Faltam pouco mais de dois anos para que Barack Obama deixe a Casa Branca.
 
A 20 de janeiro de 2017, tomará posse o 45.º Presidente dos Estados Unidos da América (que até pode ser a primeira mulher, caso vença Hillary Clinton).
 
Se a isto acrescentarmos que 2016 será o ano da eleição presidencial que definirá o sucessor de Obama (a partir de janeiro, época de primárias, depois do verão campanha para a eleição geral, que acontecerá em novembro), então concluímos que 2015 é mesmo o último ano em que Barack Obama pode considerar-se como dono e senhor das atenções na política presidencial.

Obama inicia o seu sétimo ano de presidência com riscos e oportunidades.
 
O principal risco é, por definição, os problemas que o campo republicano, agora reforçado com o poder nas duas câmaras do Congresso, lhe deverá infligir.
 
O «roteiro» que os republicanos já anunciaram para destruir o acordo histórico Obama/Castro, de desanuviamento e aproximação a Cuba, não deixa grande margem para dúvidas quanto a isso.
 
O controlo do Senado dá aos republicanos uma muito maior capacidade de influenciar a política externa, com poderes decisivos na área do financiamento e da aprovação de nomeações políticas.
 
Mas o Presidente, nos últimos meses, já sinalizou como pretende contornar esse problema: as ações executivas unilaterais sobre Imigração e aplicação do acordo com Cuba (hoje mesmo, dia 16 de janeiro, entraram em vigor medidas que permitem viagens de americanos a Cuba e apontam para o alívio do embargo).
 
E há outros riscos, claro: a coligação internacional que Obama se dispôs a liderar, desde setembro, para travar e destruir o Estado Islâmico não tem ainda os efeitos desejados e, em áreas da Síria, há mesmo indicações que apontam para que o «Daesh» está a ganhar terreno.

Noutro plano de conflito, o recente ataque informático do ISIS ao «twitter» e «youtube» do Centcom (US Central Command, principal estrutura do exército americano), anunciando a instauração de um «cibercalifado», durou meia-hora e foi mais simbólico que outra coisa (os americanos apressaram-se a fazer um comunicado garantindo o sistema central de informação não foi atingido e que os terroristas islâmicos não tiveram acesso a qualquer documento que pusesse em causa a segurança nacional), mas ficou o aviso.
 
Guerra longa, perigosa, mas necessária. E o facto dos EUA a liderarem claramente deu mostras de que a tal visão de «retraimento» que Obama parecia ter para a posição americana no Mundo tem balizas e deve ser tomada em perspetiva.
 
O mesmo sucede com a ameaça russa. Obama prometeu travar o avanço de Putin sobre a Ucrânia e nas zonas de jurisdição da NATO através de sanções – e elas já se sentem de forma clara no estado débil da economia de Moscovo.
 
Ao mesmo tempo, os EUA aceleram o crescimento económico: entre julho e setembro de 2014, 5%, o maior dos últimos 11 anos; para 2015 está previsto crescimento anual de 3%, o maior da última década.

Dezembro de 2014 permitiu a criação de mais 252 mil postos de trabalho, confirmando um ano com um total de três milhões de novos empregos na América.
 
Depois de anos de narrativa de «declínio» económico, aí estão, outra vez, os EUA a liderarem a recuperação económica internacional, no preciso momento em que China, Brasil e Rússia (esses mesmo, os BRIC, tão saudados até há poucos anos) dão preocupantes sinais de recuo no crescimento (no caso brasileiro, podemos até falar de estagnação). 

Independência energética e alterações climáticas

Noutras frentes, dois pontos importantes na agenda política da reeleição de Obama terão em 2015 um ano decisivo para a sua consumação. No caso da independência energética, multiplicam-se os sinais de que os EUA são, cada vez, menos dependentes do petróleo estrangeiro, explorando o gás de xisto e apostando nas renováveis.

Mais complexa é a questão das alterações climáticas, só enderaçável num quadro de acordo ambiental alargado com outros países. Os últimos meses de 2014 mostraram avanços, com o acordo com a China, mas o Presidente Obama está agora a ter nova frente de batalha neste tema, com um ambioso plano da Casa Branca no sentido de cortar entre 40 a 45 por cento da emissão de gás metano na próxima década.

O acordo com a Europa

Certamente ainda não para assinar em 2015, mas com a negociação a poder avançar nos próximos 12 meses, está o TTip, a parceria transtlântica de comércio e investimento.

Anunciada como ideia forte de Barack Obama no discurso do Estado da União em fevereiro de 2013, tem tido um longo e complexo processo de negociação entre EUA e Europa, no sentido de se chegar, até ao final do segundo mandato do 44.º Presidente da América, a um grande acordo que estabeleça o maior espaço de comércio livre do mundo.

Não é um caminho fácil, tendo em conta diferenças grandes de visões, hábitos e procedimentos de segurança, trabalho e garantias, entre EUA e estados europeus.

Mas não deixaria de ser curioso que, depois de anos a ouvirmos que Obama estava a ser o Presidente a fazer «shift» para a Ásia-Pacífico, perante o objetivo de conter a ascensão da China, Barack terminasse o seu segundo mandato assinando um grande acordo com a Europa.

Germano Almeida é jornalista do Maisfutebol, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição» e do blogue «Casa Branca»