Cinco candidatos, mais de três horas de debate. O primeiro frente a frente televisivo antes das eleições presidenciais em França ficou marcado pelos ataques a algumas das propostas mais polémicas de Marine Le Pen. A candidata da Frente Nacional foi obrigada a uma postura mais defensiva, que não a terá favorecido.

É que, segundo uma sondagem pós-debate citada pela Reuters, 29 por cento dos franceses que assistiram à discussão consideraram o independente Emmanuel Macron o candidato mais convincente, seguido do representante da extrema-esquerda, Jean-Luc Melenchon, com 20 por cento. Le Pen e o conservador François Fillon empataram no terceiro lugar e o socialista Benoit Hamon foi considerado o menos convincente.

Europa, euro e Brexit

Um dos temas em destaque foi a relação de França com o resto da Europa e a intenção de Marine Le Pen sair do euro e referendar a permanência na União.

“Não se sai do euro e se abandona a proteção do Banco Central Europeu por uma aventura”, afirmou Fillon, acusando Le Pen de querer causar “o caos económico e social”.

Na resposta, a líder da Frente Nacional citou o exemplo do Brexit, garantindo que o adversário só deseja incitar “o medo”.

No entanto, o caso britânico foi aproveitado pelo rival Macron: “Todos os que diziam que o Brexit ia ser maravilhoso fugiram e esconderam-se.”

Marine Le Pen defendeu-se então com a sua análise de uma Europa dominada pela Alemanha: “Eu não quero ser a vice-chanceler de Angela Merkel.”

Recorde-se que, se as presidenciais em França fossem hoje, dizem as sondagens que Emmanuel Macron e Le Pen passariam a uma segunda volta, que se realizará a 7 de maio, e na qual o independente é favorito.

Mais atrás nas intenções de voto, tanto Benoit Hamon como Jean-Luc Melenchon também aproveitaram para acusar a líder da extrema-direita.

O socialista apelidou de “repugnante” o discurso de Le Pen sobre a violência nas escolas francesas, onde alega a líder da Frente Nacional que os alunos têm “medo” de um “pesadelo diário”, defendendo também um reforço do ensino da língua francesa. “Como é que você aprende francês? Falando a língua!”, ripostou Melenchon.

Islamismo e símbolos religiosos

Outro dos temas mais polémicos diz respeito à comunidade muçulmana em França e ao direito ou proibição do uso de símbolos religiosos.

Marine Le Pen alegou um “crescimento do islamismo radical no país” e acusou mesmo o adversário Macron de o apoiar, ao defender o uso de burquíni (fato-de-banho usado por muçulmanas que provocou polémica no último verão em França quando foi proibido em algumas praias).

“Você está a falhar aos eleitores ao distorcer a verdade (…) A armadilha em que está a cair, com as suas provocações, é a de dividir a sociedade”, respondeu o independente, lembrando que “mais de quatro milhões de franceses” são muçulmanos.

Os escândalos

Enquanto Macron e Le Pen lutavam por convencer os ainda milhões de indecisos, o conservador Fillon, que em tempos foi considerado o favorito para a eleição, esteve mais reservado e, apesar de não ter sido frontalmente atacado pelo escândalo que envolve pagamentos à sua esposa, aproveitou para se defender.

“Posso ter cometido alguns erros. Tenho defeitos, mas quem não tem? Mas eu tenho experiência [para o cargo].”

Também Marine Le Pen está envolvida num escândalo referente ao uso ilegal de fundos do Parlamento Europeu, mas os adversários decidiram não entrar por aí. Apenas Melenchon pediu aos eleitores para “recompensarem os virtuosos”.

Abstenção e indecisos

Segundo as sondagens, apenas 65 por cento dos eleitores franceses estão a pensar votar na primeira volta, que se realiza a 23 de abril. A confirmar-se este número, seria um recorde de participação negativo.

Os analistas referem que uma elevada taxa de abstenção pode favorecer Marine Le Pen, uma vez que os seus apoiantes são considerados os mais leais e menos sujeitos a mudar de opinião.

Até às eleições, vão ser realizados mais dois debates televisivos. Deste ficaram excluídos seis candidatos: Nicolas Dupont-Aignan, Nathalie Arthaud, Philippe Poutou, Jacques Cheminade, Jean Lassalle e François Asselineau.