Os investigadores franceses concentraram-se, esta quinta-feira, na procura de eventuais cúmplices de Sid Ahmed Ghlam, o jovem franco-argelino que foi detido, no domingo, em Paris, suspeito de querer atacar pelo menos uma igreja nos arredores da capital francesa, em nome do Islão mais radical.


Sid Ahmed Ghlam (Reprodução Twitter/BFMTV)


Em declarações à France Inter, o primeiro-ministro francês admitiu que o estudante de 24 anos tenha recebido ordens da Síria. De acordo com Manuel Valls, desde janeiro já foram neutralizados cinco atentados em França.

«A ameaça nunca foi tão grande. Não tínhamos lidado, até ao momento, com este tipo de terrorismo. Este jovem não agiu sozinho. Estas pessoas não agem sozinhas e vimos isso nos ataques que ocorreram em janeiro. Há redes e pessoas que se ocupam da logística. A investigação deve, por isso, continuar com determinação, mas também com as reservas necessárias para que possa ser mais eficiente», afirmou esta quinta-feira o chefe do executivo francês.

 

Detido por acaso

 
A polícia francesa revelou na quarta-feira ter evitado, quase por acaso, um novo e iminente ataque terrorista, tendo por alvo «uma ou duas igrejas». Um franco-argelino, de 24 anos, estudante de informática, foi detido em Paris no domingo de manhã depois de ele próprio ter chamado uma ambulância, alegando ter sido atacado e ferido a tiro, num alegado acerto de contas.

Um ferimento desta natureza implica uma investigação policial. No decurso da mesma, as autoridades francesas descobriram no carro e no apartamento do suspeito, identificado como Sid Ahmed Ghlam, mais do que seria de supor.
 

O ministro francês do Interior Bernard Cazeneuve comentou a detenção, para revelar que “no 13.° distrito de Paris, a polícia descobriu, no carro e na casa de um indivíduo que tinha sido atingido a tiro, uma vasta coleção de armas de guerra, armas ligeiras, munições, coletes à prova de bala, material informático e telefónico.”

A detenção teve outros desenvolvimentos surpreendentes. O indivíduo já era conhecido dos serviços de informação franceses, pelas tentativas de viajar para a Síria. E mais: o ADN deste estudante franco-argelino terá sido encontrado também no carro, onde, no domingo, foi descoberto o cadáver de uma francesa.
 
 
Aurélie Chatelain, professora de fitness, de 32 anos, foi encontrada morta com ferimentos de bala, em Villejuif, nos arredores sul de Paris, onde se localizariam também as igrejas que seriam os alvos dos referidos ataques iminentes.

No decurso da investigação, na segunda-feira, as autoridades alargaram o perímetro das buscas a Saint-Dizer, Haute-Marne, centrando-se no bairro de Vert-Bois, que é considerada uma zona sensível. A Brigada de Investigação e Intervenção isolou a área e, com recurso a explosivos e armas de fogo, entrou à força na garagem de um pequeno pavilhão. Uma mulher, de 25 anos, que envergava uma burca, foi detida, por alegada associação ao jovem estudante franco argelino.
 

Suspeito terá recebido ordens da Síria


Na quarta-feira, em conferência de imprensa, o procurador de Paris afirmou que além, de material informático, armas e vídeos, os investigadores encontraram em casa do suspeito “documentos em língua árabe que evocam as organizações terroristas Al-Qaeda e Estado Islâmico".

François Molin acrescentou que, graças ao material informático apreendido, os investigadores descobriram também que o jovem franco-argelino «estava em contacto com uma pessoa que poderia estar na Síria, e da qual receberia instruções para levar a cabo um atentado e que lhe pediu que o alvo fosse uma igreja».

Para o procurador de Paris, estas informações são a prova de que Sid Ahmed Ghlam tinha, pelo menos, um cúmplice e talvez até mais do que um.

Citado pelo jornal «France Soir», François Molin revelou também que, depois de ser detido, o suspeito proferiu declarações «fantasiosas», em que afirmou que queria deitar fora as armas para o rio Sena e que «foi nessa altura que deu um tiro na própria perna». Invocando o direito ao silêncio, o jovem franco-argelino não voltou a dizer mais nada.

O procurador de Paris indicou que é provável que Sid Ahmed Ghlam veja prolongada até seis dias a sua detenção.

A investigação do caso prossegue, numa altura em que decorrem três meses e meio após os atentados de janeiro na zona de Paris. O primeiro contra o jornal satírico Charlie Hebdo e o segundo contra um estabelecimento comercial judaico, dos quais resultaram 17 mortos.
 

Atentado tinha como alvo os “católicos de França”


O primeiro-ministro francês alerta que o caso de Sid Ahmed Ghlam demonstra que o problema do terrorismo está sempre na ordem do dia. e que o objetivo do Governo é proteger os franceses.

“Tanto o nosso país como outros fazem face a uma ameaça terrorista sem equivalente no passado pela sua natureza e amplitude”, afirmou Manuel Valls, ao final da tarde de quarta-feira.
 

 

O chefe do Governo francês revelou que o atentado, que foi desmantelado pela polícia no passado fim-de-semana, tinha como alvo «os cristãos, os católicos da França».

"Em janeiro, foi a liberdade de expressão, as forças da ordem, os franceses judeus que foram atacados. Desta vez, foram os cristãos, os católicos de França os visados, pela primeira vez", indicou o primeiro-ministro.


Manuel Valls fez saber que a igreja é considerada "um símbolo da França", realçando que o possível ataque tinha como objetivo atacar "a própria essência do país".