Hillary Clinton avança amanhã, domingo, possivelmente pelo twitter, para uma segunda candidatura à presidência dos Estados Unidos da América.

Depois de dois anos e meio de rumores, sinais e fortes tendências (basicamente, desde a reeleição de Obama que se aponta a probabilidade de Hillary Clinton vir a ser candidata às primárias democratas, tornando-se, de imediato, a principal favorita à nomeação), a ex-secretária de Estado fez saber, por via de dois assessores, que escolheu o dia 12 de abril (talvez para se antecipar a Marco Rubio, senador republicano da Florida, que se apresenta na segunda) para tornar oficial o que, na prática, já quase todos sabiam.

Em 2008, Hillary falhou, por muito pouco, o comboio da História. Esteve pertíssimo de se tornar a primeira mulher a obter nomeação presidencial dum grande partido do sistema.
 
Fez quase tudo por isso: partiu muito à frente, fez campanha dura e exigente, somou 18 milhões de votos no total das primárias democratas. Só não conseguiu travar definitivamente o maior e mais bem organizado movimento social em torno de um candidato político alguma vez visto: Barack Obama 08’.
 
Mesmo assim, talvez já pensando em segunda tentativa presidencial, aceitou fazer parte do governo do rival que a derrotara («Team of Rivals») e foi, no State Department, uma chefe da diplomacia que se integrou quase em pleno na estratégia do primeiro mandato de Obama (as «nuances» de posições entre os dois, sobretudo sobre a Síria e Israel, só viriam depois de Hillary sair).

No final do seu mandato no Departamento de Estado, teve no episódio de Bengazhi (atentado que vitimou o então embaixador americano na Líbia) a maior mancha em percurso político, cívico e público de mais de quatro décadas.
 
Foi mulher de governador de estado, Primeira Dama dos EUA, senadora por Nova Iorque, segunda classificada nas primárias democratas de 2008 e secretária de Estado.
 
Formada em Wellesley, em Ciências Políticas, e em Yale, em Direito, foi sempre aluna exemplar e mereceu a distinção, muito importante no imaginário académico norte-americano, de fazer o «commencement speach» em Wellesley.

De jovem republicana a democrata de referência
 
Nascida a 26 de outubro de 1947 no Edgewater Hospital, em Chicago, Illinois, filha de Dorothy Howell, dona de casa, e Hugh Rodham, pequeno empresário da área têxtil, Hillary Diane Rodham terá dois irmãos mais novos: Hugh e Tony.
 
Longe de saber, é claro, que viria a tornar-se a primeira mulher de Presidente dos EUA nascida após a II Guerra Mundial e terceira mulher a chefiar a diplomacia norte-americana.
 
Cresceu em ambiente republicano, por influência do pai. Hillary escreve no seu primeiro livro de memórias, «Living History»: «Não nasci democrata».
 
Depois de infância tranquila, em família conservadora, desde cedo se destaca como aluna aplicada e brilhante na Maine East High School, quase sempre no quadro de honra. Gostava também de desporto, especialmente natação e beisebol. Nas férias escolares, costumava fazer «babysitting» com filhos de mexicanos que trabalhavam na zona de Chicago.

Aos 13 anos, escreveu carta à NASA, mostrando interesse em coloborar para a agência espacial americana e recebeu como resposta: «We don’t take girls» (Não aceitamos raparigas).

O seu primeiro grande envolvimento na política, ainda do lado republicano, foi com a campanha pelo candidato republicano Barry Goldwater, por influência do professor de história do nono ano, também ele ativo republicano, que a levou à leitura da obra de Goldwater, «Conscience of a Conservative» (Consciência de um Conservador), livro que inspirou Hillary para a escrita de ensaio sobre o movimento conservador americano, tornando-se numa «Goldwater Girl».
 
A viragem de republicana a democrata não foi imediata: teve a ver com uma consciência progressiva que foi ganhando, relacionada com uma leitura sobre como cada partido olhava para os direitos civis.
 
Em 1968, ainda vai à Convenção Republicana de Miami, Florida, que viria a confirmar a nomeação presidencial de Richard Nixon, envolvida na campanha do então governador de Nova Iorque, Nelson Rockefeller (que foi o segundo mais votado, atrás de Nixon e à frente de Ronald Reagan e tinha George Romney, pai de Mitt Romney, como candidato a vice-presidente).

O Arkansas, a Casa Branca, o Senado e o Departamento de Estado
 
Em 1975, já democrata, casa-se com Bill Clinton. Cinco anos depois, em 1980, terá a sua única filha, Chelsea.
 
O casamento com Bill é registo decisivo para perceber a evolução da vida pública e política de Hillary: foi mulher de um dos mais jovens governadores de estado e também um dos mais jovens presidentes da história da América.

Mas desde cedo Hillary marcou território: nunca quis «ficar em casa a fazer bolinhos» (a expressão é dela) e assumiu temas como os direitos das mulheres, das crianças, dos trabalhadores e dos utilizadores dos cuidados de saúde como combates de uma vida (no plano político e na atividade profissional, como advogada).

Os anos 80 e inícios de 90 foram passados no Arkansas; o resto da década de 90 na Casa Branca, na sua «Hillarylândia», com agenda e funcionários independentes do marido-Presidente; a primeira década dos anos 2000 no Senado e a tentar obter a nomeação democrata. Os anos mais recentes na Administração Obama e, é claro, a preparar a segunda investida à Casa Branca.
 
Um currículo potencialmente imbatível

Resiliente, determinada, ultrapassou a derrota inesperada nas primárias democratas de 2008 com inteligência, sendo capaz, em poucas semanas, de se tornar em forte apoiante de Obama, o que lhe valeu lugar de relevo como secretária de Estado.
 
Já com a campanha presidencial de 2016 no horizonte, anunciou atempadamente que não estaria disponível para segundo mandato no Departamento de Estado.
 
Sem a capacidade retórica de Barack Obama ou Bill Clinton, tem, no entanto, um tipo de discurso articulado e sempre bem fundamentado, capaz de gerar credibilidade mesmo junto dos seus opositores.
 
As sondagens até agora mostram que é fortíssima em segmentos como as mulheres, os negros e os latinos. Não tão forte nos jovens (com quem Obama foi campeão em 2008 e 2012).
 
A vantagem com que parte para a nomeação democrata (entre 40 a 55 pontos) torna-a vencedora antecipada, a menos que algo de inesperado aconteça.
 
Para a eleição geral, a história é diferente. Pode ter problemas na Florida, se o adversário for Jeb Bush ou Marco Rubio; no Midwest, se for Scott Walker; e no Sul, se a escolha dos republicanos recair num nome mais à direita, como Rand Paul (não é provável, mas não é impossível).

Não é uma candidata perfeita (o recente escândalo dos mails voltou a lembrar-nos disso). Tem um passado com alguns fantasmas (Bengazhi e Monica Lewinsky são outros) e algumas sombras no futuro (a idade avançada para quem concorre a primeiro mandato é uma delas, os problemas de saúde, com dois desmaios em pleno desempenho de funções, na parte final do mandato como secretária de Estado, é outro).

Mas o currículo pessoal e político de Hillary Rodham Clinton torna-a numa candidata potencialmente imbatível.

Aguentará 20 meses de gestão de favoritismo aparentemente tão claro?
 
Outros textos sobre Hillary Clinton já escritos em «Histórias da Casa Branca»:
 
Hillary no centro da tempestade

Hillary aguenta o embate
 
Hillary Clinton marca território
 
Hillary Clinton a adiar o inevitável
 
A «campanha sombra» de Hillary Clinton
 
Quase só trunfos para Hillary
 
Nos 67 anos de Hillary Rodham Clinton
 
A visão de Hillary

Hillary, trunfos e fantasmas

Germano Almeida é jornalista do Maisfutebol, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição» e do blogue «Casa Branca»