Um grupo de ministras e ex-ministras francesas resolveu tomar posição contra as atitudes sexistas de perseguição às mulheres, após as denúncias de que o deputado da Assembleia Nacional, Denis Baupin, tinha assediado sexualmente uma deputada do Partido Os Verdes, e cinco anos após o antigo diretor do FMI, também francês, ter sido acusado por uma empregada de hotel de tentar violá-la.

 

 

Pressionado, o ecologista Denis Baupin anunciou a sua demissão do cargo. Casado com uma ministra e defensor público dos direitos das mulheres, Denis Baupin tinha, alegadamente uma atitude bem diferente em privado, incluindo o assédio a colegas de partido. As denúncias tornadas públicas por alguns media francesas levaram ao seu afastamento e também a uma reação das mulheres que já estiveram ou estão na política em França. A mulher e ministra da habitação não assinou o protesto.

Entre o grupo de governantes francesas que assinou o manifesto contra o assédio sexual destaca-se Christine Lagarde, atual diretora do Fundo Monetário Internacional, a mulher que ocupa um dos lugares de maior poder financeiro no mundo. Ela que sucedeu a Dominique Strauss-Kahn à frente do FMI, depois deste se ter envolvido num escândalo de agressão sexual à camareira de um hotel de Nova Iorque, o que também acabou por condicionar a sua eventual candidatura à presidência francesa.

Nós fomos ministras e fomos eleitas. E como todas as mulheres que assumem posições em lugares detidos exclusivamente por homens, tivemos que lugar contra o sexismo”, referem no texto. 

Mulheres e políticas, mulheres que aproveitam o seu palco na sociedade para defender as outras, independentemente da cor política.

Estamos envolvidas na política por razões diversas, defendemos ideias diferentes, mas temos um desejo comum, que nos leva a defender que o assédio sexual não tem lugar na nossa sociedade. Esta realidade não é exclusiva do nosso universo, mas a política tem de dar o exemplo”.

O manifesto não é, portanto, só sobre as mulheres francesas na política, mas sobre o assédio de que todas as mulheres são alvo, independentemente da profissão ou da classe social. O problema é transversal.

O que relatamos aconteceu connosco ou com alguns dos nossos pares, mas a questão não se esgota aqui. Acontece todos os dias com as mulheres nos transportes, nas ruas, no trabalho, nas faculdades. Por isso, basta. Acabou a impunidade. Não vamos continuar caladas”, como concretiza o texto.

“Um colega não pode dizer sobre  uma mulher, independentemente do seu estatuto (…): ‘Além dos belos seios, como é que é?”, lê-se no manifesto publicado pelo Journal de Dimanche.

 

Nicolas Sarkozy, com as ministras do seu Executivo, mais à esquerda está Roselyne Bachelot. Christine Lagarde está de fato azul, na frente. Foto Reuters, 2007

Ao todo são 17 as mulheres de peso na política francesa que dão consistência a um tema numa sociedade cujas profissões de chefia ainda são dominadas por homens. Uma das signatárias do manifesto, Roselyne Bachelot, foi protagonista de um momento perturbante, como recorda o jornal.  Em 1982, quando discursou pela primeira vez na Assembleia, um colega atirou a frase. “Começou o concerto das vaginas”. Mais de três décadas depois, ela que se manteve na política e foi ministra três vezes, diz “basta”.