% da população quer ficar no euro e, perante a pressão dos credores internacionais, o medo pode ser mais forte. «Não acredito em Samaras, mas não há outra opção para o país. É a única maneira de nos mantermos na Europa. Tsipras parece que nos quer arruinar», afirmou à Reuters Nektarios Yiavasoglu, dentista em Atenas, que votará na ND.
Certo é que quase ninguém acredita que as eleições resolvam a crise política, e muito menos a crise económica, financeira e social. Mesmo que a ND vença e consiga formar governo com o Pasok e outros partidos pró-troika, o sucesso pode ser temporário. «Estamos a falar de adiar o inevitável por um curto período de tempo. Não durará mais do que alguns meses», explicou o analista político John Loulis.
Fontes da ND adiantam que Antonis Samaras espera reunir todos os partidos pró-troika após vencer no domingo. «Queremos que o resgate mude, mas queremos manter-nos no euro. O debate é sobre o dracma ou o euro, a catástrofe ou o crescimento», disse um assessor do partido.
Mas os eleitores são imprevisíveis, até porque as sondagens são proibidas durante a campanha, e o cansaço da austeridade pode levar ao voto na Esquerda Radical. No entanto, se o Syriza vencer, terá o problema de conseguir convencer outros partidos a juntarem-se numa coligação, sem ceder aos seus princípios fundamentais. O Partido Comunista Grego (KKE) não é sequer opção, porque exige a saída do euro e da UE. À primeira, Tsipras quis falar com todos os anti-troika, menos os neonazis da Aurora Dourada, mas não será fácil encontrar pontos comuns com os Gregos Independentes de direita e mesmo com os moderados da Esquerda Democrática.
Há quem acredite ainda que as eleições podem piorar o cenário. Sem nenhuma maioria, com pouca predisposição para coligações e com os protagonistas com dificuldades em ceder, a solução mais democrática parece ser novamente a repetição do escrutínio, mas o governo de transição tecnocrata já avisou que os cofres da Grécia ficam vazios no próximo mês.
Os credores internacionais estão cansados de esperar e alertam que, se os gregos não cumprirem o que assinaram, não serão enviadas mais tranches do empréstimo de 130 mil milhões de euros. «O memorando é suficientemente flexível para se adaptar às circunstâncias do momento, sendo que é revisto a cada três meses durante as missões da troika. A sua rescisão unilateral levaria à anulação do acordo e a Grécia deixaria de receber a ajuda financeira acordada», apontou o porta-voz da Comissão Europeia em Atenas, citado pelo «El País».
Alguns analistas viram o resgate à banca espanhola do passado fim de semana como uma tentativa de conter as consequências financeiras das eleições gregas, uma vez que, seja qual for o resultado, a instabilidade dos mercados se irá manter. Fontes comunitárias falam mesmo num plano de contingência para a eventual saída da Grécia da zona euro.
Este domingo, portanto, não estarão em jogo apenas os 300 lugares do parlamento grego, mas também o futuro do país onde um dia se inventou a democracia.