Ainda é possível esperar uma réstia de bom senso em Washington DC?
 
A avaliar pelos últimos anos, seria natural duvidar. Mas parece que a esperança ainda não morreu por completo em vermos algum tipo de normalidade na capital política norte-americana.
 
Um ano e dois meses depois dos serviços federais norte-americanos terem paralisado em dois terços durante duas semanas, devido à falta de acordo no Capitólio sobre orçamento, os Estados Unidos ficaram a poucas horas de voltarem a cair na mesma «armadilha» processual.
 
A derrota assombrosa dos democratas e, por tabela, também do Presidente Obama nas intercalares de há um mês e uma semana fazia aumentar os receios: será que os republicanos iriam ter a tentação de encostar de novo o Presidente à parede?
 
Os últimos dias foram de nervosismo de parte a parte: a Casa Branca fez de tudo para que o maior número de congressistas republicanos aceitasse um acordo sobre a despesa; a maioria de John Boehner na House of Representatives sabia também que um novo «shutdown» poderia encurtar o «estado de graça» da bancada republicana, depois da grande vitória nas intercalares.
 
Ou seja: ninguém com responsabilidades no sistema político americano (Presidente, líderes dos dois partidos no Congresso) desejavam verdadeiramente uma nova paralisação, um novo «shutdown».
 
O acordo alcançado, e que passou à tangente (219 votos a favor, 206 contra), passou poucas horas antes do «deadline», e depois de muitos contatos e algumas cedências entre Boehner e Nancy Pelosi, a líder da minoria democrata no Congresso.
 
A proposta aprovada prevê uma despesa de 1,1 biliões de dólares, que servirá de financiamento para o próximo ano fiscal.

O acordo não foi fácil: decorreu em ambiente político pós-intercalares, com os republicanos a reclamarem legitimidade total para fazerem valer as suas posições anti-despesa e anti-impostos, sendo que os democratas recordavam que o Presidente tem uma agenda fiscal legitimada pelos americanos na reeleição. 

Obama e e Boehner respiraram de alívio (as consequências de um «shutdown» seriam bem piores que as cedências que tiveram que fazer), mas não se livram de críticas por parte das bases mais acirradas dos seus respetivos partidos. 

A ala esquerda dos democratas vê como «pouco estimulante» o acordo alcançado. Parte dos conservadores acusa Boehner de não ter capitalizado suficientemente a vitória dos republicanos no passado dia 4 de novembro: «John Boehner desiludiu os conservadores, não devia ser speaker. Ele até quis mostrar-se duro quando dois dias depois das midterms se mostrou contra a amnistia dos imigrantes, mas tem alinhado no essencial com o Presidente, com Harry Reid, com Steny Hoier, com Joe Biden», acusou Sean Hannity, «pundit» da direita, na FoxNews.

Mas nem tudo foram sinais de responsabilidades entre os principais líderes em Washington DC, nos últimos dias.

Josh Earnest, porta-voz da Casa Branca, acusou os republicanos de «estarem a fazer tudo para inutilizar as ações executivas unilaterais» que o Presidente anunciou há semanas para avançar com a sua agenda na Imigração. 

Reconhecimento da própria equipa de Obama de que o Presidente está a ser incapaz de cumprir o que prometeu? Aaron Miller, no Washington Post, coloca o problema em perspetiva histórica: «Todos os Presidentes dececionam. A deceção é inerente ao cargo, dadas as expetativas irrazoáveis que os norte-americanos têm em relação aos seus Presidentes e dada a contradição entre fazer campanha (prometendo às pessoas tudo quanto estas podem ter) e governar (explicando às pessoas porque não vão ter o que foi prometido). Portanto, Barack Obama não é o primeiro Presidente que não corresponde às expetativas - e não será o último».
 
Germano Almeida é jornalista do Maisfutebol, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição» e do blogue «Casa Branca»