A mão pesada com que o Governo da Turquia tem reagido à tentativa de golpe de Estado está a ser acompanhada com preocupação pela comunidade internacional. Mais de 60.000 pessoas foram detidas ou suspensas de funções em áreas tão distintas como a educação, os media ou a justiça. Casos de tortura, espancamentos e violações de vários detidos foram denunciados pela Amnistia Internacional. Agora, surgem relatos segundo os quais 62 crianças, com idades entre os 14 e os 17 anos, terão sido detidas e acusadas de traição.

A história foi divulgada pelo jornal britânico “The Telegraph”, que cita a mãe de um dos rapazes detidos. As crianças estudavam na mais antiga escola militar de Istambul, a escola militar de Kuleli. Na sexta-feira em que os militares levaram a cabo o golpe de Estado que acabaria por falhar, terão sido forçadas a vestir uniformes e a usar armas vazias.

“Mãe, estão a acontecer coisas más. Tiraram-nos os telemóveis. Obrigaram-nos a vestir uniformes e deram-nos armas vazias. Disseram-nos que tínhamos de guardar a escola.”

Eram quatro da manhã quando esta mãe recebeu um telefonema do filho, de apenas 15 anos, a dar-lhe conta do que se passava na escola. Os militares superiores tinham abandonado o estabelecimento e, nas ruas de Istambul, o caos tomava conta da cidade.

Poucas horas depois, quando as forças de Recep Tayyp Erdogan começaram a controlar os movimentos dos golpistas, o filho acabou detido. Ele e os colegas. Desde então, estas 62 crianças, com idades entre os 14 e os 17 anos, permanecem detidas. São acusadas de traição contra o Estado e não podem estabelecer qualquer contacto com os pais.

“O meu filho nunca tinha pegado numa arma. Foram usados, obrigados a fazer isto”, garantiu a progenitora, enquanto aguardava por notícias, à entrada da prisão de Maltepe, em Istambul.

Outros progenitores contaram que os filhos foram aliciados nessa sexta-feira a não faltarem à escola pois iriam conhecer futebolistas famosos. 

Depois da tentativa de golpe, a Turquia decretou o estado de emergência durante três meses e tem reunido esforços para efetuar uma limpeza em vários setores da sociedade, afastando opositores do regime.

A reação dura do Governo de Ancara à tentativa de golpe de Estado tem estado no topo da agenda internacional. E depois de o presidente turco ter aberto a porta à reintrodução da pena de morte, abolida em 2014, responsáveis da União Europeia, como Jean-Claude Juncker ou Federica Mogherini alertaram que um país com pena de morte não tem condições para fazer parte do projeto de integração europeia.

Erdogan, no entanto, parece indiferente aos avisos emitidos para lá das fronteiras turcas. O ministro da Justiça, Bekir Bozdaq, já fez saber, inclusivamente, que a reintrodução da pena de morte é uma questão nacional e que não será debatida tendo em conta as considerações europeias, mas antes os interesses da nação.