E quando se imaginava que Donald Trump já não poderia descer ainda mais o nível, eis que o nomeado republicano atingiu mesmo o grau zero, em comício em Wilmington, Carolina do Norte.

O contexto é este: Donald, em ambiente propício às teses pró-armas, avisava a multidão: “Amigos, se Hillary for eleita, depois pode ser tarde para quem defende a posse de armas: as escolhas dela e os juízes que ela indicar… Depois é tarde. Quer dizer: ainda há a Segunda Emenda. Talvez ainda haja. Não sei”.

O “mainstream” político norte-americano entrou em choque.

O comentário inacreditável de Donald Trump passara todas as marcas. Não havia memória de outra referência tão próxima de um apelo à violência contra o adversário numa corrida presidencial norte-americana.

A irresponsabilidade de Trump mereceu intervenção discreta dos Serviços Secretos americanos junto do candidato republicano.

Mas Donald, entretanto, veio garantir que não apelou a um assassinato a tiro da adversária, estava apenas a "tentar unir os possuidores de armas a votar contra Hillary".

A candidata democrata admitiu a perplexidade: “As palavras contam. Trump atingiu um novo mínimo na sua campanha de raiva, ressentimento e agressividade. A América é melhor do que isto”.

Dan Rather, na CNN, não o fez por menos: “Nunca vi nada parecido em campanhas presidenciais. Donald Trump não olha a meios para dominar cada ciclo noticioso. Diz o que lhe apetece, não pensa nas consequências. Isso não lhe importa minimamente. Isto não é um comportamento de um candidato presidencial”.

A tese, defendida há muito pelo Presidente Obama, está assim a propagar-se a outros setores.

Robert Kagan, um dos pensadores mais respeitados da Direita americana, já tinha, em maio, tomado posição muito crítica sobre Donald Trump, em artigo que referia, a propósito da nomeação presidencial republicana, que “o fascismo” tinha chegado “à política americana”.

A 1 de agosto passado, em artigo no Washington Post, o “senior fellow” do Brookings Institution atirou: “Algo de muito errado se passa com o Donald Trump. Dou por mim a pensar que os líderes republicanos começam a perceber que podem ter oferecido o seu destino e o destino do seu partido a um homem comm um distúrbio de personalidade”.

Está em marcha um plano da candidatura Hillary para captar o maior número possível de apoios de republicanos indignados com o comportamento de Trump.

Annie Karni, no Politico, explica: “A cada dia que passa, o número de republicanos desiludidos aumenta. Políticos republicanos eleitos para cargos públicos, figuras relevantes das administrações George W. Bush, CEO de empresas que aparecem nas 500 mais ricas da Fortune, todos a repudiar Donald Trump. A deserção no GOP em relação ao seu nomeado presidencial não tem precedentes. Parte é orgânica, mas a maior fatia tem vindo a ser modificada pela campanha de Clinton”.

Poderá mesmo vir a ser formado um movimento organizado sob o título Republicanos por Hillary (durante a Convenção Democrata, já tinha havido sinais a apontar para aí, tendo em conta as escolhas dos oradores e a argumentação usada).

Já na quinta-feira, mais 75 republicanos juntaram-se numa carta ao RNC (Comité Nacional Republicano), apelando a que a estrutura central do partido retire o financiamento a Donald Trump para se evitar um “landslide democrata”.

Sean Wilentz, na Rolling Stone, sentencia: “O espetáculo político do último ano transformou a corrida presidencial de 2016 num momento com profundo significado. Ao nomear Donald Trump, o Partido Republicano tornou-se o veículo para um autoritarismo e nacionalismo nativo que, até agora, não tinha tido paralelo na política americana moderna. Hillary Clinton apostou numa campanha simultaneamente progressista e mainstream, numa versão atualizada que remonta à herança de Franklin Roosevelt. Esta é a escolha que os americanos enfrentam – entre alternativas tão radicalmente diferentes entre si como nunca aconteceu na histórias das eleições presidenciais americanas, exceto em 1860, que levou à Guerra Civil”.

Candidatos apresentam planos económicos

Perante tamanha polarização, e com o suceder dos desvarios verbais de Trump, o conteúdo das propostas dos candidatos vai ficando relegando para segundo plano.

Mas, curiosamente, os últimos dois dias até foram férteis em conteúdo nas mensagens dos candidatos.

Donald Trump, numa tentativa de travar os efeitos mediáticos da polémica da “Segunda Emenda”, apresentou o seu plano económico, focado em cortes fiscais, fim da regulação e rejeição (ou nalguns casos renegociação) dos grandes acordos comerciais assinados pelos EUA nos últimos anos (NAFTA, TPP e TTIP a celebrar com a Europa).

Hillary Clinton, em visão bem diferente, apresenta propostas de aumento de impostos às grandes fortunas, aumento de despesa no apoio à criação de emprego e no alívio fiscal a empresas que apostem em contratar mais americanos. 

A democrata criticou o plano do adversário, chamando-lhe "Trump Loophole", por considerar irrealista a via de cortes fiscais apresentada. 

E sobre a aposta de Trump em revogar os "trade deals", Hillary, que embora apoie a via dos acordos desenvolvida nos anos Obama tem uma visão mais cética sobre o TPP do que o Presidente, explicou que travará os "os trade deals que matem postos de trabalho para os americanos".