«Não estou certo que Raul Castro, à idade de 80 e tal anos, vá mudar de forma significativa - mas haverá uma mudança geracional clara em Cuba»
BARACK OBAMA, Presidente dos EUA, entrevista a David Muir, na ABC, horas depois do anúncio histórico


Nunca foi prudente anunciar a morte política de Barack Obama.
 
Desde 2007, quando se garantia que Hillary Clinton «acabaria por bater» o então jovem senador negro do Illinois, esse anúncio foi repetido vezes sem conta: enquanto candidato democrata às primárias, enquanto nomeado presidencial em 2008, na «tempestade» económica dos primeiros anos de presidência, na batalha pela reeleição em 2012, nos primeiros dois anos do segundo mandato na Casa Branca, depois da derrota pesada nas intercalares de novembro de 2014.

Nesses, e em muitos outros momentos, multiplicaram-se as notícias sobre a «morte política de Barack Obama». Ora, momento a momento, batalha após batalha, essas notícias revelaram-se sempre manifestamente exageradas. 

Nas últimas semanas, no pós-intercalares, o 44.º Presidente dos Estados Unidos foi apresentado como o «lame duck» (pato coxo), que se limitaria a assistir, até à tomada de posse do seu sucessor, perante a maioria esmagadora dos republicanos no Congresso (a partir de janeiro, nas duas câmaras) e com as atenções mediáticas a começarem a virar-se para a corrida presidencial de novembro de 2016. 

Ora, como por aqui se escreveu logo a seguir às intercalares, Barack Obama não vai querer ser apenas um «pato coxo» no jogo político americano. 

Bem pelo contrário: perdidas, por completo, as esperanças de «bipartidarismo» em Washington, o Presidente sente agora, finalmente, espaço livre para, nos últimos dois anos, assumir a sua visão ideológica, sem se preocupar muito com os «consensos alargados» no complicado ambiente político na capital norte-americana. 

Não é que o clima de negociação tenha terminado. Nada disso: o acordo feito sobre despesa (com a contrapartida da «prenda» a Wall Street com o recuo em parte da reforma Frank/Dodd) mostra que ainda há condições para, pelo menos, evitar a repetição de erros como «shutdown» de outubro de 2013. 

Mas Obama, nas semanas que se seguiram à derrota nas intercalares, sinalizou de forma clara que quer aproveitar até ao fim o seu mandato na Casa Branca para deixar a sua marca ideológica e um «legado».

As medidas executivas unilaterais sobre Imigração tinham sido o primeiro grande sinal - com especial preocupação do Presidente de evitar a deportação imediata de cerca de cinco milhões de imigrantes ilegais. 

Já nesse momento, Barack Obama dava conta de um foco muito particular na comunidade hispânica, cada vez mais influente na sociedade americana e simplesmente decisiva na sua reeleição (71% dos eleitores latinos preferiram Obama a Romney em 2012).

O que quase ninguém esperaria era que o grande trunfo que Obama preparava para vincar essa sua nova posição seria este acordo histórico que permitiu o reatar de relações com Cuba, 53 anos depois.

Foram 18 meses de conversas mantidas em total segredo (o que, mesmo a nível tão elevado não é fácil nos dias que correm, entre o perigo de escutas, fugas e indiscrições de intermediários...), iniciadas com um sugestivo «We have to talk» (temos que conversar), dito pelo congressista Jim McGovern, em fevereiro de 2013, a Raul Castro, em pleno Palácio da Revolução em Havana.

O congressista McGovern, democrata do Massachussets, não estava sozinho na sua vontade de reatar relações entre Washington e Havana. Muitos outros políticos e empresários americanos sentiam essa necessidade.

Depois, havia a questão dos prisioneiros a resolver. Tudo começou com a libertação, por motivos humanitários, do empreiteiro americano Alan Gross, por parte do regime cubano, em troca de três prisioneiros dos serviços secretos cubanos, em solo americano.

O Presidente dos EUA compreendeu o espaço comum para que acontecesse um avanço histórico:  «Não estou certo que Raul Castro, à idade de 80 e tal anos, vá mudar de forma significativa - mas haverá uma mudança geracional clara em CubaA questão chave aqui está em usar a lista de entendimentos baseada em factos, não na ideologia. Fui muito insistente com Castro para que ele continue a promover a democracia e os direitos humanos e de expressão, em nome da liberdade do povo de Cuba», apontou Obama a David Muir, em entrevista a David Muir, na ABC.

Obama anunciou um «estender de mão a Cuba para uma nova relação de amizade», recordando, em frase com foros para ser lembrada daqui a décadas: «Todos somos americanos».  

O Papa Francisco foi o mediador improvável, utilizando o seu prestígio mundial (que não tem par, neste momento, com qualquer líder político) e fazendo uso também da forte componente católica da comunidade cubana nos EUA.

Ainda não está tudo garantido neste tema tão surpreendente. Obama tem poder para, como Presidente, decretar o reatar de relações com Cuba e negociar a troca de prisioneiros. 

Mas para concretizar a aproximação económica e, no limite, decretar o levantamento do embargo, é preciso passar pelo crivo do Congresso.

Uma parte do Partido Republicano estará até recetivo a uma abertura a Cuba (Rand Paul, senador do Kentucky e possível candidato a 2016 diz que «o embargo não resultou e é positivo que se abra a Cuba»), mas alguns dos mais influentes republicanos no Senado reagiram com fúria.

Sobretudo dois dos principais congressistas republicanos com ligações latinas: Marco Rubio, da Florida, falou em «vitória da opressão» e acusou Obama de «fazer cedências inaceitáveis a ditadores» e de «não saber negociar». E Ted Cruz, do Texas, alinhou por registo idêntico.

A verdade é que os primeiros indicadores mostram que Obama tem forte apoio na opinião pública norte-americana, ao enveredar por este caminho.

Até há semanas, Vladimir Putin era apontado como um dos vencedores do ano e Barack Obama como o grande perdedor. Hoje, a Rússia está a tentar evitar o colapso económico interno e o Presidente dos EUA capitaliza o acordo histórico com Cuba. Os balanços internacionais de 2014 nos media estarão a ser alterados à pressa por estes dias. 

As notícias da morte política de Barack Obama eram manifestamente exageradas. 

Germano Almeida é jornalista do Maisfutebol, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição» e do blogue «Casa Branca»