Donald Trump a suavizar o discurso sobre Imigração? Será possível?

Analisemos o que disse a Andersoon Cooper, na entrevista concedida à CNN no passado dia 25 de agosto:

Vamos fazer um discurso daqui a uns dias sobre a Imigração em que iremos detalhar o meu plano  sobre o tema. Mas, em traços gerais, é isto: vamos construir um grande muro. O muro vai ser pago pelo México. Não vão conseguir cavar túneis, porque teremos tecnologia de ponta a prevenir túneis. Vai ser um grande muro, seguro. As drogas vão parar de entrar nos nossos estados, vão deixar de envenenar os nossos jovens e outras pessoas. Vai haver todo o tipo de verificação, as pessoas não vão conseguir entrar nos EUA de forma ilegal. Agora, é uma piada, as grades têm altura muito baixa. Vamos construir um grande muro e muito seguro. No meu primeiro dia como presidente, vou notificar as forças de fronteira a mandar embora os tipos maus. Todos sabemos quem são. A polícia sabe quem eles são. Eles são só problemas, não são mais do que isso. Vamos acabar com as cidades-santuário.  O primeiro documento que vou assinar na Sala Oval vai dizer ‘expulsem os tipos maus deste país’.”

Analisando com atenção estas declarações de Trump, percebemos que, afinal, a anunciada ‘suavização’ do discurso de Trump sobre Imigração talvez seja um pouco exagerada.

Continua a ideia bizarra do grande muro… a pagar pelo México. Continuam as soluções simplistas do estilo ‘vou acabar com as drogas a entrar na América’. Continua a pose de durão populista.

Mas há ‘um ‘shift’ na via anunciada pelo republicano.

Numa primeira adaptação à realidade, talvez pressionado pela nova estratégia de campanha liderada por Kellyway Conway, que aponta para a necessidade de Donald se aproximar dos republicanos mais tradicionais e endossar propostas que nalguns pontos se aproximam das que foram defendidas por Jeb Bush e Marco Rubio nas primárias, Trump já admite que não seria possível“deportar em massa 11 milhões de ilegais”, como chegou a prometer na primeira fase da sua campanha.

A minha prioridade é mandar embora os tipos maus”,insistiu Donald, perante a exigência de Andersoon Cooper de obter uma resposta mais clara do candidato.

Como definir “tipos maus”? Que critérios? Só os que foram condenados por tráfico de droga ou violação, por exemplo? É que, se assim for, o discurso anti-imigração daria uma volta de quase 180 graus, dos tais 11 milhões a deportar para um número muito reduzido… e isso seria uma espécie de anti-clímax para a Direita radical, que viu no discurso duro de Trump uma esperança de alteração drástica das políticas de Imigração da administração americana.

Nem a habilidade de Cooper fez desarmar Trump: “Hey, já lhe disse, isto é um processo, não é para expulsar 11 milhões de uma vez. Não há qualquer passo para a legalização de quem não cometeu crimes. E os tipos maus não vão ter hipótese comigo”.

Perante este discurso ambíguo, talvez sinalizando uma suavização… ou talvez nem tanto assim, os campeões nos media da ala mais dura da Direita americana, como Ann Coulter ou Sarah Palin, já vieram exigir esclarecimentos ao seu candidato, deixando apelos a que não recue na promessa de dureza para com os imigrantes ilegais.

Em termos de estratégia eleitoral, a preocupação em não perder por completo o contato com algum tipo eleitorado latino mais conservador é evidente. Mas torna-se difícil de recuperar essa conexão, se nos lembrarmos que, em 2012, só 27% de hispânicos votaram em Mitt Romney, que era um nomeado republicano bem menos radicalizado do que Trump. Como será agora, com Donald a prometer muros a pagar pelo México e “documentos a expulsar ilegais assinados no Dia 1 em funções?”

Nate Silver, editor-chefe do «FiveThirtyEight», relativiza a importância deste novo posicionamento de Trump nos efeitos para o seu eleitorado natural: “Trump tem uma base de apoio não muito grande, mas fiel, cerca de 35%. Não estou certo que os seus apoiantes olhem ao pormenor ou deem uma importância excessiva ao que ele diz sobre a Imigração. Se perguntarem a republicanos sobre questões substantivas de políticas de imigração, teremos respostas surpreendentemente centristas. Grande parte dos apoiantes “hardcore” de Trump vivem em áreas em que não há assim muitos imigrantes. A imigração é uma questão simbólica. Em vez disso, os candidatos querem mesmo é mostrar que não pertencem a um ‘establishment’ corrupto”.

John Kasich, governador do Ohio, terceiro classificado nas primárias republicanas e o único que teve discurso assumidamente moderado na questão da Imigração, não se impressiona com esta mudança de discurso de Trump:“Parte do que ele agora diz defender aproxima-se daquilo que eu disse nas primárias, mas isso é normal. Questões tão complexas como estas não se resolvem com uma ‘punch line’. Exigem detalhe, discussão, comunhão de posições. O problema é que o momento político na América está tão polarizado que se torna cada vez mais difícil fazer isso”.

Se juntarmos a esta nova preocupação com o eleitorado latino as várias declarações, nos últimos dias, de Trump, anunciando um piscar de olho aos eleitores negros, como enquadrar este comportamento com tudo o que Donald disse até agora?

Dan Rather tem uma tese e partilhou-a na CNN: “Trump sabe que não tem hipóteses reais de agarrar o voto negro. O que ele pretende, verdadeiramente, quando se dirige aos afro-americanos, é dirigir-se ao eleitorado branco, para se posicionar como um candidato aceitável, credível. Está no fundo a dizer aos eleitores brancos ‘hey, vejam, eu até nem sou assim tão assustador, até estou a tentar conquistar o voto das minorias raciais’. “

Com tantas reviravoltas e ambiguidades no seu discurso sobre segurança e política externa, Donald Trump continua a perder apoios, até nos republicanos mais à direita.

Acho que vou ter que votar em Hillary. A forma como Trump elogiou tipos como Saddam ou Putin é perturbadora. A única forma de encarar isto é acreditar que ele não estava a falar a sério. Se ele fosse presidente, a segurança nacional poderia estar em causa", comentou Paul Wolfowitz, número dois do Pentágono no consulado de Donald Rumsfeld como secretário da Defesa, um dos 'falcões neocons' que arquitetaram a invasão do Iraque em 2003, no primeiro mandato de George W. Bush, em entrevista à versão inglesa do ‘Der Spiegel’.