Em junho passado, já depois das eleições presidenciais e antes das legislativas, Jean-Luc Mélenchon, líder do movimento França Insubmissa, denunciou o "culto de personalidade" à volta de Emmanuel Macron.

As palavras prenderam-se com aquilo que o dirigente de extrema-esquerda entendeu ser um "ambiente de auto-celebração", que não permitiu debater "as grandes questões" face à eleição de deputados para a Assembleia Nacional francesa. 

A leitura de Mélenchon não encontrou eco na maioria da população, a julgar pelos resultados de uma sondagem do instituto Odoxa para o jornal francês Le Figaro, publicada no dia 30 de junho. O estudo mostrou que dois terços dos franceses (62% das pessoas inquiridas) deram razão a Macron "por frequentemente 'encenar' a sua comunicação presidencial". Mais: cerca de 74% classificaram a tática do chefe de Estado como "boa" ou "muito boa".

Os números são reveladores da estratégia do presidente francês. Desde que tomou posse, Macron tem sido minucioso na forma como se apresenta ao país - e ao mundo -, com o objetivo de projetar uma determinada imagem do cargo que ocupa.

Citado pelo jornal britânico Financial Times, Thomas Guénolé, politólogo, acredita que "os franceses estavam fartos de ter alguém que parecia um homem normal como chefe de Estado", numa referência ao ex-presidente de França, François Hollande.

Restaurar o legado do cargo

Para compreender que tipo de imagem Emmanuel Macron está a tentar cultivar, o seu retrato oficial será, porventura, o melhor indicador.

Nesta fotografia, dada a conhecer em final de junho, surge o novo presidente no centro do plano. Atrás, destacam-se as duas bandeiras: à esquerda, a francesa; à direita, a da União Europeia, sinal da vontade de compromisso com o bloco comunitário, na sequência de uma segunda volta presidencial marcada pela presença da candidata de extrema-direita e anti-europeísta, Marine Le Pen.

Além de certos pormenores como o relógio a marcar a hora de início de trabalho (8:20), a janela aberta para o jardim a sublinhar o desejo de abertura com a população, ou a curiosa presença de um "smartphone" no lado esquerdo a denunciar um político ciente da modernidade tecnológica em que vive, um outro detalhe ajuda a perceber os paralelismos que o jovem chefe de Estado procura traçar. Trata-se do livro aberto sobre a mesa - as Memórias de Guerra do general Charles de Gaulle, primeiro presidente da atual Vª República, que descreve a história da resistência francesa ao longo da Segunda Guerra Mundial. A presença da obra aparenta revelar a pretensão de Macron em restaurar o espírito da presidência do histórico líder de França.

Esta alusão ao general não é indissociável de outro caráter frequente nestes primeiros meses do novo homem do Eliseu: a demonstração da força nacional através do poder militar - uma escolha "deliberada" escreveu Angelique Chrisafis, correspondente em Paris do jornal britânico The Guardian, "numa altura em que o país ainda se encontra sob estado de emergência". Efetivamente, no dia de tomada de posse, em maio passado, Macron quebrou a tradição e apresentou-se aos franceses num jipe do exército, desfilando na avenida dos Campos Elísios até acender a chama do túmulo do soldado desconhecido, em memória dos combatentes mortos na Primeira Guerra Mundial.

A escolha de apresentar o poder militar de França - intrinsecamente ligada à figura de autoridade que Macron tenta potenciar -, também figurou nas comemorações do Dia da Bastilha, esta sexta-feira, que teve Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, como convidado. Apesar da ocasião servir para assinalar o centenário da entrada dos norte-americanos na Primeira Guerra Mundial, as forças presentes no feriado nacional servem, simultaneamente, para mostrar ao líder da Casa Branca uma França determinada em reafirmar-se na cena internacional, sobretudo na luta contra o terrorismo e nas suas operações no Médio Oriente, incluindo a questão da Síria (temas que dominaram, aliás, a reunião entre Trump e Macron, na tarde desta quinta-feira). 

Mas a prova de força militar ficou igualmente clara à chegada do presidente norte-americano a Paris. Em vez de ser imediatamente recebido pelo homólogo francês no Palácio do Eliseu, o primeiro encontro teve lugar nos Inválidos. Aqui, passaram pelo túmulo do imperador Napoleão I (Napoleão Bonaparte), seguido pelo do marechal Ferdinand Foch, que liderou a aliança entre franceses, britânicos e russos, em 1914, durante a Grande Guerra.

Trump não foi o único chefe de estado a merecer uma apresentação diplomática personalizada. Ainda este mês, Vladimir Putin, presidente russo, foi recebido no Palácio de Versalhes, historicamente ligado ao rei Luís XIV, monarca absoluto. Segundo Frédéric Biamonti, politólogo, a escolha teve um duplo significado. "Por um lado, trata-se (...) de inscrever este encontro no tempo, pela forma como o local simboliza o que o Estado tem de mais precioso", declarou, em entrevista ao jornal francês Le Parisien. "E, por outro, trata-se de esmagar o seu convidado sob a pompa, de o sufocar sob a grandeza tricolor", concluiu. Lembra o Le Parisien, que a receção de líderes políticos em Versalhes foi algo recuperado por... de Gaulle.

Afirmar a modernidade

A estratégia de Emmanuel Macron não se centra somente na restauração do legado histórico e da autoridade associada ao cargo. O mais jovem presidente de França também pretende incutir um estilo de modernidade na representação da presidência. A frequente publicação de "selfies" com os franceses nas suas páginas nas redes sociais, traduzem precisamente essa atenção. Ou, mais recentemente, a fotografia do chefe do Eliseu a jogar ténis nas Jornadas Olímpicas de Pais, no apoio à candidatura da cidade para sede dos Jogos em 2024.

O resultado acaba por ser um formato híbrido. Os franceses julgavam ter eleito "um presidente jovem, 'cool', um homem do seu tempo", como escreve a versão europeia do jornal Politico, "parte da geração Facebook (...), da 'uberização' da sociedade e da economia liberal". Apesar das provas de informalidade, o país obteve, consequentemente, um líder "que carrega nos ombros, séculos marcados por estadistas franceses". Uma visão aprofundada por Philippe Moreau Chevrolet, diretor da agência de comunicação francesa MCBG. "Ele está a tentar adaptar o antigo estilo francês 'republicano e monárquico' para o século XXI", revelou ao Financial Times. "Ele quer ser de Gaulle mas também Trudeau [primeiro-ministro canadiano]", rematou.

Contactado pela TVI24, Rui Tavares também concorda que o novo líder francês procura inspiração nos antigos presidentes. Além de Valéry Giscard d'Estaing por aparecer "de maneira semelhante à de Macron", o historiador considera François Mitterrand como a referência principal, devido a uma mesma "ligação simbólica à história, à cultura, à literatura". "Há toda uma tradição 'mitterrandiana', de imagens fortes, que Macron tenta ir beber", conclui.